(Pedro Aguiar)

Qual foi a primeira agência de notícias do Brasil? Fernando Morais, em sua biografia de Assis Chateaubriand, a ANJ e o Itaú dizem que foi a Meridional, dos Diários Associados, criada em 1931. A ABN (Agência Brasileira de Notícias), fundada em 1924, arroga para si o título em seu perfil no Facebook. Os biógrafos de Cásper Libero e vários dos autores paulistas afirmam que foi a Agência Americana, que teria sido fundada por ele e Raul Pederneiras em 1913 em São Paulo (mas na verdade foi por Olavo Bilac em 1909 no Rio de Janeiro).

Nenhum deles está certo.

A primeira agência de notícias do Brasil e da América Latina foi a Agencia Americana Telegraphica (AAT), fundada em 10 de fevereiro de 1874, uma terça-feira, pelo banqueiro falido Manoel Gomes de Oliveira. O jornalismo de agências brasileiro e latino-americano, portanto, não começou “atrasado”, só no século XX, como até recentemente se costumava pensar. Estivemos acompanhando quase a par as inovações do mundo em comunicação, e, quando agências grandes como Reuters, Havas e Associated Press ainda contavam poucas décadas de existência, nosso jornalismo teve uma agência de notícias já no século XIX.

Não se sabe muito sobre a vida prévia desse empresário. Há registros diversos para um certo comendador Manoel Gomes de Oliveira Couto, luso-brasileiro, banqueiro no Primeiro Reinado, que presidiu o Banco do Brasil sob D. Pedro I e depois participou da comissão de liquidação do banco, em 1835. Seu filho, Manoel Gomes de Oliveira Couto Júnior, consta como amanuense (escrivão), morador do bairro do Catumbi (onde hoje fica o Sambódromo carioca) no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1844. Apesar de coincidirem indícios como a idade e o ramo profissional, não é possível constatar se este Júnior é o mesmo que viria a fundar a AAT. Todas as referências ao criador da primeira agência de notícias brasileira nomeiam-no somente Manoel Gomes de Oliveira.

Assim como fora a trajetória de Charles-Louis Havas na França no início do século XIX, também Gomes de Oliveira chegou a ser um renomado financista no Segundo Reinado, com o banco Gomes de Oliveira & Irmão, e dirigente da patronal de seguradoras (Associação Brasileira de Seguros e Benefícios-Mútuos), até falir no final dos anos 1860. Jornais entre 1867 e 1870 registram diversos processos abertos contra a firma, contestando o pedido de concordata feito antes. A partir daí, tudo leva a crer que, como Havas, este Manoel procurou mudar de vida. Em 1871, foi nomeado corretor de fundos públicos e de mercadorias da Corte Imperial, cargo subordinado ao Tribunal do Comércio Administrativo (equivalente a uma atual junta comercial). No ano seguinte, foi eleito presidente da junta de corretores do Rio. Em 1873, também aparece como diretor-geral da Associação Brasileira de Seguros e Benefícios-Mútuos, tesoureiro da Sociedade Philarmonica Fluminense, e domiciliado na Rua Primeiro de Março 53A.

Rua Primeiro de Março, sede da AAT. Gustavo Dall’Ara, óleo sobre tela, 1907.

Foi esse o endereço que Manoel utilizou ao constituir um conglomerado chamado Gomes de Oliveira & Companhia, composto de uma razão social, a “Empreza Telegraphica e Typographica“, da Agencia Americana Telegraphica em si e, para divulgá-la, de um jornal, batizado de O Globo – nome que ainda seria usado mais tarde por dois outros jornais em nada relacionados, sendo o mais famoso o de Irineu Marinho, fundado em 1925.

Na empreitada, Gomes de Oliveira teve como sócios o jornalista republicano fluminense Salvador de Mendonça (1841-1913) e o médico baiano Joaquim Dias da Rocha (pai de Joaquim Dias da Rocha Filho, que dá nome à rua de Copacabana). Mais tarde, entrou de sócio no grupo empresarial o cubano Bernardo Caymari, que estivera nos EUA anos antes e se transferira para o Brasil, investindo em transportes, algodão e agenciamento de imigrantes, além de jornais.

