Neste domingo (18/8), a agência de notícias alemã DPA (Deutsche Presse-Agentur, ou “agência de imprensa alemã”) completa 70 anos de fundação. Criada em 1949, no mesmo ano de separação formal das duas Alemanhas (a Oriental, democrática, e a Ocidental, federativa), a agência é uma das maiores do mundo, à frente da EFE, da ANSA e da TASS em número de praças de correspondência: está presente em 94 países, além dos 54 bureaux que tem na própria Alemanha, vendendo serviços em alemão, inglês, espanhol e árabe.

A comemoração oficial já aconteceu no dia 1º de julho, mas os 70 anos de entrada em operação só foram completados neste dia 18 de agosto de 2019.

Na ocasião de sua fundação, a Alemanha estava dividida em quatro zonas de ocupação pelas potências aliadas, que derrotaram o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial: as zonas britânica, francesa, estadunidense e soviética. Enquanto esta última daria origem à Alemanha Oriental, as três primeiras viriam formar a Alemanha Ocidental, e cada uma tinha uma agência de notícias específica: a DPD (Deutscher Pressedienst), dirigida por Sefton Delmer na área sob o controle do Reino Unido; a Rheina (Rheinische Nachrichtenagentur), depois Südena (Süddeutsche Nachrichtenagentur), sob o controle dos franceses; e a Dena (Deutsche Nachrichtenagentur), na zona sob o controle dos EUA. A DPA é produto da fusão entre essas três agências.

Seu primeiro editor-chefe foi Fritz Sänger, jornalista de oposição ao regime nazista que foi perseguido e, clandestinamente, ajudou dissidentes e judeus a escaparem do Holocausto. Ele ficou na agência pelos primeiros dez anos de funcionamento.

Já o primeiro presidente do conselho de acionistas da DPA foi Anton Betz, co-fundador do jornal Rheinische Post (Correio Renano), de Düsseldorf, um dos primeiros jornais alemães fundados na era do pós-guerra.

Atualmente, a DPA mantém 148 escritórios, sendo 54 na Alemanha e 94 em outros países

Muitos acham que a DPA (que geralmente prefere grafar sua sigla em minúsculas) é uma empresa estatal, mas estão equivocados. A empresa é formada por uma associação entre os maiores grupos de mídia da Alemanha, a grande maioria privados, com a participação acionária da TV pública ZDF. São 179 acionistas ao todo (pessoas jurídicas). O modelo de propriedade da DPA é semelhante ao da Associated Press (EUA), ANSA (Itália) e Kyodo (Japão), entre outras agências de notícias.

Atualmente, os grupos de mídia que são proprietários da DPA incluem, entre outros, o Axel Springer (jornais Bild, Die Welt, Fakt, BZ), Bertelsmann/Gruner+Jahr (revistas Stern, Geo, Capital), PresseDruck (Augsburger Allgemeine, Main-Post), M. DuMont Schauberg (Berliner Zeitung, Kölner Stadt-Anzeiger, Mitteldeutsche Zeitung), Madsack (Leipziger Volkszeitung, Neue Presse), Medien Union (Die Rheinpfalz), VRM (ex-RheinMain, Allgemeine Zeitung, Wormser Zeitung, Bürstädter Zeitung, Wiesbadener Tagblatt, Wiesbadener Kurier) e a TV pública ZDF.

Redação da DPA em 1955, usando teletipos

Hoje, a própria DPA é uma holding, incluindo, além da agência de notícias propriamente dita, outras subsidiárias que abarcam os serviços de fotografia (ZB, Fotoagentur Zentralbid), infográficos (DPA-Infografik), distribuição de press releases (news aktuell), uma divisão de vídeo para televisão e online (RUFA, Rundfunk-Agenturdienste GmbH), tecnologia da informação (DPA Mediatechnology) e pesquisa e inovação para dispositivos móveis (DPA-infocom GmbH).

Além disso, a DPA é sócia de outras agências e da mídia privada em outros negócios paralelos: na Next Media Accelerator (financiadora e incubadora de start-ups jornalísticas), na Alliance News (serviço personalizado para investidores financeiros no Reino Unido e na Itália), na Contiago GmbH (plataforma de franquia de conteúdo jornalístico), na agência de economia AFX (com a austríaca APA), na agência financeira AWP (com a Keystone suíça) e no fornecedor de telecomunicações para agências e mídia MECOM (Medien-Communikations-Gesellschaft, com a francesa AFP e as agências religiosas EPD e KNA, também alemãs).

A diversificação de negócios é uma estratégia da empresa para diminuir a dependência do setor de jornais impressos – que, no entanto, ainda são os principais donos e clientes da DPA.

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Em 2018, segundo o relatório anual da DPA, só a agência faturou 93 milhões de euros, lucrando 1,5 milhão na mesma moeda (lucro líquido). Contando todos os negócios do grupo, o faturamento chegou a 139,8 milhões de euros, um crescimento de 2,3% sobre o valor de 2017.

De acordo com a própria empresa, a agência emprega cerca de 1.000 jornalistas hoje em dia, a maioria nos escritórios domésticos na Alemanha. A redação central, atualmente em Berlim, é dividida em 270 editorias. Em média, todos os dias o serviço doméstico da DPA lida com 600 despachos e cerca de 1.000 fotos.

Inicialmente, a agência foi sediada em Hamburgo, no norte da Alemanha Ocidental. Em 2010, a sede foi transferida para Berlim, na rua dos Margraves (Markgrafenstraße), no mesmo bairro de várias redações importantes da Alemanha. Os serviços news aktuell, MECOM e o departamento comercial foram mantidos em Hamburgo.

Durante 40 anos, assim como o país estava dividido, a DPA conviveu com sua congênere alemã oriental, a ADN (Allgemeiner Deutscher Nachrichtendienst, ou “serviço geral de notícias alemão”), sediada em Berlim e criada em 1946. Enquanto a DPA convivia com concorrência em seu território, a ADN gozava de monopólio sobre os serviços doméstico, internacional e fotográfico. Em 1992, a ADN foi vendida para outra agência privada alemã, a DDP (Deutsche Depeschendienst), por sua vez adquirida pela Associated Press em 2009 e extinta em 2010.

Em novembro de 1989, um despacho da DPA deu o furo de que a Alemanha Oriental abriria a fronteira com a RFA

Em 1986, a DPA fundou uma subsidiária para licenciar colunas, artigos e tirinhas em quadrinhos de seus jornais-donos: a Global Media Services. Hoje, grande parte dos clientes desses serviços de franquia (chamados de syndication em inglês) está na Ásia.

A DPA está presente no Brasil pelo menos desde o início da década de 1950. Em 1969, o então diretor da agência, Alfred Bragard, esteve no Brasil, em plena ditadura militar, e deu entrevistas mostrando-se preocupado com o contexto da Guerra Fria (foto acima). Por muitos anos, o correspondente no Rio de Janeiro foi o jornalista Kurt Klinger. Nos anos 90 e no início do século XXI, o trabalho era conduzido por Diana Renée Brajterman.