(Pedro Aguiar – extraído da Apostila de Jornalismo de Agências, disciplina ministrada no IACS/UFF em 2015 – ainda inédito)

Provavelmente, existe uma definição diferente sobre agências de notícias para cada livro ou texto que tenha sido escrito sobre o tema. Às vezes, nem um mesmo autor usa a mesma explicação em dois textos que tenha escrito. Isto provavelmente ocorre pelo fato de serem mesmo grandes desconhecidas essas empresas. As definições sobre agências de notícias nem sempre se fundamentam em sua natureza e em seu papel econômico e sua função produtiva no setor da comunicação. A definição desta apostila, e que será adotada ao longo deste curso, é a que vem a seguir.

Uma agência de notícias é uma distribuidora e fornecedora de conteúdo jornalístico em processo contínuo. A Reuters, a Associated Press (AP) e a France-Presse (AFP) são algumas das maiores agências do mundo. Elas existem justamente para prover os meios de comunicação com notícias e informações que eles não conseguem obter por conta própria. As agências não são “mídia” nem veículos de comunicação porque não publicam diretamente para os leitores e espectadores, mas enviam seu material para os veículos, que, estes sim, falam diretamente com o público. Elas funcionam, portanto, como “jornais para jornalistas”, já que seus leitores são os profissionais que dão a forma final à notícia, e não os consumidores diretos. Esses veículos (jornais, revistas, emissoras de TV e de rádio, portais de internet, aplicativos de notícias) são os clientes das agências, e normalmente pagam uma quantia fixa regular (mensal, semestral, anual…) para ter o direito de reproduzir o conteúdo que as agências fornecem. Outros tipos de empresas (bancos, investidoras, consultorias), instituições públicas (governos, ministérios, autarquias) e até pessoas físicas (como empresários e executivos) também podem assinar serviços de agências para ter acesso rápido à informação, mas custa muito caro. Se fôssemos comparar com o comércio, esses veículos venderiam informação ao público no “varejo”, enquanto as agências vendem no “atacado”. Por isso mesmo, as agências de notícias são chamadas de “atacadistas da informação”. Elas vendem em grandes quantidades como fornecedoras, enquanto os veículos vendem em quantidades menores para o consumidor (de informação). O que sai publicado nos jornais é sempre uma fração muito pequena do volume enorme de informações que as agências mandam todos os dias.

Uma agência de notícias nunca pára: ela está sempre operando, 24 horas por dia e sete dias por semana, para prover seus clientes com informações que eles possam usar como base para montar seu noticiário. Rapidez é um valor supremo nesse tipo de jornalismo: uma grande agência de notícias deve ser capaz de enviar informações de última hora a qualquer momento em que elas aconteçam, seja de dia ou de madrugada, sem esperar. Como ela “fala” com os jornalistas nas redações e não para o grande público, essa rapidez tem a função de alertar os profissionais para uma notícia importante que precise ser dada ou para preparar uma cobertura de grandes proporções (por exemplo: a morte de um papa, um atentado terrorista, um golpe de Estado).

Por outro lado, essa mesma demanda por velocidade acarreta riscos que os jornalistas devem ser capazes de enfrentar – e evitar. Erros são mais comuns, deslizes acontecem com maior frequência e omissões são fruto da falta de tempo para completar o trabalho. Ainda assim, a cobrança por rapidez é uma constante: não adianta um jornalista de agência escrever uma matéria detalhada e “redondinha” se levar duas horas para isso. É necessário ser rápido e correto ao mesmo tempo. Se, nas frases de efeito de auto-ajuda, dizem que “a pressa é inimiga da perfeição”, no jornalismo de agências a pressa deve correr lado a lado com a perfeição.