O Globo foi o jornal em que Machado de Assis publicou, como folhetim, seus romances A Mão e a Luva, naquele mesmo ano de 1874, e Helena, em 1876. O escritor seria um colaborador regular do jornal, e ajudaria a alavancar as vendas da editora montada pelo banqueiro para publicar suas obras, Editores Gomes de Oliveira Sc. C. (ao longo da vida, Machado foi mais publicado pela editora Garnier). A gráfica onde se imprimiam os livros era a Typographia do Globo, do mesmo dono.

Na véspera de anunciar a criação da Agência Americana Telegraphica, em 10 de fevereiro de 1874, Gomes de Oliveira renunciou aos cargos que detinha na associação de seguradores e na junta de corretores para dedicar-se integralmente à nova empresa.

A criação da agência brasileira precedeu em quatro meses a instalação do cabo telegráfico submarino transatlântico sul, que ligou o Brasil à Europa, via Cabo Verde, em 22 de junho daquele ano, e em seis meses a abertura do escritório conjunto da Havas e da Reuters no Rio de Janeiro, em agosto. De acordo com o histórico publicado três anos mais tarde no Jornal do Recife, apesar de ter sido inaugurada em fevereiro, o serviço regular da AAT só teve início de fato no dia 30 de junho de 1874. A AAT, portanto, começou a fornecer telegramas noticiosos para a imprensa brasileira antes das agências europeias, o que foi um feito notável. A bibliografia comumente citada da história da imprensa no Brasil, a começar por Nelson Werneck Sodré, oblitera esse fato.

Assim o jornal carioca A Reforma noticiou a inovação, em 13 de fevereiro de 1874, citando outros veículos que já o haviam publicado, na ortografia da época:

O Sr. Manoel Gomes de Oliveira acaba de organizar uma agência telegraphica para a recepção e transmissão de telegrammas das cidades mais importantes da Europa e da América.
À imitação da agencia européa Havas Reuter, que tem prestado ao commercio valiosos serviços, a agencia americana propõe-se a distribuir aos seus assignantes telegrammas diarios, contendo os principaes incidentes commerciaes ou políticos que tenham logar em qualquer paiz do globo.
Parece que a agencia vai estabelecer succursaes nas praças mais importantes, que mantêm relações commerciaes com o Brazil, e seus agentes transmittirão não só as occurrencias que ahi succederem, como aquellas de que forem informados por meio do telegrapho de outros pontos mais distantes.
Tem-se reconhecido que, sem este auxiliar, pouco vantajosos são os beneficios que ao público podem prestar as grandes linhas telegraphicas, em razão não só do elevado preço dos despachos, como muito particularmente pela difficuldade de manter uma correspondencia, onde se possam beber notícias seguras.
Qualquer d’estas difficuldades vem a agencia americana remediar, proporcionando ao público e ao commercio noticias seguras e por preço excessivamente módico.
A escolha de seus agentes e os contractos feitos com as diversas emprezas, que se acham de posse dos principaes cabos submarinos e terrestres, facultam-lhe os meios de poder prestar taes serviços de modo a satisfazer as necessidades que um tão importante melhoramento, como é a telegraphia electrica, vem necessariamente crear.
Ignoramos ainda quaes as condições que a nova agencia offerece aos seus assignantes; é dado, porém, prever que seu director terá n’este sentido procurado estudar a questão, a fim de assegurar todas as vantagens que da sua idéa devem provir, convicto de que, dependendo a sua realisação do auxílio do público, este compensará os seus esforços pelos benefícios que auferir.
Não nos achamos habilitados a ministrar informações sobre o assumpto, o que faremos apenas sejamos informados de todos os promenores, que naturalmente serão também dados ao público pela agencia; sabemos no emtanto que seu director o Sr. Manoel Gomes de Oliveira já pediu a sua demissão do logar de presidente da junta dos correctores por se tornarem taes funcções incompatíveis com a sua actual missão e reconhecer a necessidade de dedicar todos os seus esforços ao cumprimento dos deveres que ella lhe impõe.
Os seus conhecimentos e relações no commercio, a estima de que tem sabido tornar-se merecedor no desempenho das funcções que tem exercido, offerecem garantia de que saberá cabalmente cumprir o encargo, que a si impoz.
A carencia de uma agencia telegraphica tornava-se palpável; somos os primeiros a reconhecel-o, porque a imprensa participa igualmente das suas vantagens; por isso animamos a idéa, esperando que d’ella resultem as valiosas consequencias que parece offerecer.” (do Diario do Rio)

