Neste Dia da Consciência Negra (20/11), o blog Agências de Notícias aproveita para tratar um pouco do jornalismo de agências na África Subsaariana (excluindo o norte africano, de influência árabe), que não é tão lembrado na bibliografia e nos estudos do tema em comparação a outros continentes. Parte deste post foi extraída da tese “Agências de Notícias do Sul Global“, que pode ser lida na íntegra neste link.

Como ocorreu em outras partes do mundo, a criação de agências nacionais de notícias na África acompanhou o andamento de rupturas político-institucionais históricas, como independências e revoluções, evidenciando que estas empresas estavam entre as prioridades dos governos que entravam. Assim como as demais instituições de caráter nacional – fossem estatais, públicas ou privadas – no contexto africano, as agências de notícias apareceram nos respectivos momentos de estruturação do Estado em cada país, no estágio posterior à luta de libertação nacional. Portanto, as agências africanas – salvo raras exceções – não participaram de tais lutas (no sentido estrito do embate político-militar), mas sim do momento imediatamente seguinte, da construção do arcabouço institucional/estatal, da consolidação da identidade nacional e da persecução do desenvolvimento.

Como as agências iam sendo criadas à medida que os países conquistavam suas independências, o número de agências de notícias no continente acompanhou esse processo, dando salto em 1960 e nos poucos anos subsequentes, quando houve a principal onda de descolonização nos países africanos – principalmente na zona de dominação francesa. Grande parte das agências do continente data seu nascimento dessa época.

Em 1952, segundo o censo da UNESCO, havia agências de notícias em apenas três países africanos (TOPUZ, 1962, p.48) – África do Sul, Etiópia e Gana. O número chegou a 14 dez anos depois, segundo o mesmo autor. Em 1992, havia 48 (SHRIVASTAVA, 2007, p.28), para 54 países no continente. A tabela abaixo lista as agências de notícias africanas fundadas antes de 1960, ano em que um terço dos países do continente conquistou a independência. Não surpreende, por exemplo, notar que as agências nacionais mais antigas correspondem aos países que obtiveram independência mais cedo, como África do Sul (1910), Etiópia (nunca colonizada, mas ocupada pela Itália fascista em 1935 e libertada em 1941), Gana (1957), Senegal (1959, federado ao Mali, e 1960 separadamente) e Quênia (1963, apesar de ter eleito um governo autônomo já em 1957).

Primeiras agências de notícias africanas – África Subsaariana (1900-1959)
Nome Atividade Propriedade País
Reuter South African Press Agency 1910-1938 privada África do Sul
South African Press Association 1938-2015 cooperativa África do Sul
Ethiopian News Agency

nomes anteriores:

1941-1963: Agence Direcsione

1963-1968: Ethiopian News Source

desde 1941 estatal Etiópia
Adjisam’s News Agency 1949-1957 privada Gana
Agenzia Somalia d’Informazione 1955-…? institucional Somália
Rundipresse 1956-1962 privada Burundi
Ghana News Agency desde 1957 estatal Gana
Documentation et Information Africaines desde 1957 privada R.D. Congo
Argus African News Service 1957-…? cooperativa Zimbábue
Kenya News Bureau 1958-…? N/A Quênia
Agence de Presse Sénégalaise desde 1959 estatal Senegal
* Sobre as agências marcadas com reticências e interrogação no campo “atividade”, não há dados sobre o ano em que pararam de operar.

A primeira agência de notícias “nativa” africana foi, segundo Topuz (1962, p.48), a Reuter’s South African Press Agency (RSAPA), subsidiária da agência britânica e fundada na África do Sul em 1910, ano da independência do país. Anos mais tarde, com a chegada ao poder do Partido Nacional e a implantação do Apartheid, regime de segregação racial, ela gradualmente cortaria os laços com a Reuters e mudaria de nome para South African Press Association (SAPA), agora constituída na modalidade cooperativa, tendo os diversos jornais sul-africanos como sócios e ao mesmo tempo clientes (SHRIVASTAVA, 2007, p.235). No entanto, a referência operacional e provedora de notícias estrangeiras continuou sendo a Reuters britânica.

