Os 50 anos de decretação do AI-5 (Ato Institucional nº 5), o infame decreto que escancarou a ditadura corrupta dos militares no Brasil em dezembro de 1968, fazem lembrar não só a tortura, os crimes, as execuções extrajudiciais, as invasões de residências e a censura, mas também a resistência ao arbítrio conduzida por advogados, estudantes, intelectuais, ativistas democratas e, claro, por jornalistas. É até bem documentada a história da imprensa alternativa durante a ditadura, com jornais como O Pasquim, Opinião, Movimento, O Sol, Coojornal, Jornal da República, e as revistas Pif Paf, Cadernos do Terceiro Mundo e RCB (Revista Civilização Brasileira). Mas nada se encontra sobre a resistência na comunicação alternativa por meio de agência de notícias.

Pois o Brasil teve, sim, um serviço noticioso de distribuição criado para enfrentar a ditadura: foi a Frente Brasileira de Informações (FBI, numa jocosa sigla), fundada em 1969 por opositores do regime exilados em Argel, capital da Argélia, e em Paris. O principal artífice da agência foi o ex (e futuro) governador de Pernambuco, Miguel Arraes, que tinha sido preso no dia do golpe de 64 e, libertado em maio do ano seguinte, foi sob exílio para a Argélia.

Junto a Arraes, trabalharam o escritor cearense Everardo Norões, seu sobrinho, os jornalistas Marcio Moreira Alves (1936-2009; deputado cassado e pivô do AI-5, que inicialmente estava no Chile), Neiva Moreira (1917-2012) e o matemático Bayard Boiteux (1916-2004), estes dois últimos ambos ex-guerrilheiros do Caparaó. De fato, a FBI funcionava como uma “frente”: uma central de captação e redistribuição de informações composta por militantes de distintos grupos opositores da ditadura brasileira: desde a oposição institucional do MDB, o PCB banido porém pacífico, até guerrilhas como a ALN (Ação Libertadora Nacional) e VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

Miguel Arraes e Magdalena lendo notícias em Argel: cidade magrebina foi ponto de triagem de informações

Uma nota metodológica é necessária aqui antes de prosseguir: grande parte do que se sabe sobre a FBI, além dos depoimentos dos participantes (a maioria deles já falecidos), tem origem no compilado incluso em um fantasioso livro mimeografado de militares brasileiros, “As Tentativas de Tomada do Poder”, também conhecido pelo infantil cognome de ORVIL (a palavra “livro” ao contrário), lançado em 1988 e organizado pelo coronel Agnaldo Del Nero, sob encomenda do então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves. Reeditado e digitalizado pelo tenente-coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel e pelo tenente José Conegundes Nascimento, o delirante documento de 953 páginas foi divulgado por ninguém menos que o criminoso Carlos Alberto Brilhante Ustra (que prefacia o PDF circulado) em sites como averdadesufocada.com.br e olavodecarvalho.org. Muito do que se publicou de pesquisas sobre a FBI a posteriori, inclusive em trabalhos acadêmicos de orientação crítica, foi extraído desse calhamaço como fonte primária. Todo cuidado é pouco, então, para não reproduzir essas alegações de forma acrítica.

Segundo o projeto “Resistir É Preciso“, do Instituto Vladimir Herzog (IVH), o serviço tinha o objetivo de “denunciar a repressão feroz que se abateu sobre as esquerdas e angariar apoio para a luta contra a ditadura”, como “a tortura e o assassinato de dirigentes políticos e militantes”. A produção da FBI contava “com o apoio de militantes de diversas organizações” e seu serviço era “distribuído em mais de uma dezena de países“.

