No dia 27 de novembro de 1849, o jornalista prussiano Bernhard Wolff criou a agência de notícias batizada com o seu sobrenome, que seria a primeira da Alemanha e, por 85 anos, seria uma das três maiores empresas do setor em todo o mundo, até ser fechada pelos nazistas em 1934. Embora atualmente seja pouco estudada, a Wolffs Telegraphisches Bureau ou Agência Wolff, como ficou mais conhecida, é uma das mais antigas e mais importantes agências de notícias da história.

Bernhard Wolff
Bernhard Wolff

Em 1849, a Alemanha ainda não era um país unificado. Seu território era dividido em vários reinos, principados, eleitorados e cidades-estado, como a Baviera, a Saxônia, Hanôver, Nassau, Hamburgo, Frankfurt, Bremen e o maior e mais rico deles, a Prússia.

Wolff, nascido em Berlim em 1811, filho de um banqueiro judeu, era médico de formação mas logo se aventurou pelo jornalismo. No início da carreira, tinha sido editor do Vossische Zeitung, então um dos principais jornais da Prússia, criado ainda em 1721. Jovem, aderiu ao liberalismo, uma ideologia “radical” proscrita e pouco tolerada à época, em que predominavam na Europa as monarquias absolutistas restauradas após a derrota de Napoleão. Em 1825, com apenas 14 anos, fundou uma livraria em Berlim que vendia panfletos liberais e revolucionários. Em 1848, ano revolucionário no continente, e junto a companheiros liberais, Wolff fundou outro jornal, o National-Zeitung, que seria publicado até 1938. Perseguido por suas ideias, o médico-jornalista exilou-se na França e encontrou trabalho com Charles Havas, que em 1835 fundara a primeira agência de notícias com esse nome, traduzindo matérias da imprensa em alemão para o francês.

Vossische Zeitung, jornal em que Wolff trabalhou antes de fundar sua agência
Vossische Zeitung, jornal em que Wolff trabalhou antes de fundar sua agência

Pelo que consta, Wolff fascinou-se com o tipo de negócio tocado por Havas e inspirou-se a fazer o mesmo. Ao voltar a Berlim, em 1849, fundou a Telegraphische Correspondenz-Bureau (“escritório de correspondência telegráfica”). Sua sede ficava na rua Zimmerstraße, no bairro berlinense de Friedrichstadt, muito perto de onde, um século mais tarde, passaria o muro de Berlim. Um de seus sócios na empreitada era Georg Siemens, primo do engenheiro Werner Siemens, que dois anos antes, em 1847, fundara uma empresa de equipamentos de telégrafos — e que hoje é uma gigante das telecomunicações. Graças a essa associação, a TCB garantiu a infraestrutura necessária para a transmissão de informações e obteve vantagens no uso do telégrafo, que a Siemens, em contratos com o governo prussiano, se encarregava de espalhar pelo reino.

Naquele mesmo ano, o governo prussiano estabeleceu o serviço estatal de telégrafo, e Siemens conectou Berlim a diversas cidades do reino, como Hamburgo, Colônia, Leipzig, Düsseldorf, Oderberg, Breslau (hoje Wrocław, na Polônia) e Stettin (hoje Szczecin, na Polônia). A Siemens cresceria nos reinos e principados alemães ao desenvolver um padrão simplificado de telégrafo elétrico, sem usar o código Morse adotado nos EUA e no Reino Unido.

Em Paris, Wolff trabalhara junto a um conterrâneo prussiano e judeu, também exilado por suas posições políticas: Paul Julius Reuter. Enquanto Bernhard voltara para sua terra natal, Reuter estabelecera-se em Aachen, na Prússia Ocidental, operando um serviço de notícias por pombos-correio para cobrir o trecho que o telégrafo ainda não conectava entre Paris e Berlim. Quando a linha foi completada, em 1851, Reuter mudou-se para Londres e lá abriu a agência que até hoje leva seu nome: a Reuters.