Em 1938, a sucursal foi convertida em agência autônoma, constituída como cooperativa entre os assinantes do serviço, mas manteve com a matriz britânica a exclusividade da importação (recebimento de notícias internacionais) e exportação (envio de material). Um pequeno conflito cultural doméstico emergiu a partir daí: jornais que apoiavam o Apartheid, na maioria bôeres (ou africâner, etnia sul-africana descendente de europeus, especialmente holandeses e franceses), queixavam-se do tom excessivamente “britânico” da linha editorial da SAPA, que tinha como referência o jornalismo inglês, o que por sua vez agradava aos jornais anglófonos da África do Sul. Muito por pressão do Partido Nacional (bôere e pró-Apartheid), a parceria estreita com a Reuters começou a ser distanciada em 1966 até ser totalmente desfeita em 1995, quando o país já tinha abandonado a segregação. (AGUIAR, 2016)

A SAPA existiu como a principal agência nacional da África do Sul até março de 2015. Nesse ano, “as empresas proprietárias de seus veículos-sócios optaram por investir em seus próprios serviços noticiosos” – como a News24, do conglomerado Naspers, um gigante no mercado sul-africano, e a ANA (African News Agency), fundada em fevereiro de 2015 pelo grupo Sekunjalo Independent Media.

Na Etiópia, a única nação africana nunca colonizada (a ocupação italiana não resultou em colonização de fato), a primeira agência de notícias data de 1941, embora Topuz (1962, p.50) indique o ano de 1958 como o de sua fundação. Inicialmente submetida ao chamado Ministério da Caneta[1] (ou “Ministério da Pena”, no sentido de pena de nanquim), a Agence Direcsione cresceu e sobreviveu às intempéries políticas até se tornar ENA em 1968, chegando a ter 37 bureaux no país no início dos anos 2000 (AMERA, 2016).

Ainda de acordo com Topuz (1962), a terceira e a quarta agências do continente foram criadas por colonizadores britânicos no pós-guerra: a Sudanese News Service (SNA), em 1946 no Sudão[2], e a Adjisam’s News Agency, em 1949 na então Costa do Ouro – hoje, Gana. Em 1955, separatistas na Somália (país formado pela junção das antigas colônias italiana e britânica no Chifre da África) criaram uma agência para remeter notícias em italiano, na esperança de obter apoio da antiga metrópole. Esse tipo de estratégia seria visto muitas vezes ao longo da história do jornalismo de agências, especialmente forte no Leste Europeu e no Oriente Médio.

Embora a GNA (Ghana News Agency), de Gana, frequentemente se apresente em textos institucionais como a “primeira agência de notícias da África Subsaariana”, sua fundação em 1957, durante o movimento de independência do país, foi precedida pelas empresas citadas acima. Ainda assim, a GNA teve papel importante não só nos fóruns de cooperação (como o NANAP) mas também nos esforços para treinar e equipar agências nacionais em outros países subsaarianos à medida que conquistavam suas independências. A iniciativa para a criação da GNA é atribuída pessoalmente a Kwame Nkrumah, líder do movimento pela independência do país, e a inauguração da agência se deu na véspera da proclamação da independência. O único teletipo da GNA recebia, então, o serviço externo da Reuters (LOTSU; QUAICOE; AMEYIBOR, 1990).

Ao longo da década de 1960, outras 15 agências de notícias surgiriam na África Subsaariana, todas estatais. Só no fatídico ano de 1960, o “Ano da África”, foram estabelecidas agências nacionais no “Congo Belga”, que passava a ser República Democrática do Congo (ACP, depois renomeada AZAP na época do Zaire e revertida ao nome original em 1997), na Tanganica (TIS – Tanganyika Information Service, depois unida a Zanzibar para formar a Tanzânia), nos Camarões (ACAP, extinta em 1978), na Guiné e no Gabão (ambas com a sigla AGP). Em 1961, foi a vez da AMAP (Mali), AIP/ICNA (Costa do Marfim), ABP (Benin) e ACI (Congo-Brazzaville), todos tornados independentes da França naquele ano. Em 1962 surgiu a ANTA, em Madagascar, e no ano seguinte veio a KNA, do Quênia. Em 1964 fundaram-se a ZIANA (Zimbábue), a APV (Agence de Presse Voltaïque, do Alto Volta, atual AIB, de Burkina Faso, desde 1984) e a SONNA (Somália). A última da década a surgir foi a agência do Maláui, MANA, em 1966. Mais 12 apareceriam na década de 1970, sendo 11 delas estatais.