Agências exercem pelo menos uma de duas funções específicas, senão ambas: a função de input e a de output. A função de input é essa de importar notícias, fornecendo à mídia nacional conteúdo editorial que venha de outras partes, especialmente do exterior, cobrindo o mundo para os brasileiros. Para isso, são empregados redatores e editores, que têm a tarefa de tratar, cortar, juntar, agregar, contextualizar e adaptar o conteúdo que vem de fora para a realidade do país, dando uma forma que atenda às necessidades do cliente – por exemplo, se uma matéria sobre resultados da balança comercial dos EUA cita vários países da América Latina, o editor do escritório brasileiro da agência, na mesa do serviço em português, deve “puxar para cima” a menção ao Brasil, de preferência já no lide. A outra função, de output, diz respeito ao sentido inverso do fluxo informativo, cobrindo o Brasil para os estrangeiros, exportando informação doméstica para o exterior. Nesse serviço (ou “mesa”, como se chama às vezes), são empregados correspondentes – geralmente estrangeiros – que têm a função de “ficar de olho” no que acontece por aqui para escrever textos, tirar fotos e gravar vídeos para alimentar o serviço internacional da agência. Nas grandes agências, essas duas funções, ou “mesas”, trabalham lado a lado, embora fazendo tarefas essencialmente diferentes. Em agências menores, especialmente nacionais, é comum haver apenas o serviço de input, sem correspondentes próprios. Já em outras agências estrangeiras que têm apenas um correspondente aqui, a função exercida é só o output, sem que elas vendam para os veículos brasileiros.

Por causa dessa lógica distributiva, agências têm um potencial multiplicador de seu conteúdo. Uma matéria feita por uma grande agência provavelmente terá alcance muito maior que a matéria de um único jornal, por mais lido que este seja, porque ela será reproduzida em centenas de jornais, websites, emissoras, aplicativos e outras mídias. Por isso mesmo, o cuidado com a precisão da informação deve ser redobrado, já que um erro também será reproduzido e repetido numa escala muito maior que a do cometido por um único veículo.

A maior parte das agências envia matérias em formato de texto, cujo conteúdo pode ser aproveitado em qualquer mídia, mas principalmente em jornais, revistas e na internet. O ambiente digital, com a web e os recentes aplicativos jornalísticos para plataformas móveis (celulares, tablets), tem alguns dos principais clientes das agências porque eles têm demanda de notícias em “tempo real”, com atualização muito rápida – várias vezes por hora, dezenas ou centenas de vezes por dia. Mas as agências já faziam esse tipo de serviço há mais de 100 anos, quando a tecnologia de transmissão disponível era o telégrafo. Há também agências especializadas em fotojornalismo e telejornalismo, além de algumas poucas em áudio para rádio, e as maiores agências fornecem todos esses serviços juntos, em pacotes multimídia.

As grandes agências mantêm equipes próprias que produzem material original (escrevem seus próprios textos, gravam suas próprias imagens, tiram suas próprias fotos), que por sua vez é vendido aos clientes para usarem como quiserem. O correto é que cada cliente dê sempre o crédito à agência que forneceu cada material, mas isso nem sempre acontece: é muito comum que, ao editar textos e imagens, os jornalistas misturem conteúdo de agências diferentes ou deem um crédito genérico (por exemplo, “Com agências internacionais”) ou nem mesmo atribuam a origem da informação explicitamente. É recorrente que uma agência só seja citada pelo nome quando é a única fonte de uma informação que é atribuída a ela como se fosse posta em dúvida, para o veículo eximir-se de responsabilidade caso a informação esteja errada.

Mesmo assim, é frequente a prática de correspondentes de agência utilizarem a mídia local do lugar onde estão baseados como fonte primária de informação sobre algum fato, especialmente se for algo de importância menor. Geralmente, um correspondente tem de dar conta de várias notícias num mesmo dia e não tem tempo para apurar pessoalmente cada uma delas. Muitos precisam cumprir uma cota mínima de notícias a serem enviadas por dia. Assim, é comum que se dediquem a apenas uma reportagem de campo original sobre o que for mais importante e reproduzam, para o serviço, notícias menores tiradas de jornais, rádios, TVs e websites da cidade ou do país onde está.

É comum também que agências enviem, além de matérias prontas já redigidas no formato jornalístico, outros tipos de conteúdo que são “brutos” ou material primário para o jornalista incorporar em sua matéria ou usar como base para gráficos, tabelas e mapas: dados de mercado financeiro e de commodities, transcrição de discursos e declarações oficiais, cotação de moedas, previsão do tempo, listagens, relatórios e outros documentos reproduzidos. Além disso, agências também aprimoram seus serviços ao enviar – às vezes antecipadamente, outras vezes no “calor da hora” – materiais que ajudem os jornalistas na redação a enriquecer sua cobertura, fazendo matérias relacionadas a um evento recente, suítes, sub-retrancas, crônicas, análises, perfis, textos de “memória” e similares.