No Uruguai, os contatos da agência eram Carlos Figueiredo de Sá, juiz e militante da ALN, e Paulo Schilling (1925-2012), antigo brizolista gaúcho. No Chile, estavam Moreira Alves e o também deputado Almino Afonso. Em Lima, o correspondente era outro deputado, o médico David Lerer (MDB-SP), também cassado no AI-5. Em Portugal, estava o atual antropólogo Mauro Leonel Junior. De Londres, trabalhava o casal Maria Regina e Carlos Eduardo Sena Figueiredo. Na França, chegou depois Renato Archer (1922-1996), cientista e militar, antigo militante da esquerda maranhense, como Neiva Moreira (e que depois da redemocratização se bandearia para o grupo de José Sarney, de quem foi ministro). O brasilianista James Green, por sua vez, registra praças de colaboração na Bélgica, Suíça, Suécia e Canadá. Cruz cita ainda grupos na Alemanha Ocidental e na Holanda.

De Paris, dava suporte à distribuição a irmã do governador, Violeta Arraes (1926-2008). Segundo o então guerrilheiro da ALN e atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, que foi exilado na França por 11 anos e era o contato da guerrilha com o governo argelino, a irmã de Arraes era o elo de ligação entre as diversas correntes que cooperavam na agência.

Violeta foi a alma da Frente Brasileira de Informações, fundamental para a denúncia dos crimes contra os direitos humanos cometidos pela ditadura. Ela era mais do que uma referência: como estava acima das divisões entre partidos e grupos políticos, conversava com todos, aglutinava todos”, disse, em entrevista à Folha de S.Paulo por ocasião da morte da militante.

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A FBI distribuía boletins informativos em espanhol, francês, inglês e italiano, além do português — voltado mais para a imprensa de Portugal, ainda sob a ditadura salazarista, do que brasileira. Neles, a agência também se apresentava como Front Bresiliénne de Information, em francês; Frente Brasileño de Informaciones, em espanhol; e Fronte Brasiliano d’Informazione, em italiano. Grande parte da tradução era escrita pelo teólogo e ex-padre pernambucano Almeri Bezerra de Mello, poliglota que estudara no Vaticano. Outra redatora era Yara Gouvêa (que assinava Sônia Taffasca), militante da VPR, graduada em Letras e pós-graduada na Sorbonne, que acompanhou os Arraes no exílio. Conforme artigo de Maria Cláudia Badan Ribeiro, “foi ela a responsável pela montagem da primeira sede da publicação do boletim da Frente Brasileira de Informações (FBI), realizada num apartamento na Kasbah transformado em um laboratório de fotografias.”

O nome em francês, “Front“, acabou usado como um apelido da agência entre os colaboradores.

O manifesto de fundação da FBI, traduzido e reproduzido de Notre Combat pelo SNI, dizia:

A Frente Brasileira de Informações propõe-se a assegurar a defesa do povo brasileiro em luta e a difundir as informações e os documentos capazes de permitir um conhecimento exato da situação no Brasil, rompendo, assim, a barragem da censura imposta pela ditadura.
A Frente Brasileira de Informações denunciará, por todos os meios à sua disposição, o domínio imperialista sobre o Brasil, as medidas tomadas pela ditadura contra o povo e as ações específicas de repressão. Para este fim, ela se esforçará em fazer chegar à imprensa e às organizações internacionais, bem como aos brasileiros, tanto do interior quanto do exterior, todas as informações necessárias.
A Frente Brasileira de Informações abrirá escritórios, em todos os países, com a finalidade de promover a circulação de informações de qualidade e estabelecer ligações com todos aqueles que, no exterior, estejam ou não organizados em comitês de assistência, dando apoio à luta de nosso povo ou sua ajuda às vítimas da ditadura“.

Os trechos grifados descrevem, com exatidão, as atividades de uma agência de notícias.

Em sua tese de doutorado de 2016 na USP, o historiador Fábio Lucas da Cruz afirmou que a FBI “interligou exilados brasileiros em países europeus e americanos para divulgar boletins com denúncias sobre a desigualdade social, a censura e a tortura na ditadura brasileira”. Segundo o autor, a FBI teve papel fundamental em compilar listas de vítimas da tortura e de execuções sumárias, denunciando-as no exterior. De acordo com o projeto do IVH, as denúncias veiculadas pela FBI “foram fundamentais para iniciativas como o Tribunal Bertrand Russel, em que se deu a condenação internacional mais importante do regime militar, em 1974″, sendo usadas como provas para a sentença simbólica.