Dali em diante, as duas agências dos antigos colegas passaram a competir arduamente pelo mercado de notícias europeu, especialmente no campo das informações financeiras, de bancos e bolsas de valores. Além disso, sua competição era acirrada pela pioneira francesa, a agência Havas, que cedo conquistou os mercados italiano e espanhol, muito graças à proximidade linguística (e geopolítica, sob a influência de Napoleão III).

Em 1856, a Havas e a Reuters assinaram um acordo para juntar esforços e trocar informações sobre seus respectivos mercados financeiros domésticos, uma passando à outra os resultados dos pregões em suas capitais. Pouco depois, a Wolff foi convidada a se integrar à iniciativa, com os dados da bolsa de Berlim. Três anos depois, a parceria foi formalizada com um acordo de cooperação assinado entre as três empresas, apelidado de “Grande Aliança”. Na ocasião, Bernhard Wolff e Paul Julius Reuter foram recebidos em Paris por Charles-Guillaume e Auguste Havas (filhos de Charles Havas e proprietários da agência francesa desde a morte deste, em 1858) no dia 15 de julho de 1859.

Três dias depois, na sede da Havas, no Hôtel Bullion, assinaram o acordo, dividindo a Europa em zonas de atuação exclusiva para cada agência. Assim, a Havas seria a única a distribuir os despachos da Wolff e da Reuters na França e nos seus territórios (fossem países independentes ou zonas coloniais), bem como a Wolff faria o mesmo com a Havas e a Reuters na Alemanha e a Reuters, por sua vez, com despachos da Havas e da Wolff no Reino Unido e no imenso Império Britânico. Na prática, ao combinar tarifas, normas de operação e, especialmente, territórios de exclusividade, elas estabeleceram um verdadeiro cartel das agências europeias.

Divisão da Europa pelo acordo de cartel de 1859

Nessa divisão da Europa, a Wolff ficou com zonas menos lucrativas da Escandinávia (Dinamarca e Suécia-Noruega), da Áustria e seus territórios imperiais, como a Hungria, a Croácia, a Eslováquia e a Boêmia (hoje República Tcheca), além da Rússia (que então incluía a Polônia, a Finlândia, a Bielorrússia e a Ucrânia). Sua expansão para o Leste Europeu, onde não havia jornais tão fortes nem bolsas de valores tão consolidadas, ficava aquém do que Havas e Reuters garantiram, com os territórios da Holanda, da Bélgica, da Espanha, de Portugal, da Itália e os respectivos domínios coloniais de cada um desses reinos.

Em 1º de maio de 1865, a agência alemã abriu o capital e tornou-se uma sociedade anônima com ações negociadas em bolsa. Entre seus principais acionistas estavam banqueiros e o Estado prussiano, além do próprio Bernhard Wolff. Com o novo estatuto, a TCB adotou o nome de Wolffs Telegraphisches Bureau (WTB, ou “escritório telegráfico de Wolff”), pelo qual ficaria conhecida a maior parte do tempo.

As agências buscavam manter fidelidade ao cartel. Certa vez, o alemão Eric Nikolai Ritzau, que fundara sua agência epônima na Dinamarca, estabeleceu um escritório em Hamburgo, onde a Reuters já tinha uma base operacional, e propôs a Paul Julius Reuter uma parceria para obter despachos de seu serviço de Londres. O conterrâneo, já naturalizado britânico, negou-se e repassou a tarefa a Bernhard Wolff, a quem cabia a Escandinávia no mapeamento.

A concorrência doméstica não tardou a aparecer. Em 1856, Bösman fundou em Bremen a Bösmans Telegraphen Büro. Em 1862, apareceu a Herold Depeschenbüro, sediada em Frankfurt. Em 1868, nasceram tanto a Korrespondenz Hofmann, em Munique, quanto a Telegraphische Bureau Louis Hirsch, em Berlim. Mas a Wolff manteve sua posição de liderança, facilitada pelo cartel, pela associação com a Siemens e com o Estado prussiano.

