Por algum motivo curioso, a agência de notícias francesa Agence France-Presse (AFP) declinou de comemorar seus 75 anos de existência, completados nesta terça-feira (20/8), preferindo relembrar apenas a libertação de Paris após o quadriênio de ocupação nazista, contexto de sua criação. O máximo que fez foi publicar um podcast (aqui, narrado em francês) que relata a operação militar dos comunistas e libertadores ao tomar a redação do OFI (a agência de notícias colaboracionista, tutelada pelos nazistas) e, usando os equipamentos e instalações confiscados, fundar uma nova agência para a França Livre.

Mas um artigo publicado no jornal suíço Le Temps, de Lausana (Lausanne), transcreveu e rememorou o fato. O blog o traduz aqui para nossos leitores:

Em 20 de agosto de 1944, cinco dias antes da libertação de Paris, um pequeno grupo de membros da Resistência Francesa invadiu a redação do Office Français d’Information (OFI), criado pelo regime de Vichy, e deu à luz a AFP.

Era um domingo, dois dias depois da mobilização geral decretada por Henri Rol-Tanguy, o líder comunista das Forças Francesas do Interior (FFI) da Île-de-France. Os oito “conspiradores” reuniram-se às 7 da manhã no número 13 da Place de la Bourse (Praça da Bolsa), no térreo do prédio decrépito da antiga Agência Havas, que abrigava a OFI havia quatro anos.

“Tornou-se uma agência de propaganda alemã”, lembrou mais tarde Gilles Martinet, um dos oito. O grupo do qual fez parte era constituído principalmente por antigos editores da Havas: Martial Bourgeon, Pierre Courtade, Max Olivier, Jean Lagrange, Vincent Latve e Basil Tesselin, aos quais se juntara Claude Roussel, recém-saído da École Normale Supérieure (Escola Normal Superior).

 

Despachos distribuídos de bicicleta

O calor era forte, as ruas estavam vazias. Ouvíamos tiros. Um tanque alemão estava parado nas proximidades, na Rua 4 de Setembro. O pequeno comando, acompanhado de dois guardiães da paz – os únicos armados – enviados pelo Comitê de Libertação Parisiense, subiu sorrateiramente pelas escadas e entrou na redação. Dez cabeças se levantaram, desnorteadas.

“Ninguém se mexe, ninguém sai! De agora em diante, vocês vão trabalhar para a França, em vez de trabalhar para os alemães”, disse Martial Bourgeon. Ninguém recuou. Um censor alemão foi levado para o subsolo e trancafiado. As responsabilidades foram distribuídas: Martial Bourgeon, o mais velho, tomou as rédeas, Gilles Martinet tornou-se editor-chefe. Rapidamente, entraram em contato com as equipes dos jornais clandestinos: Combat, Défense de la France, Le Parisien Libéré, L’Humanité

Às 11h30, o primeiro despacho foi publicado [imagem acima]: “Os primeiros jornais livres vão aparecer. A Agência francesa de notícias [no original, Agence française de presse] lhes envia seu primeiro serviço…” Até o fim dos combates, os despachos eram disparados em mimeógrafos rudimentares e distribuídos por ciclistas aos jornais e ao comando da Resistência.

No dia 23, chegou Fernand Moulier, que, juntamente com outros em Londres, lançou as bases de uma agência francesa independente com uma rede internacional embrionária. A junção foi operada entre jornalistas da Resistência e os da França Livre.

A equipe da Place de la Bourse cresceu rapidamente. Dormia-se no local. A equipe assumiu o controle das reservas do Caneton, um restaurante próximo que servia de refeitório para oficiais alemães. No cardápio: terrine, foie gras e vinhos finos.

 

Nas ruínas da agência Havas

Repórteres percorriam Paris para conhecer as tropas aliadas. Na prefeitura, Basile Tesselin tinha um telefone direto instalado no banheiro do gabinete do prefeito. Foi ele o primeiro, no dia 25, a anunciar a entrada em Paris do general Leclerc.

“Tudo tinha sido decidido um mês antes, a estratégia, a tática e sobretudo o objetivo”: recriar uma grande agência de notícias francesa capaz de fazer sua voz ser ouvida ao redor do mundo, a herdeira da agência Havas, fundada em 1835, relembraria ele mais tarde.

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Mas a Havas era uma empresa privada, que tinha um setor de informações e um setor de publicidade. “Os capitalistas que administravam o negócio estavam cansados ​​de ver que a informação estava perdendo muito do dinheiro que a propaganda trazia. Daí a separação, em 1935, das duas atividades e, por necessidade, a interferência do Estado, por meio de um subsídio, no departamento jornalístico”.

 

Um estatuto especial obtido em 1957

“Não queríamos nenhuma destas duas desvantagens: a da gestão privada, inevitavelmente caprichosa e muito ligada ao interesse financeiro exclusivo, nem a da interferência do Estado, menos preocupada com o interesse da França do que o do partido no poder”, explicou Basile Tesselin em suas memórias.

O estatuto inédito da AFP levaria algum tempo a amadurecer na mente das pessoas. Seria criado pela lei de 10 de janeiro de 1957 e adotado por unanimidade pela Assembleia Nacional, que garantiu sua independência.

A AFP, ainda sediada na Praça da Bolsa, é hoje uma das três maiores agências de notícias do mundo, com a Reuters e a Associated Press. Seus jornalistas estão presentes em mais de 150 países.

Clique aqui também para ouvir o podcast da AFP que reconta o mesmo episódio de sua fundação.