Sob esta denominação estabeleceu-se em nossa praça uma empreza (a cuja frente acha-se o Sr. Manoel Gomes de Oliveira), que tem por fim estender a communicação telegraphica entre o Rio de Janeiro e as principaes cidades do mundo civilisado, pelo systema da agencia Havas e outras que exitem<sic> na Europa.
Para garantia de sua existencia e maiores vantagens para seus assignantes, a empreza celebrou com a Western Brazilian Telegraph Company um contracto por dez annos para a transmissão de seus despachos, contracto que, sob as mesmas bases, não pode ser feito por aquella companhia com outra qualquer empreza, quer no paiz, quer no exterior.
O tráfego da empreza será aberto dentro em pouco tempo; dispõe ella de agentes especiaes nas cidades de Antuerpia, Berlim, Genova, Hamburgo, Havre, Lisboa, Londres, Madrid, Nova-York, Pariz, S. Thomaz, e Vienna d’Austria; e no Pará, Pernambuco e Bahia.” (do Jornal do Commercio)

Os anúncios de fundação, alguns com meia página de tamanho (abaixo), foram veiculados nos jornais da Corte em fevereiro de 1874. Neles, a empresa arvorava-se de ser “a única que tem e pode ter” com a Western and Brazilian Telegraph Company (WBTC), operadora do cabo, “o privilégio por dez anos para expedir e receber diariamente telegramas de interesse público e geral, de acordo com as condições de seu contrato“.

No dia 5 de agosto de 1874, O Globo de Manoel Gomes de Oliveira estava na rua, ostentando no cabeçalho a legenda “Órgão da Agencia Americana Telegraphica dedicado aos interesses do Commercio, Lavoura e Industria“. O jornal pertencia à agência, e não o inverso, como canonizou-se como norma no Brasil.

No mesmíssimo dia, o Diário do Rio de Janeiro publicou no pé da página 3, quarta coluna, a notícia da celebração do contrato entre a empresa de Gomes de Oliveira e a WBTC e o montante do custeio da tipografia de O Globo, no valor de 600 contos de réis.

No início, a AAT cobrava uma assinatura mensal de 30 réis, pelo mínimo de três meses, a ser paga antecipadamente (dando desconto de 5% para a assinatura anual), e garantia, “da parte de seus agentes especiais“, entregar “atividade, fidelidade, critério e rapidez na transmissão dos despachos“.

A Agência Americana obriga-se a consultar a conveniência dos seus subscritores, fazendo apenas um pequeno aumento proporcional logo que as outras linhas telegráficas que se dirigem ao império nos puserem em direta comunicação com todos os principais países do globo.

A agência também se comprometia a enviar “nunca menos de 1800 palavras” por mês, numa “média de 60 por dia, o que equivale ao preço de 1$ [um real, moeda do Brasil imperial] diários, quando pela tarifa da Western and Brazilian Telegraph Company Limited, paga-se hoje só por um telegrama de 20 palavras d’aqui ao Pará, a razão de 40$000!” [quarenta mil réis].

Na Corte, além de comerciantes e financistas, os principais clientes da AAT foram os jornais Diário do Rio de Janeiro, Jornal do Commercio, A Reforma, A Nação e o jornal católico O Apóstolo.