Segundo Boyd-Barrett (1980, p.201), parte considerável das agências de notícias da África foi criada ou por profissionais e investidores da própria elite colonizadora (europeia) ou a partir dos espólios das agências nacionais dos países colonizadores, confiscados nos processos de independência. Nos países africanos de colonização francesa e britânica, por exemplo, parte das agências de notícias nasceu das antigas sucursais de agências transnacionais, especialmente AFP e Reuters (BOYD-BARRETT, 1980, p.201). Isto deu origem a dois tipos distintos de situação: no primeiro caso, jornalistas qualificados assumiam a agência e faziam uma gradual (e não gratuita) transmissão de know-how para profissionais nativos, ainda que atendendo aos interesses colonialistas; já no segundo, a nacionalização do patrimônio imperialista deixava um vazio em recursos humanos, ainda que fossem mantidos equipamento e capital.

Boyd-Barrett (1980, p.201) também observa que, nos dois casos, após as independências africanas, as agências britânica e francesa passaram a penetrar os mercados dos respectivos antigos territórios exclusivos da era colonial, aumentando seus faturamentos, mas que a agência da antiga metrópole de cada país ainda mantinha vantagem (como pelo uso da língua principal do serviço noticioso, dos contatos comerciais e jornalísticos e das facilidades para transação financeira). AFP e Reuters prestaram consultoria para as agências nascentes (como também o fez a IPS) porque cada nova agência nacional era um novo cliente, nas palavras do autor, e uma potencial fonte de receita a médio e longo prazos para as agências transnacionais. Até hoje, permanecem ativos os laços com as agências de notícias dos países colonizadores, como é o caso da AFP em seus acordos de cooperação com as agências nacionais de países colonizados pela França, assim como da Lusa nos países colonizados por Portugal.

Nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOPs), as agências de notícias surgiram mais tarde, impulsionadas pelas guerras de libertação nacional. A Angop foi criada em 1975, mesmo ano em que Angola conquistou a independência de Portugal, e é hoje a maior das agências de língua portuguesa na África. Naquele mesmo ano nasceram as agências AIM, de Moçambique, e ANG, da Guiné-Bissau, duas das mais precárias no continente. Os dois PALOPs insulares, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, só teriam agências próprias na década seguinte: Inforpress, em 1988, e STP-Press, em 1985, respectivamente (LISBOA; AGUIAR, 2017).

Uma agência em especial marcou o jornalismo de agências africano enquanto existiu: a SHIHATA (sigla em suaíle para Shirika la Habari la Tanzania), agência nacional da Tanzânia, foi criada em 1976 sob influência da Ujamaa, a filosofia política socialista africana de Julius Nyerere, baseada na cooperação autônoma. A preparação de uma agência tanzaniana que fosse genuinamente autônoma incluiu visitas à Zâmbia e ao Zaire para conhecer o trabalho das respectivas agências nacionais. De 1976 até 1992, a SHIHATA gozou de monopólio legal na recepção dos serviços de outras agências e no fornecimento para a mídia doméstica tanzaniana, mas, na prática, as dificuldades financeiras e de equipamentos impediam que a agência desse conta da missão prevista em lei. Para compensar, o Ministério da Informação, ao qual a agência estava subordinada, e donos de veículos de comunicação do país fizeram um acordo para continuar utilizando serviços de agências estrangeiras. Ainda assim, nos anos 80, a SHIHATA respondia por 32% das notícias da Radiotelevisão Dar-es-Salaam, enquanto a Reuters fornecia 29% e a AFP, 12% (STURMER, 1998, p.157-160). Uma vez operante, a SHIHATA foi uma das agências mais ativas no NANAP, e sempre um expoente na cooperação Sul-Sul, operando serviços em suaíle e em inglês (KIVIKURU, 1998, p.139-140). Seu primeiro diretor foi Benjamin Mkapa, que depois seria presidente do país (1995-2005). Foi em seu governo, em 1999, após anos de cortes orçamentários e operação sob condições adversas, que a SHIHATA foi finalmente desmantelada, por determinação do primeiro-ministro Frederick Sumaye.