A FBI, por exemplo, foi a primeira a denunciar no exterior que o deputado federal Rubens Paiva, desaparecido em 1971 após ser preso e torturado, tinha sido assassinado pelos militares brasileiros.

Para coletar as informações, os exilados colaboradores em Argel coletavam cartas e telegramas recebidos por seus colaboradores nos outros países, especialmente Chile (de onde despachavam Moreira Alves e o também deputado cassado Almino Affonso) e França. Nas palavras de um deles, Everardo Norões:

“Muitas vezes descemos juntos aquela rua ladeirosa, em busca de notícias, chegadas sempre com atraso à caixa postal da Grande Poste – o prédio de arquitetura mourisca do correio central. As comunicações eram falhas, a vigilância policial no Brasil era cerrada, não convinha usar endereços residenciais. Caixas postais e brasileiros que chegavam à Europa eram as fontes de informação mais seguras”.

De acordo com a historiadora Greyce Falcão do Nascimento, que produziu um artigo sobre a FBI, os boletins circulavam no Brasil, Argélia, França, Alemanha, Holanda, Inglaterra, Itália, México e Estados Unidos“, além de Cuba e União Soviética. No Brasil, a distribuição era feita clandestinamente, organizada pelo jornalista Darwin Brandão, de acordo com Tereza Rozowykwiat, a biógrafa de Arraes, em seu livro de 2006 (pág. 101).

A redação da FBI, conta Greyce, funcionava “na própria residência de Arraes na capital da Argélia, em Argel, no bairro El Mouradia”, na casbá da cidade. Ficava na Avenida Roosevelt, em três casas de uma mesma vila. De acordo com Lailson de Holanda Cavalcanti e Valda Colares, biógrafos de Maria Magdalena Fiúza Arraes, primeira-dama de Pernambuco, “a casa de estilo mourisco era do tempo dos franceses e tinha um jardim com palmeiras altas, pés de nêsperas e muitas flores, graças ao clima da região de Mitidja, a faixa fértil e costeira, distante do deserto. Era lá, no andar térreo, que Arraes fazia seus encontros políticos e onde também se fazia o jornal da Frente Brasileira de Informações“.

Bairro de El Mouradia, em Argel, onde a redação central da FBI era instalada.

O canal de distribuição da FBI que mais sobreviveu como fonte histórica foram esses boletins impressos mensais (sempre que possível), ilustrados e remetidos por correio ou por mala diplomática do governo argelino para suas representações no exterior. Por isso, muitos historiadores confundem a Frente com um jornal ou revista alternativa. Mas o boletim em papel era apenas um dos formatos em que a Frente difundia seus textos. O boletim era da FBI, mas não era “a” FBI em si.

A FBI não era um jornal: era uma agência de notícias. Era clandestina, irregular, um tanto improvisada e mambembe, mas funcionava como um serviço de distribuição de conteúdo jornalístico em fluxo contínuo: a definição precisa de uma agência de notícias. Em sua tese (pág. 148), Cruz mostra as dimensões do trabalho da Front:

“Os números de exemplares publicados eram expressivos. Em 1971, por exemplo, a seção italiana produziu 5 mil cópias de boletim. Na Suíça, foram produzidos dois mil exemplares em francês e também em alemão. Na Holanda, eram distribuídas 300 cópias do boletim. O grupo da Frente na Alemanha Ocidental tinha uma edição de 2 mil exemplares. Na Suécia, havia dois grupos do<sic> FBI que editavam 3 mil números do boletim. Com um número menor de membros, os exilados na Bélgica apenas distribuíam o boletim produzido em Argel.”