O litoral brasileiro já estava cabeado de norte a sul desde o ano anterior, 1873, quando conexões foram estabelecidas entre a Corte Imperial e Belém do Pará, São Luís do Maranhão, Fortaleza, Recife e Salvador, de um lado, e Santos e Desterro (Florianópolis). A inauguração do telégrafo nacional litorâneo se deu em 1º de janeiro de 1874, com solenidade na presença de D. Pedro II. Além disso, em paralelo à instalação do cabo Brasil-Europa, outras linhas ligaram o país à América do Norte, via Guianas e Caribe, com cabos submarinos partindo de Belém. No mesmo ano de 1874, a Amazônia foi ligada ao exterior por meio de cabos submarinos que conectavam Belém a Caiena, na Guiana Francesa, e Demerara, na Guiana Inglesa (hoje só Guiana), de onde se atingiam a Venezuela, o Caribe e os Estados Unidos (abandonado em 1876, sucedido por um cabo francês de Belém à Martinica).

Segundo a imprensa da época, o primeiro contratante do serviço telegráfico no Brasil foi o Barão de Mauá, o empresário Irineu Evangelista de Souza. Apesar de o cabo telegráfico submarino para ligar o país à Europa só ter chegado em 1874, o telégrafo já estava presente em território brasileiro, para comunicações nacionais, desde 1852, trazido pelas mãos do austro-brasileiro Guilherme Schüch, depois barão de Capanema (bisavô do ministro Gustavo Capanema), diretor do Telégrafo Nacional (depois Repartição Geral dos Telégrafos, RGT) até 1889.

O litoral brasileiro foi sendo cabeado desde então, pela WBTC, de Mauá em sociedade com o escocês John Pender, com ligações entre as capitais costeiras e a Corte no Rio de Janeiro a partir de 1873. Ao sul, a Argentina já tinha telégrafo desde 1857 e já se ligava ao Uruguai desde 1866.

Mapa dos cabos telegráficos em 1865 (incluindo projetos para os anos seguintes)

Em pouco tempo, jornais de várias províncias começam a republicar os despachos da AAT. Alguns deles foram os catarinenses A Regeneração e O Despertador; o Diário de Pernambuco e o Jornal de Recife, em Pernambuco; os paraenses O Liberal e A Regeneração; o Diário do Maranhão; e, surpreendentemente, os jornais paulistas Gazeta de Campinas e o Constitucional, já que o telégrafo ainda não chegava por terra a São Paulo.

Mas é difícil verificar o aproveitamento dos despachos da AAT na imprensa de então, já que frequentemente havia reprodução de reproduções de textos já publicados em jornais, o que continuou como norma até o século XX. Em Belém, Gomes Pércheiro relatou massacres e perseguições sofridos pelos imigrantes portugueses, que ali iam buscar fortuna no principal porto oceânico do Ciclo da Borracha, que então começava.

Mas não só aos jornais tupiniquins servia a agência pioneira. Periódicos da Argentina, como o La Nación, também recebiam o material da AAT, aproveitando o cabeamento costeiro que já ligava o Rio a Buenos Aires desde 1873 (Botto, 2012, p.58). A agência brasileira também foi a primeira a fornecer serviço noticioso para a imprensa argentina, reproduzindo parcialmente o serviço da Havas. A consciência da relevância continental (com a possibilidade de servir à Argentina e ao Chile, então já conectados ao Brasil por telégrafo costeiro e terrestre) estava presente no próprio nome da agência: americana, de sul-americana, não só brasileira.

A sede da AAT foi instalada no mesmo endereço declarado de Manoel Gomes de Oliveira, na Rua Primeiro de Março 53A, onde 40 anos mais tarde seria construído um prédio do Banco Germânico da América do Sul, depois cedido aos Correios (atual Escola de Cinema Darcy Ribeiro). A localização era estratégica porque, logo em frente, seria erguido em 1877 o Edifício Telégraphos, atual Agência Central dos Correios. O ponto de emersão do cabo submarino era na antiga praia de Sacopenapã, atual Copacabana, de onde seguia por terra até o núcleo da cidade (atual Centro do Rio).