A demanda por uma entidade regional de agências na África Subsaariana já tinha sido registrada há mais de 50 anos pelo jornalista turco Hıfzı Topuz, que era consultor da UNESCO à época. Grupos de países africanos, como o “Conselho da Entente” (organização de cooperação formada por Benin, Níger, Costa do Marfim e Burkina Faso, e mais tarde acrescida do Togo) e o “Grupo de Monróvia” (Libéria, Nigéria, Togo, Serra Leoa, Somália, Etiópia, Tunísia e Líbia) já discutiam a criação de agências comuns. O autor afirmou que “a criação ou os planos para criar agências de informação em cerca de 20 países africanos constitui um progresso importante no desenvolvimento dos meios de comunicação na África. Mas há muito a fazer antes de atingir esse objetivo” (TOPUZ, 1962, p.51).

A abertura de agências nacionais deve ser estimulada nos países onde ainda não existem, e ajudar, assim, a expansão das agências nacionais. O desenvolvimento das relações entre agências nacionais e mundiais deve ser encorajado para que os primeiros estejam em posição de reunir todas as informações possíveis do mundo. Deveria, também, haver uma cooperação entre as agências nacionais. A criação de uma associação de agências nacionais seria muito útil. (…) Esta organização deve tomar as medidas necessárias para garantir o intercâmbio de informações para promover o aprimoramento técnico, a transmissão direta de notícias entre os países africanos, bem como o desenvolvimento da rede de telecomunicações para defender os interesses comuns de seus membros, e para ajudar o desenvolvimento de novas agências. As agências de notícias desempenharão um papel importante na transmissão do progresso técnico e social e no desenvolvimento dos países africanos. (TOPUZ, 1962, p.51)

Em 1963, uma reunião da Organização da Unidade Africana (OUA, desde 2002 rebatizada como União Africana) em Adis Abeba, na Etiópia, conclamou os países-membros à criação de uma “Agência de Notícias Africana” (CAVANAGH, 1989, p.354). Destaque-se que, nesta época, a Etiópia monárquica sob Hailê Selassiê era uma ativa participante do Movimento dos Países Não-Alinhados, que na década seguinte puxariam a campanha pela NOMIC. Em abril do mesmo ano, a UNESCO promoveu um encontro de especialistas em Túnis para discutir as propostas para a criação de agências no continente e de uma associação de agências africanas, tanto na fração subsaariana quanto no norte do continente. Uma queixa recorrente então era a de que a formação de agências africanas não bastava para resolver o problema do desequilíbrio de fluxos de notícias, já que a condição estrutural da operação dessas empresas estava subordinada à dependência. O relatório final do evento observava que, oito anos antes, apenas dois países da região tinham agências próprias (descontando as do Magrebe), e que “o intercâmbio de notícias entre a África e outros continentes era naquela época [1955] conduzido inteiramente pelas agências transnacionais” (UNESCO, 1963, p.4).

Observou-se que os intercâmbios de notícias entre a África e o resto do mundo eram geralmente conduzidos por meio das agências mundiais de notícias. […] Devido à insuficiência e ao alto custo das instalações de telecomunicações da África, o custo de transmitir notícias para países africanos é muito maior que o de atender países europeus – um fato que possivelmente explica as taxas diferenciais cobradas pelas agências mundiais. (UNESCO, 1963, p.10-12)

O evento terminou com o compromisso de criação da União Africana de Agências de Notícias (UANA, na sigla em inglês), que no entanto durou menos de cinco anos. Seria ainda um longo caminho de mais 15 anos percorridos até a criação da Pan-African News Agency (PANA), em 1979, com sede em Dacar, no Senegal, como cooperativa entre as agências de notícias estatais dos países-membros da OUA. Boyd-Barrett (1980, p.212-213) assinala como as agências de Gana e da Nigéria lideraram o movimento pela formação da PANA. Cavanagh (1989), francamente antipático às propostas da NOMIC, documenta que a agência pan-africana só começou a operar quatro anos depois, em maio de 1983, com o duplo caráter de ser ao mesmo tempo um pool de agências e uma agência por conta própria, com uma rede autônoma de correspondentes. Entretanto, a criação do organismo regional não apresentou solução sólida para o problema. Em cinco anos, após uma “perpétua falta de verbas”, a PANA saiu do lançamento para “a beira do colapso”, mergulhada em dívidas e sem uma carteira de clientes consolidada (CAVANAGH, 1989, p.353).