Entre os veículos que reproduziam o material da FBI, estavam os jornais El Siglo, do Chile (órgão do Partido Comunista Chileno);  De Frente, Ya e El Popular do Uruguai; as revistas Notre Combat (da esquerda católica) e Tricontinental (da OSPAAL), da França; e pela agência cubana Prensa Latina.

“Na Argélia, Miguel Arraes e Bayard Demaria Boiteux tomavam as principais decisões sobre o Front e enviavam cartas aos colaboradores em diversos países. A correspondência entre Arraes e Márcio Moreira Alves abordava os problemas operacionais da FBI: lista de assinantes (existente num fichário vindo de Paris), envio de jornais e revistas do Brasil e do exterior, reunião da documentação para o arquivo e sugestões de temas para artigos do Front“, registra o historiador Fábio Cruz em sua tese (págs. 143 e 144).

Citado por Luiza Villaméa em 2017, Mauro Leonel relembra: “Os boletins foram feitos com regularidade por exilados em mais de uma dezena de países, sempre com o apoio de grupos locais, que punham a cara a bater. Em Paris, ganhamos uma impressora offset e chegamos a funcionar na redação do jornal Politique Hebdo”.

Além do serviço noticioso, a FBI também funcionou como uma rede ativa de intercomunicação entre outros brasileiros exilados em várias partes do mundo, incluindo África, Europa, América do Sul e América do Norte.

A sede central dos correios em Argel, onde Arraes e Norões iam buscar informações do Brasil.

Os órgãos da repressão brasileiros seguiram de perto os passos da FBI. Na pesquisa para a tese, Fábio Cruz localizou um relatório do DEOPS de São Paulo que atribuía à agência uma relevância na disseminação de informações de cunho jornalístico que contrariavam os interesses da ditadura.

Com apoio intelectual e financeiro do Comunismo internacional, a FBI passou a desenvolver intenso trabalho através de uma vasta rede de comitês que se estabeleceram na França, Itália, Holanda e Bélgica, concomitantemente com a publicação de boletins e livros em vários idiomas e o custeio de passagens para vários elementos viajarem pela Europa, divulgando o problema das ‘torturas’, sendo tais indivíduos brasileiros em sua maioria e que se encontravam naquele continente por serem refugiados, banidos ou foragidos“, diz o relatório, escrito já anos depois, em 1980.

Note-se o uso da palavra tortura entre aspas.

“Toda a movimentação dos exilados na Argélia foi acompanhada atentamente pelos departamentos de investigação da ditadura [como o SNI e o DOPS] e por meio da colaboração entre agentes diplomáticos brasileiros, franceses e norte-americanos. As investigações sobre as ações dos exilados na Argélia visavam principalmente à contenção das críticas promovidas em âmbito internacional por membros da Frente Brasileira de Informação e reprimir a organização de guerrilhas com possível participação dos quarenta banidos para Argel após o sequestro do embaixador alemão, Ehrenfried von Holleben”, afirma Cruz.

Segundo o projeto Memorial da Democracia, do Instituto Lula, os brasileiros exilados nos outros países “organizavam sua distribuição, muitas vezes acrescentando novas informações”, sendo que “a iniciativa recebia a colaboração de várias organizações de esquerda”. De acordo com Cruz (pág.144), Arraes e Moreira Alves “pessoalmente ou por carta convidavam membros de diferentes grupos de esquerda no exílio para participarem do projeto. Ambos planejaram reuniões em Paris e em Santiago com membros da VPR, MR-8 e ALN. Em 1970, depois da boa repercussão dos primeiros boletins entre os exilados, um comunicado direcionado aos brasileiros no exterior era assinado pela VPR, ALN, MR-8 e Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT)”. Em maio de 1971, Arraes divulgou um manifesto apelando à unidade em torno da Frente.

