Parece que tudo começa na Grécia: a filosofia, a política, a poesia, o esporte, o vinho, até a comunicação, com a Retórica de Aristóteles. Embora esta abordagem tenha muito de eurocentrismo, não há como negar que o país das mil ilhas do Mediterrâneo Oriental foi pioneiro em muitos dos valores culturais que se tornaram canônicos no mundo moderno. Com agências de notícias, porém, a história é um pouco diferente: embora o setor seja antigo na Grécia, foi apenas dez anos atrás, comemorados hoje (9/12), que a atual agência de notícias nacional grega, AMNA, se unificou e assumiu a forma institucional que tem.

O jornalismo de agências começou na Grécia em 1895, com a Agência Stefanopoli, fundada por Antonios Stefanopoli, dono do jornal Messager d’Athènes, publicado em francês e voltado para o público estrangeiro. Já se sabia que, no ano seguinte, Atenas seria a sede dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, organizados pelo filantropo suíço Pierre de Coubertin, e a capital grega atrairia jornalistas de vários países. O francês sempre teve status de segunda língua da elite grega.

O país ficara independente em 1830, depois de quatro séculos de domínio turco otomano, encerrado por uma guerra de libertação que atraiu voluntários de vários países europeus ocidentais — entre eles, o poeta inglês Lorde Byron. A Grécia era vista então como um bastião da cristandade rebelando-se contra os turcos muçulmanos.

Na época, a Grécia era uma monarquia e tinha aproximadamente metade da extensão territorial que tem hoje, já que o resto estava ocupado pelo Império Otomano, Albânia e Bulgária. A segunda maior cidade grega, Tessalônica, só seria incorporada ao país depois da primeira Guerra dos Bálcãs (1912).

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Anúncio de aquisição da Agência Stefanopoli pelo Ministério das Relações Exteriores da Grécia

Em 1904, o governo grego decidiu estatizar a Stefanopoli, o que se efetivou no primeiro dia de 1905. A empresa foi adquirida pelo Ministério das Relações Exteriores e, em 1908, rebatizada como Agência de Notícias Ateniense (em grego, Athinaïko Praktoreio Eidhiseon, ou APE), que usava ANA como sigla em francês e inglês. O primeiro diretor da nova versão da agência foi Ioannis Parren, um fanariota (como eram conhecidos os gregos que viviam em Constantinopla, atual Istambul) cuja família havia vivido na Inglaterra e na França. Ele mesmo ficou mais conhecido como marido da líder feminista grega Calirrhoé (ou Kalliroi) Parren, também jornalista. Embora a estrutura já existisse desde dez anos antes, a atual AMNA usa 1905 como sua data de fundação oficial.

Em 1913, assumiu a direção da agência a jornalista grega Ioanna Stefanopoli, filha do fundador, primeira mulher a ser estudante universitária na Grécia e uma das primeiras no mundo a exercer uma direção de redação — talvez a primeira numa agência de notícias.

No mesmo ano, a Grécia combateu a Bulgária na segunda Guerra dos Bálcãs, para tomar território que os búlgaros haviam ocupado dos otomanos, mas que os gregos consideravam seu: a Trácia Ocidental. Fundou-se, então, a Agence Télégraphique de Thrace Occidentale, também para difundir despachos em francês favoráveis ao lado grego no conflito.

Em 1926, foram criadas a Agence Radiotélégraphique Hellénique, a Agence Dass e a Agence Radiotric, todas com nome em francês. No ano seguinte, viriam a Agence Radiotélégraphique Grecque (Agência Radiotelegráfica Grega) e a Agence Radiotélégraphique du Pirée (Agência Radiotelegráfica do Pireu, o porto de Atenas).

Em 1931, a direção da ANA/APE foi assumida pelo jornalista e escritor Vassílios Vekiararelis, um intelectual pacifista escolhido pessoalmente pelo primeiro-ministro Eleftherios Venizelos (ou Eleutério), considerado herói nacional grego. Vekiararelis teve papel importante em reorganizar a agência, tendo como referência as congêneres europeias.

Em 1935, apareceram no país as agências Europaïki Antapokrisis ou Correspondance Européenne (Correspondência Europeia) e a nova Agence Hellénique (Agência Helênica).

Segundo Errikos-Rafael Strougos, que trabalhou na ANA nos anos 30, em 1939 a agência consistia em “uma única sala com um tradutor, um teletipista, o rádio e uma secretária que ficava esperando na escada para distribuir os telegramas”.

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Em 1940, a Grécia foi invadida pelas tropas do Eixo — primeiro pelos fascistas italianos, repelidos, depois pelos nazistas alemães. Após a expulsão dos nazi-fascistas, o país esteve em guerra civil entre monarquistas e comunistas até 1949, quando os primeiros venceram. De 1967 a 1974, os gregos viveram sob uma ditadura militar de coronéis ultradireitistas, que esmagaram a oposição e proclamaram a república. Depois de restaurada a democracia, a Grécia entrou para a Comunidade Europeia (antecessora da União Europeia) em 1981.