Quanto aos recursos e à qualificação, a escassez de dinheiro e de pessoal capacitado torna a missão da PANA ainda mais difícil. Qualquer agência de notícias comercial bem-sucedida deve ter a capacidade não só de produzir informações de qualidade suficiente pelas quais os clientes estejam dispostos a pagar regularmente, mas também a entregar isso rapidamente. Alcançar e manter ambos requer conhecimento, geralmente experiência e muito dinheiro. Em preparação para o seu lançamento, a PANA recebeu verbas da UNESCO, dos países árabes do Golfo e da Alemanha Ocidental para comprar equipamentos, mas, ainda assim, estava começando em um continente onde as instalações eram tão escassas, mesmo no final da década de 1980, que ligações telefônicas entre algumas capitais africanas – onde eram possíveis – ainda precisam ser retransmitidas por milhares de quilômetros para centrais de comutação em Londres ou Paris e depois voltar ao continente. Para alguns líderes africanos, esta é uma evidência ainda mais irritante de um persistente domínio colonial que nega aos países independentes o controle sobre uma função tão básica para a sua soberania quanto a capacidade de se comunicarem diretamente entre si. (CAVANAGH, 1989)

Desde então, a agência sofreu diversas crises (CAVANAGH, 1989) até reformular-se, nos anos 90, como entidade multiestatal financiada pelos participantes e por assinantes-pagantes, sob o nome de PANApress. Os laços de cooperação, conjugados com precariedades técnicas, perpetuam relações de dependência, como Dauda e Omar (2015) apontaram recentemente, ao efetuar uma análise de conteúdo comparativa entre as coberturas da PANApress e da Reuters sobre a fome endêmica na Somália em 2011. Os pesquisadores verificaram que a agência pan-africana continuava remetendo os boletins da agência britânica, deixando de oferecer um olhar endógeno sobre a crise e, em última análise, reproduzindo a perspectiva do centro sobre a periferia.

Embora não seja uma agência de notícias, a IRIN (Rede Integrada de Informações Regionais), fundada em Nairóbi, no Quênia, em 1995 e inicialmente ligada à ONU, auxilia na circulação de conteúdos entre as agências e veículos de mídia do continente, instigando o intercâmbio entre países periféricos. Em 2015, a entidade deixou de fazer parte do sistema ONU e tornou-se uma organização não-governamental autônoma com sede em Genebra, na Suíça[3].

No mesmo ano, a fundação da ANA (mencionada no início do capítulo) significou uma nova tentativa de montar uma agência de notícias de cobertura continental, mas agora sob capital privado. A agência do conglomerado Sekunjalo reivindica ser “descendente da SAPA”, alega ter bureaux e correspondentes em vários países (mas não os discrimina publicamente)[4] e mantém contratos de redistribuição com as agências NAN, da Nigéria, e NAMPA, da Namíbia, bem como com a DPA alemã e a Xinhua chinesa. Junto à PANA e à IRIN, são o únicos serviços noticiosos de distribuição que atendem a todo o continente ou toda a região, embora estejam baseados em um país específico.

Além destas, outras agências de notícias privadas na África Subsaariana atualmente são a CamerPresse (Agence Camerounaise d’Information), nos Camarões, criada em 2012 pelo empresário Justin Blaise Akono; a bilíngue RNA/ARN (Rwanda News Agency ou Agence Rwandaise d’Information), de Ruanda, mantida desde 1975 pelo jornalista Steven Nsamaza; a ADIAC (Agence d’Information d’Afrique Centrale), operada desde 1997 no Congo-Brazzaville por Jean-Paul Pigasse; a BujaNews (Agence Bujumbura News), ativa desde 2009 no Burundi; a HICGI News Agency, criada em 2011 pelo Have It Cheap Group International, do empresário Kivumbi Earnest Benjamin em Uganda; e a Agence Afrique Presse, desde 2013 no Senegal, por um grupo investidor não identificado. Em 2010, o jornalista sul-sudanês Duop Chak Wuol, exilado nos Estados Unidos, criou um blog denominado South Sudan News Agency.