Para poder recuperar esses conteúdos com rapidez e facilidade (por exemplo, toda vez que cai um avião em um país, produzir uma lista de acidentes históricos naquele país ou daquela companhia aérea, ou acidentes recentes naquele ano), é extremamente importante nas agências de notícias o trabalho de indexação de conteúdo e catalogação de textos e imagens. Isso significa que toda notícia, foto ou vídeo enviado recebe um código particular que diz respeito ao assunto, à origem, à data, ao tipo de serviço e às editorias para as quais ele é enviado, entre outros aspectos. Sem essa codificação, as agências não conseguiriam manejar bem a quantidade gigantesca de conteúdo que recebem e enviam todos os dias.

Uma agência de notícias não é apenas um site na internet, muito menos um blog. Tampouco é um boletim de informações ou de press-release (comunicados de imprensa) servindo a uma instituição (um governo, uma universidade, uma empresa) específica. Essas são funções de assessoria de imprensa ou de comunicação, que servem a um cliente para divulgar os atos específicos dele ou as informações que este cliente gostaria de ver publicadas na mídia. Já as agências têm a mídia como cliente, e as informações que elas enviam – não publicam – dizem respeito a fontes diversas, não uma única fonte institucional como fazem as assessorias.

Mais ainda: verdadeiras agências de notícias precisam fazer seu conteúdo chegar até o cliente. Investem quantias milionárias em tecnologias de transmissão, em telecomunicações, satélites, fibra ótica, linhas dedicadas (de uso exclusivo), intranet e outros canais que possam fazer a informação chegar de forma rápida, segura e sem erros aos clientes que pagam (caro) por ela. Não basta ter um site e encorajar os veículos a copiarem-e-colarem o conteúdo pronto de lá. É preciso cuidar da logística (transporte e armazenamento) da informação. Sem isso, o trabalho de seleção e envio é repassado para os jornalistas no veículo-assinante, fazendo com que eles percam tempo e inoculando a função da agência como abastecedora de conteúdo.

A maioria das grandes agências de notícias do mundo é estatal e dá prejuízo. Mas é interesse dos respectivos governos subsidiar parcial ou integralmente suas operações, porque elas funcionam como fornecedoras de informação sobre seus países junto à mídia e à opinião pública mundial. Apenas um punhado muito pequeno de agências de notícias dá lucro, entre elas as três únicas consideradas “globais” (de alcance mundial): a Reuters britânica, a AP norte-americana e a AFP francesa. A agência Bloomberg, também dos EUA, é uma das maiores do mundo e muito lucrativa, mas é especializada em informação de economia, enquanto as outras cobrem todos os assuntos.

É comum algumas pessoas confundirem, equivocadamente, grandes empresas de mídia como a CNN, a BBC e a Al-Jazeera com agências de notícias. Essas empresas são emissoras de televisão, mas não agências. Elas transmitem diretamente para o público em seus países (respectivamente, Estados Unidos, Reino Unido e Catar) e no exterior por meio de transmissão via satélite, a cabo e pela internet, mas não são fornecedoras de conteúdo para a mídia – das quais, inclusive, são concorrentes. Esse engano acontece porque é comum outros veículos citarem apuração original dessas empresas em suas próprias matérias, porque elas têm enormes equipes de reportagem, inclusive em zonas de difícil acesso ou de conflito, e com isso garantem furos mundiais e notícias exclusivas. Também ocorre de, em casos excepcionais, emissoras de TV de outros países comprarem imagens dessas redes para exibir quando não houver opção. Mas isso não faz delas fornecedoras sistemáticas de conteúdo jornalístico, como são as agências.

As agências de notícias existem principalmente para realizar jornalismo internacional, enviando informação de interesse jornalístico de um país para outro. Como sairia muito caro para um jornal manter correspondentes em todos os países do mundo que interessam ao noticiário regularmente, eles contratam os serviços das agências, que investem em fazer exatamente isso. Elas têm uma lógica econômica lucrativa porque o custo de manter uma rede global de correspondentes é compensado pelo fato de vender seus serviços para uma grande quantidade de clientes.