Em junho de 1970, com a chegada à Argélia dos quarenta banidos trocados pelo embaixador alemão sequestrado no Brasil, a FBI passou a ser dirigida por um colegiado composto por Miguel Arraes, Apolônio de Carvalho, do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, Ladislau Dowbor, da Vanguarda Popular Revolucionária, e por José Maria Crispim, do Partido Comunista Brasileiro.

De acordo com Fábio Cruz, “VPR, MR-8 e ALN concordaram em participar da publicação envolvendo seus integrantes exilados no Chile e na Europa, desde que as seções tivessem autonomia de decisões. A necessidade de conceder autonomia, mas manter a centralidade do movimento com o grupo em Argel era considerada fundamental para manter a unidade da Frente sob a ideia de denúncia da ditadura e ao mesmo tempo garantir ampla participação dos agentes exilados na Europa e na América”.

Na prática, porém, a VPR preponderou dentro da estrutura da FBI. Em 1971, já eram 13 seções (ou praças) da agência, das quais nove estariam sob controle da VPR.

O cofre do Adhemar

O laço com a VPR garantiu à FBI uma fonte de financiamento de origem insólita: o fatídico episódio do roubo do cofre do ex-governador paulista Adhemar de Barros, que nele guardava seu dinheiro vindo da corrupção (a Adhemar se atribui o slogan não-oficial “rouba, mas faz”, depois reproduzido para seu sucessor Paulo Maluf). A ação havia sido executada em julho de 1969 por um grupo armado da VAR-Palmares, resultado da fusão entre VPR e COLINA (Comando de Libertação Nacional).

O roubo do cofre serviu, de fato, para financiar a aquisição de armas e o treinamento de guerrilheiros em Cuba. Parte do dinheiro (US$ 1 milhão) foi entregue por Maria do Carmo Brito, a “Lia” (então companheira de Juarez Brito e, depois, de Mario Osava, nascido Shizuo Osawa e então conhecido como “Mário Japa”, desde 1980 correspondente da agência IPS no Brasil), ao embaixador argelino no Brasil, Hafid Keramane. A intenção era que chegasse aos exilados brasileiros em Argel, inclusive os que trabalhavam na FBI. Mas, 30 anos depois, em entrevista ao Estadão, Maria do Carmo afirmou que o diplomata foi depositário da quantia, e que Miguel Arraes foi “avalista” do contato para quem o dinheiro deveria ser transferido, mas que o governador pernambucano “não teve acesso ao dinheiro”.

Não é o que afirma um blog saudosista da ditadura, Resistência Militar, em texto de 2015 sobre a FBI: “Com os recursos recebidos de Boumedienne<sic> (roubo do cofre de Adhemar de Barros, no Rio), Miguel Arraes cobriu as despesas da FBI, que passou a desenvolver guerra psicológica contra o Brasil, especialmente contra as Forças Armadas, fazendo denúncias de “genocídio” contra indígenas, ações de esquadrões da morte e, finalmente, a palavra mágica, que tanta comiseração causa aos esquerdosos até hoje: ‘tortura’.”

Note-se, pela segunda vez, o uso da palavra tortura entre aspas, reproduzindo o negacionismo do DEOPS.

O contato entre Keramane e as guerrilhas era o jornalista argelino Fatih Agha Bouayed, antigo correspondente da APS no Rio, depois convertido em diplomata, fluente em português. Em 1967, ele foi declarado persona non grata pela ditadura brasileira. Ao voltar para a Argélia, tornou-se diretor para América Latina no Ministério do Exterior em Argel, posição na qual virou casaca e passou a colaborar com o Itamaraty na vigilância aos exilados brasileiros, inclusive prometendo “coibir, com o rigor necessário, a publicação e circulação na Argélia dos boletins periódicos da Frente Brasileira de Informações” (CRUZ, 2016, p. 124).

Segue o blog miliquista, sempre usando aspas (que não estão no “Orvil” original):

Os boletins da FBI, editados em francês e espanhol, focalizavam temas como “perseguição de religiosos e operários católicos”, “extermínio de índios”, “exploração de flagelados”, “ditadura militar”, “tortura de presos políticos”, “esquadrões da morte.”