Dois países insulares no Oceano Índico tiveram agências que fecharam neste milênio: a MNB (Maldives News Bureau), das Maldivas, existiu de 1985 a 2009 como estatal subordinada ao Ministério da Cultura; e a HZK-Presse (de Habari Za Komori ou Agence Comores Press) funcionou de 2005 a 2015 sob gestão do diário oficial La Gazette de Comores. Outros países subsaarianos que chegaram a ter agências estatais de notícias que já fecharam são a Gâmbia (GAMNA e NAG, de 1985 a aos anos 2000), Uganda (UNA, de 1962 a 2008), Camarões (ACAP, de 1960 a 1978) e Tanzânia (TIS e SHIHATA, de 1960 a 1999).

 

Referências:

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AMERA, Asmamaw. Ethiopian News Agency and Walta Information Center in Focus. Online Journal of Communication and Media Technologies, v.6, n.3, jul.2016, p.15-44.

BOYD-BARRETT, Oliver. The International News Agencies. Londres/Beverly Hills: Constable, SAGE, 1980.

CAVANAGH, Kevin. Freeing the Pan-African News Agency. The Journal of Modern African Studies, v. 27, n. 2, (Jun., 1989), p. 353-365. Cambridge (Reino Unido): Cambridge University Press, 1989.

DAUDA, Sharafa. OMAR, Bahiyah. News Sourcing of the 2011 Somali Famine: a comparison between PANApress and Reuters. Global Media Journal – Malaysian Edition, v.5, n.1, 2015, p.77-97.

DHLIWAYO, Jabulani. A Brief History of Telecommunications in Africa. ICT Africa, 21 de agosto de 2013. Disponível em <www.ictafrica.info/FullNews.php?id=10568>, acessado em agosto de 2017.

FORBES, Derek. “From Apartheid to Pluralism”. In: BOYD-BARRETT, Oliver; RANTANEN, Terhi. The Globalization of News. Londres: SAGE, 1998. p.154-172.

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KIVIKURU, Ullamaija. From State Socialism to Deregulation. In: BOYD-BARRETT, Oliver; RANTANEN, Terhi. The Globalization of News. Londres: SAGE, 1998. p.137-153.

LISBOA, Juliana; AGUIAR, Pedro. Circulação de Notícias no Espaço Lusófono: intercâmbio de notícias entre agências de notícias do Brasil e dos PALOPs. Brazilian Journalism Research, v.13, n.3, dez.2017, p.12-35.

LONGONYA OKUNGU DEMBE D’OTE, Jean-Marie. L’Agence Congolaise de Presse (ACP) face aux défis du Webjournalisme: un essai de conceptualisation. Cahiers Congolais de Communication. v.XI. abril de 2014. CECOM – Centre d’Études de Communication de Masse. Kinshasa/Paris: IFASIC/L’Harmattan, 2014. p.11-24.

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TOZO, Émile. La Reforme des Médias Publics en Afrique de l’Ouest: servir le gouvernment ou le citoyen? Politique Africaine n.97 – Médias, Journalistes et Espace Public. março de 2005. Paris: Karthala, 2005.

 

Notas:

[1] Uma brilhante descrição do Ministério da Pena e seu poder de eminência parda na corte do imperador Hailê Selassiê é feita pelo jornalista polonês Ryszard Kapuściński, que foi correspondente itinerante da agência PAP na África, no livro-reportagem O Imperador (Cia. das Letras, 2005[1978]).

[2] Para efeito desta pesquisa, o Sudão é incluído na região Oriente Médio e Norte da África.

[3] Disponível em <www.irinnews.org/content/about-us>, acessado em novembro de 2017.

[4] Disponível em <www.africannewsagency.com>, acessado em janeiro de 2018.

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