Mas o cartel não eliminaria de todo a concorrência entre as agências parceiras. Em 1866, em retaliação a uma incursão da Reuters em terras alemãs (quando o cabo transatlântico-norte foi instalado), a Wolff saiu do cartel e fechou um acordo de redistribuição com a Western Associated Press, agência dos Estados Unidos, estabelecendo um sistema paralelo de fluxo noticioso.

Em 10 de junho de 1869, em reação a uma ofensiva comercial por parte de Paul Julius Reuter, que tentou até comprar a empresa, Wolff concluiu uma associação estratégica com o governo prussiano, sob o chanceler Otto von Bismarck, e rebatizou formalmente a agência como Continental Telegraphen Compagnie (CTC), tendo seu serviço de notícias o nome de Continental Telegraphen Bureau (CTB). Mas, no mercado e entre jornalistas, continuou sendo referida comumente como Agência Wolff. Naquele momento, Bismarck apadrinhou e passou a subsidiar a agência com recursos do tesouro prussiano, no valor de 100 mil táleres por ano.

O “cisma” no seio do cartel durou por quatro anos, pois a Wolff voltou em 1870, quando um novo e mais ambicioso acordo seria fechado: a divisão do mundo inteiro em zonas de exclusividade para cada agência.

A repartição do mundo pelas agências europeias não foi arbitrária, nem apenas política, mas seguiu especificamente os controles dos respectivos capitais nacionais sobre a infraestrutura instalada de telecomunicações: convinha à Reuters que empresas britânicas controlassem a maior parte dos cabos telegráficos submarinos, enquanto à Wolff convinha o fato de que a Siemens conectara a Europa Central com a Rússia, os Bálcãs, o Império Otomano e a Pérsia.

Divisão do mundo pelo acordo de cartel de 1870; áreas da Wolff marcadas em amarelo

Os termos do acordo de 1870, naturalmente, refletiam os jogos do imperialismo. Espelhando as rivalidades franco-germânica e anglo-germânica, uma “cláusula de precedência” imposta pela Havas e pela Reuters à Wolff obrigava esta última a pagar àquelas 25% de seu lucro anual e restringia sua futura expansão.

Seis meses depois de celebrada a divisão global pelas agências, estourou a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), em que os países de Havas e Wolff se enfrentaram. Provocada por Bismarck (que editou um despacho telegráfico da Wolff para manipular a opinião pública francesa), a França declarou guerra à Prússia, que por sua vez invadiu e ocupou o país vizinho. Vitoriosa, a Prússia saiu fortalecida e, em 1871, liderou os outros estados independentes alemães para formarem um único Estado-nação unificado: a Alemanha.

O chanceler Bismarck editou um despacho da Wolff para provocar a guerra

Apesar de o conflito “não ter rompido os acordos irreversivelmente”, dificultou a relação entre as agências francesa e alemã, ao mesmo tempo em que fortaleceu os laços entre Reuters e Havas.

Naquele mesmo ano, Bernhard Wolff deixou a direção da agência.

De 1876 a 1878, outra guerra, agora nos Bálcãs (que levou à independência de Sérvia, Montenegro, Bulgária e Romênia, até então vassalos do Império Otomano) gerou de fato um conflito entre as agências do cartel: ao contrário do que acontecera na Itália duas décadas antes, Havas e Reuters preferiram competir na cobertura, e enviaram cada qual seus correspondentes separadamente para um território que era atribuído à Wolff, “invadindo” a zona exclusiva da agência alemã.

Em 1879, Bernhard Wolff morreu. A gestão da agência ficou com seus sócios, representantes da imprensa e dos bancos alemães. No início do século XX, a Wolff/Continental era uma das maiores agências de notícias do mundo, com correspondentes em toda a Europa e mais América e Ásia, e um capital estimado em 1 milhão de marcos. Era a referência principal em cobertura estrangeira para a imprensa em língua alemã e para o Leste Europeu.