O mesmo “Orvil” dos milicos — repetido em post no blog assinado por “Félix Maier”, apontado como falsificador de textos feitos para circular na internet — enumera uma lista de ações que teriam sido realizadas pela FBI, e que evidenciariam o alto grau de organização da agência. Por exemplo: entre março e abril de 1972, a FBI teria promovido uma série de conferências, debates e exibições de filmes em Nova York, “com a presença do teatrólogo Augusto Boal, do cineasta Glauber Rocha e de Márcio Moreira Alves“, para tratar da ditadura no Brasil. Em maio do mesmo ano, Arraes teria ido ao Chile conversar com o então presidente Salvador Allende sobre a criação de sucursais da FBI na Argentina, no Peru e no México. Em 1973, destacam-se o boicote à feira Brazil Export daquele ano na Bélgica e a constituição do já mencionado Tribunal Bertrand Russel, em outubro. Finalmente, em novembro daquele ano, em plena crise do petróleo deflagrada pela OPEP (da qual a Argélia era membro), a FBI “organizou um Congresso sobre tortura”.

O blog miliquista atribui ao médico Luís Mir, historiador amador, a definição da FBI como uma “estrutura política que abrigaria todas as organizações armadas e de oposição à ditadura, tornando-se uma rede de informações internacionais de poderoso alcance político na denúncia de torturas e violações dos direitos humanos no Brasil. (…) centenas de pessoas trabalhando em várias capitais europeias e latino-americanas e expressivo número de voluntários estrangeiros sem remuneração”. “Era impressionante o trabalho dessas figuras de proa, esses artistas de cinema e escritores, que montaram lá em Paris o Front Brésilien de Información; uma central de informação contra o Governo do Brasil.

Pelo menos parte das impressões sobre a FBI no “Orvil” (e nas narrativas dele derivadas) parece ter origem no relato feito ao delegado paulista Sérgio Fleury pelo infame Cabo Anselmo, quando traiu os companheiros da VPR — especialmente seu velho amigo Onofre Pinto, o comandante do roubo do cofre — durante o exílio no Chile. A semelhança dos comentários, reproduzidos em livro de Luiz Felipe Campos, pelo menos sugere que os escritos de Anselmo para Fleury tenham sido uma fonte do calhamaço compilado pelos militares nos anos 80.

Desarticulação

Há informações contraditórias nas fontes históricas sobre a data e as circunstâncias da desmobilização da FBI. Algumas atribuem-na ao seu caráter de “frente”, agrupando tendências políticas distintas e contraditórias (de trotskistas e maoístas a democratas cristãos), num período de radicalização de posições. Outras ressaltam que a crítica era justamente ao fato de a redação em Argel manter um foco jornalístico nos textos, em lugar do estilo panfletário e apelativo.

Miguel Arraes, Samora Machel e Magdalena Arraes em 1975

Em 1973, o golpe no Chile expulsou de lá os exilados brasileiros (e outros latino-americanos), abalando a rede de colaboradores. Alguns foram justamente para Argel, mas em vez de se estabelecerem, como a primeira leva, usaram a cidade apenas como ponto de parada antes de se encaminhar para outros destinos, como França, Suécia e Portugal. Finalmente, há que se considerar que, em meados dos anos 70, o próprio Miguel Arraes e seus colaboradores mais próximos começaram a se envolver ativamente nos movimentos de libertação africanos. Arraes dialogava diretamente com Amílcar Cabral, Samora Machel, Eduardo Mondlane e outros líderes das independências dos países africanos de língua portuguesa, e, depois das emancipações, prestou consultoria às empresas brasileiras que fariam negócio nesses países. Isso garantiu a ele uma fonte de sustento, mas à custa de retirar a atenção que era dedicada à FBI.