Em 1956, a ANA/APE passou a utilizar o telex, pelo qual se conectava a todos os jornais de Atenas.

Já na era da Internet, foram fundadas agências gregas regionais ou especializadas, como Netnews (1998), Cretian News Agency (2000), da ilha de Creta, Peloponnesiako Praktoreio Eidhiseon (Agência de Notícias do Peloponeso, a península no sul da Grécia onde ficava Esparta, 2002), a religiosa Praktoreio Ekklesiastikon Eideseon (Agência Eclesiástica de Notícias) e a Sti Fora (2009). De 2005 a 2006 funcionou outra agência regional, a Aegean News Agency. Em 2001, foi estabelecida a agência de fotos Apeiron, acompanhada da concorrente IML Image Group, criada dois anos depois. Finalmente, em 2013, apareceu uma iniciativa multinacional sediada tanto em Atenas quanto em Burgas, na Bulgária: a Independent Balkan News Agency.

Pois foi justamente em Tessalônica que teve início a “outra metade” da AMNA: a MPA, sigla em inglês para Macedonian Press Agency (Agência Macedônia de Imprensa, ou, em grego, MPE – Makedoniko Praktoreio Eidhiseon, Μακεδονικό Πρακτορείο Ειδήσεων), criada apenas em 1991. A MPA/MPE surgiu da cooperação entre diferentes instituições da cidade, que rivaliza com Atenas em projeção nacional: a prefeitura, a União de Jornalistas da Macedônia e da Trácia, a Exposição Internacional de Tessalônica e a Universidade Aristóteles, sediada na cidade. A agência assumiu a direção de uma rádio (FM 104,9) e estabeleceu praças de correspondentes em capitais de países vizinhos e de outros com relevante diáspora grega. Seu objetivo nunca foi restringir-se a ser uma agência regional, mas de fato rivalizar com a agência de Atenas pelo posto de agência nacional, referência para a mídia doméstica e estrangeira.

A ANA/APE permaneceu subordinada ao Ministério das Relações Exteriores grego até 1994, quando foi transformada em empresa estatal.

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O presidente da ANA-MPA, Michalis Psylos, com a viúva de Christodoulides, Asteris, em 2015

Uma importante figura no jornalismo de agências grego foi Andreas Christodoulides, que dirigiu a ANA por duas vezes, de 1981 a 1987 e depois de 1993 a 2004, quando foi sucedido por Georgios Tambakopoulos. Para algumas gerações de jornalistas da agência, Christodoulides ficou marcado pelo comprometimento com o jornalismo ético, pelo rigor na apuração e na checagem, e pela disposição em ensinar os iniciantes. Em setembro de 2015, a sede da agência foi rebatizada com seu nome (foto acima).

Em 2005, a ANA/APE comemorou 100 anos de sua história com uma exposição no emblemático Palácio Zappeion, em Atenas (foto abaixo). Na época, a agência fornecia notícias para 450 instituições assinantes, empregava cerca de 250 funcionários, e mantinha serviços de texto em grego, inglês e francês.

Apenas no dia 9 de dezembro de 2008, exatamente dez anos atrás, a ANA/APE e a MPA/MPE se fundiram, formando a ANA-MPA (APE-MPE), inicialmente, e que mais tarde passou a usar em grego a sigla AMPE e, para o exterior, em línguas estrangeiras, AMNA (do inglês Athens Macedonian News Agency).

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Exposição em 2015 marcou os 110 anos de criação da ANA, hoje parte da ANA-MPA ou AMNA

Atualmente, segundo seu site oficial, a AMNA “produz, apura, edita e distribui notícias e fotografias nacionais e internacionais, bem como material de rádio e televisão” para veículos de comunicação na Grécia, no Chipre e em países onde há forte diáspora grega, como Estados Unidos, Alemanha e Austrália. Já não tem mais o serviço noticioso em francês, mas mantém em inglês. Seu arquivo digitalizado inclui 1,1 milhão de despachos, 5 milhões de fotos. Publica ainda a revista semanal To Praktoreio, de distribuição gratuita.

A agência opera sucursais em Istambul, Nicósia, Bruxelas e Berlim e, no exterior, mantém correspondentes em Londres, Viena, Paris, Skopje, Washington, Nova York, Melbourne, Montreal, Tirana, Sofia, Ancara e Belgrado, além de todas as principais cidades gregas. Entre as outras agências que a AMNA diz usarem seu material, estão a Reuters, AP, AFP, DPA, EFE, ANSA, a Bloomberg e a Factiva. A agência mantém um acordo de reprodução do material da chinesa Xinhua e com a estatal russa Rossiya Segodnya, que sucedeu a Novósti e mantém a Sputnik.

Hoje, a agência ANA-MPA é mais conhecida pelo termo em grego moderno para “agência de notícias”, praktoreio eidhiseon (ou, no alfabeto grego, πρακτορειο ειδησεων), ou simplesmente praktoreio, usado no logo vermelho da empresa.

 

Fontes:

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