Dessa maneira, as agências trabalham frequentemente com tradução, vertendo informações de uma língua para outra, de um país para outro, seja na forma de textos, de falas de entrevistados, de declarações oficiais ou de dados brutos. Em certos casos, uma mesma notícia pode ser escrita em três ou quatro línguas sucessivamente, desde o lugar onde está o correspondente, até o idioma oficial da agência (e de seu serviço principal, por exemplo, em francês), depois para o seu serviço regional (digamos, para a América Latina) e, finalmente, para o cliente final (digamos, no Brasil).

Isso acontece porque o percurso da informação no sistema de uma agência não é ponto-a-ponto entre o local de origem da notícia e os clientes. O trajeto da notícia é mediado por uma série de etapas e jornalistas, das quais a mais importante é a passagem pela redação central – a sede da agência. Mesmo que uma notícia sobre uma decisão do governo argentino que afete o comércio com o Brasil interesse diretamente à imprensa brasileira, a notícia sobre isso produzida por uma agência europeia fará um percurso Argentina-Europa-Brasil, ao longo do qual pode ser traduzida pelo menos duas vezes, e jamais direto Argentina-Brasil, por mais que os países sejam vizinhos. As agências de notícias mantêm um controle altamente centralizado sobre todo o conteúdo que fornecem, mesmo em época de redes digitais, e isso é feito para minimizar a incidência de erros e garantir uma alta padronização que facilite a operação em larga escala de seus serviços.

Essa particularidade, de ordem operacional, tem um efeito sobre o conteúdo dos textos – ou seja, sobre o discurso e os valores ideológicos marcados neles – que, em escala global e cumulativo no tempo, influencia a visão de mundo do público geral e dos próprios jornalistas que lidam com essas notícias. Assim, se uma agência mandar frequentemente notícias dos Estados Unidos sobre assuntos variados, desde política e economia até cultura, esportes e celebridades, os jornalistas e os leitores vão ter mais facilidade de acesso, maior compreensão e, consequentemente, mais familiaridade com o cotidiano desse país, por mais distante que este seja da sua própria realidade. Por outro lado, se o material que chega sobre o continente africano ou sobre o Oriente Médio é esparso e normalmente relacionado a conflitos e crises, essa será a imagem que predominará no imaginário do público – e, por mais que o jornalista numa redação queira cobrir bem essas regiões, terá menos material à sua disposição para isso do que para cobrir, por exemplo, eleições regionais norte-americanas.

Da mesma forma, a lógica distributiva tem duas consequências que se tornam um problema – uma de ordem do conteúdo, outra de ordem política. A consequência para o conteúdo é que, como centenas ou milhares de clientes assinam e reproduzem o mesmo material que recebem das agências (citando as mesmas fontes, os mesmos dados, as mesmas fotos, as mesmas imagens, os mesmos pontos de vista), sua cobertura internacional acaba ficando bastante parecida, para não dizer homogênea, caindo na armadilha da “mesmice” – o que, para o leitor, pode ser bastante frustrante. A consequência política é que, graças a essa repetição, as agências na prática controlam fatias imensas do noticiário internacional, não só em seus países de origem (especialmente Europa e Estados Unidos, no caso das maiores) como também no amplo conjunto dos países em desenvolvimento, antes agrupados como “Terceiro Mundo” e hoje comumente tratados como o Sul Global.

É por isso que agências de notícias são empresas de uma importância imensurável na comunicação e na política, pois sem elas não haveria uma fatia enorme do fluxo de notícias que circulam ao redor do mundo. Mesmo gigantes da mídia, como a CNN e a BBC, não dão conta de cobrir jornalisticamente o planeta Terra inteiro sem o serviço das agências de notícias. E, no entanto, elas são empresas extremamente discretas: não fazem publicidade, não se dedicam ao branding (fixação da marca) e não divulgam dados sobre seus lucros, faturamento e detalhes operacionais. Apesar de existirem desde meados do século XIX, há quase 200 anos, até hoje se escreve e se divulga uma quantidade muito pequena de informações sobre as próprias agências, em comparação com a importância que têm, ironicamente no setor de circulação de informações em que operam. Poucos cidadãos, inclusive jornalistas, sabem de fato o que é uma agência de notícias e como ela trabalha. Esta apostila tem a pretensão de tentar contribuir para aumentar a compreensão sobre essas instituições fundamentais para a integração do mundo.

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