“Ele foi conselheiro de confiança de vários líderes africanos que se interessavam em debater a relação entre a África e a América do Sul”, disse o jornalista Nacer Mehal, diretor da agência argelina APS (Algérie Presse Service), em artigo para o jornal Diário de Pernambuco em 2009.

Tampouco há convergência nas datas atribuídas ao término do Front. Greyce Falcão diz que a FBI funcionou até 1973. Um texto de 2011 na Folha de S.Paulo, por ocasião do lançamento de um livro do Instituto Vladimir Herzog, situa o fim do serviço em 1974. E o Memorial da Democracia aponta o ano seguinte como derradeiro da agência.

“Até 1975, a FBI cumpriu um importante papel na denúncia de torturas e assassinatos, assim como das condições de vida subumanas da maioria da população brasileira. Extinguiu-se por divergências internas quanto à orientação política”, diz o texto do Memorial da Democracia.

A jornalista e historiadora Luiza Villaméa, colunista da revista Brasileiros, aparentemente mata a charada: “Na maior parte dos países, o movimento se estendeu até 1975. No Chile, terminou antes, devido ao golpe do general Augusto Pinochet, em setembro de 1973.”

A força do boletim “Frente Brasileira de Informação<sic>” residia no seu caráter de frente ampla, reunindo várias organizações oposicionistas. Mas com o tempo, as divergências passaram a minar o projeto de Miguel Arraes. As tensões eram fortes principalmente no Chile. Os agrupamentos mais à esquerda criticavam duramente o tom informativo predominante, exigindo debates e posicionamentos mais incisivos a respeito dos caminhos a serem seguidos pelas oposições no exílio. Contestado, o FBI deixa de circular em 1974.
Folha de S.Paulo, 25/10/2011
[ver aqui

Fontes:

CRUZ, Fábio Lucas da. Brasileiros no Exílio: Argel como local estratégico para a militância política (1965-1979). Tese de doutorado em História Social defendida na Universidade de São Paulo. São Paulo: FFLCH/USP, 2016. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-04102016-125816/en.php

FOLHA de S.Paulo. https://noticias.uol.com.br/album/111025jornais_album.htm

MINISTÉRIO da Justiça. Memórias Reveladas. s/d. Disponível em: http://memoriasreveladas.gov.br/index.php/component/content/article?id=347

Orvil: a resposta do exército brasileiro. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=XIv6cbJvWBUC

Resistência Militar. abril de 2015. <http://resistenciamilitar.blogspot.com/2015/04/frente-brasileira-de-informacoes-front.html>

Resistir é Preciso. Instituto Vladimir Herzog. <http://resistirepreciso.org.br/no_exilio/front-bresilienne-de-information-fbi>

RIBEIRO, Maria Cláudia Badan. Militância e Exílio: as trincheiras subterrâneas de luta. II Jornadas de Trabajo. Exilios Politicosdel Cone Sur en el Siglo XX, 2014. Disponível em: http://sedici.unlp.edu.ar/bitstream/handle/10915/59738/Documento_completo.pdf-PDFA.pdf

ROZOWYKWIAT, Tereza. Arraes. São Paulo: Iluminuras, 2006. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=qp3gHcBzGYkC&amp;

https://books.google.com.br/books?id=h9DeDAAAQBAJ&pg=PT153&lpg=PT153&dq=frente+brasileira+de+informa%C3%A7%C3%B5es+arraes&source=bl&ots=ScB3uHW1vN&sig=VaGHYy8iGNo_Gpu9CiKAVKgPwV0&hl=en&sa=X&ved=2ahUKEwjx3ufFr6DfAhWEx5AKHQFUDOoQ6AEwDnoECAkQAQ#v=onepage&q=frente%20brasileira%20de%20informa%C3%A7%C3%B5es%20arraes&f=false

VILLAMÉA, Luiza. Quando FBI é resistência à ditadura militar. Página B! (coluna Coisas da História), Revista Brasileiros, 26 de setembro de 2017.

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