Túmulo de Bernhard Wolff em Berlim

Outros serviços que apareceram na Alemanha na virada do século foram a agência religiosa EPD (Evangelischer Pressedienst), em 1908, existente até hoje e sediada em Frankfurt; o Mirbachs Telegrafisches Büro, de Berlim, em 1910; o SDÜ (Syndikat Deutscher Überseedienst), fundado por industriais alemães, especialmente Alfred von Hugenberg e a siderúrgica Krupp, em 1913; e a Telegraphen-Union, nascida da fusão de serviços noticiosos e telegráficos preexistentes, notavelmente o de Hirsch e Herold, além do escritório de correspondência do jornalista Richard Schenkel em Nova York, que cobria o mercado de Wall Street para a imprensa alemã. Por essa época, um crescente desconforto unia os empresários de imprensa da Alemanha, incomodados com o conteúdo supostamente “antigermânico” que chegava das agências de notícias estrangeiras — justamente, a Reuters e a Havas.

Em 1912, a Wolff/Continental passou a enviar material gratuitamente para jornais sul-americanos, basicamente no Rio de Janeiro e em Buenos Aires, utilizando-se de uma cláusula contratual chamada “menção Tractatus”, que garantia uma cota máxima de 20% para informações relevantes, furando assim, as fronteiras de exclusividade do cartel.

Mas, quando começou a Primeira Guerra, em 1914, a Alemanha enfrentou a França e o Reino Unido, sedes da Havas e da Reuters, respectivamente. Um dos primeiros atos dos aliados no conflito foi pressionar Portugal, tradicional aliado dos ingleses, a bloquear o sinal do cabo para os alemães. Assim, a Wolff perdeu a comunicação com seus clientes nos EUA e na América Latina.

Charges italiana (acima) e francesa (abaixo) satirizando a Wolff como belicosa e porta-voz do kaiser alemão

Por isso, em 1915, o governo alemão criou a agência estatal Transocean Gesellschaft, destinada a prover jornais na América e na Ásia com informação da perspectiva alemã (ou propaganda, aos olhos dos aliados), usando ondas longas de rádio, para não depender do telégrafo. A Transocean operava principalmente na América do Sul, que, pelos acordos de 1870, era considerada um território exclusivo do duopólio Havas-Reuters – ou seja, zona inimiga nesse momento.

Em 1916, no meio do conflito, Hugenberg compra a Telegraphen-Union, que já era, então, a principal concorrente da Wolff. O grupo de Hugenberg operou também os serviços noticiosos suplementares Deutscher Handelsdienst (DHD) e Westdeutscher Handelsdienst (WHD), focados em notícias econômicas.

Do ponto de vista da Wolff e do cartel, o território da Rússia foi “perdido” com a Revolução Bolchevique de 1917, que estatizou a agência russa com quem mantinha parceria.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a Wolff ficou debilitada pela derrota alemã – não só por depender de incentivos do Estado, mas porque a economia alemã como um todo ficou arruinada, afetando seus próprios assinantes – e teve seu território repartido entre Reuters e Havas. Tinha início, após mais de 60 anos de vigência, um lento declínio da “Grande Aliança” das agências europeias.

A Wolff/Continental deixou de existir com a chegada dos nazistas ao poder e a criação do Terceiro Reich. Em dezembro de 1933, logo depois de assumirem o governo, os nazistas expropriaram a agência. Mais tarde, confiscaram também a Telegraphen-Union e fundiram-na com a Wolff para dar origem à DNB (Deutsches Nachrichtenbüro), agência estatal da Alemanha que, sob o controle de Josef Goebbels, existiria até o fim da Segunda Guerra. Chegava ao fim uma trajetória de oito décadas e meia da agência de notícias que participou da unificação de seu país e ensinou gerações de profissionais a fazerem jornalismo de agências.

Este texto foi adaptado da tese Agências de Notícias do Sul Global (2018), de Pedro Aguiar.