Ponto de emersão do cabo telegráfico submarino, na área do atual Posto 6, na praia de Copacabana

A AAT começou a abrir sucursais em cidades do litoral brasileiro conectadas pelo telégrafo. Além do Rio, a AAT tinha agentes estacionados em Recife, Salvador, Belém do Pará (com o português Domingos Antonio Gomes Pércheiro) e prometia tê-lo em outras mais. Segundo Molina (2015, p.427), “o representante para o Norte era João de Almeida, ‘ilustrado jornalista da corte’. Como fica evidente pelo texto do comunicado, o principal objetivo da agência era vender aos comerciantes informações econômicas do exterior, além de fornecer notícias à imprensa“. No Maranhão, a fundação foi anunciada com uma carta publicada na íntegra pelo jornal Publicador Maranhense em 19 de março e escrita por Reinaldo Montoro, representante da AAT em São Luís. No Pará, o Diário de Belém publicou outro anúncio, avisando que a empresa não apenas remetia despachos jornalísticos, mas também franqueava ao público os seus canais de transmissão, vendendo o envio de telegramas particularespor um preço convencional e muito razoável“.

Como ainda não havia linhas telegráficas internas para transmitir aos jornais, a AAT informava que “os despachos telegráficos recebidos (…) serão impressos e expedidos com a máxima regularidade e prontidão, sendo a entrega simultânea a todos os Srs. subscritores, sem preferência, no domicílio ou nos pontos convencionados, de dia ou de noite, a qualquer hora“.

No exterior, a AAT teve praças em Lisboa e em Londres, mas anunciava que estabeleceria outras em Nova York, Washington, Boston, Baltimore, Nova Orleães, Santiago, Valparaíso, Lima, La Paz, Buenos Aires, Montevidéu, Liverpool, Paris, Le Havre, Bordeaux, Marselha, Bruxelas, Antuérpia, Berlim, Hamburgo, Amsterdã, Roterdã, Schiedam, São Petersburgo, Madri, Barcelona, Cádiz, Atenas, Roma, Gênova, Trieste, Porto e Madeira. É muito provável que Gomes de Oliveira jamais tivesse o capital necessário para ter correspondentes próprios em todas essas cidades, e que a lista figurando nos anúncios fosse simplesmente das cidades já então conectadas ao Brasil por cabos telegráficos (não deve ser coincidência o fato de a maioria delas ser portuária).

Mas, com a instalação da representação conjunta da Havas e da Reuters no Rio (“dirigida pelo francês Ruffier”, como observa Werneck Sodré), em agosto, o serviço da AAT deixou de ser exclusivo e passou a ter uma concorrência de peso, de duas agências europeias já líderes no mercado global, com representações nos cinco continentes e, talvez o mais importante, com controle de seus países sobre os cabos telegráficos. Isso permitia a elas oferecer preços subsidiados para a assinatura de seus serviços (anúncio abaixo, de março de 1875, publicado no Jornal da Bahia).

Ao que tudo indica, a empresa de Gomes de Oliveira não foi capaz de cumprir as extravagantes promessas em seu lançamento, nem de enfrentar a concorrência estrangeira, e logo começou a perder clientes e ganhar adversários, além de colecionar processos na Justiça – algo a que o fundador já deveria estar acostumado.

Em novembro de 1874, Gomes de Oliveira e seus dois sócios foram intimados a depor sobre “o modo por que a empresa pretendia distribuir, sob a forma de um prêmio, os lucros quinzenais das assinaturas” do boletim noticioso da AAT. O problema era que, em lugar de repartir os lucros igualmente entre os associados, a agência criou um esquema de capitalização (ou “consórcio”) para atrair assinantes, em que prometia a cada 15 dias premiar apenas um deles com participação nos lucros da empresa, de acordo com o número de inscrição e em função do número sorteado pela loteria nacional (oficial) da data corrente, e forçando os demais sócios-assinantes a abrir mão de qualquer remuneração. Na prática, montava uma loteria paralela, o que já era crime pela lei do Império.

A polícia abriu um inquérito e os três empresários foram indiciados por realização ilegal de jogo de azar.

Em janeiro de 1875, todos foram condenados a dois meses de prisão por promoverem o que foi classificado como uma “loteria não autorizada” com a distribuição dos lucros do boletim. Segundo a explicação da própria empresa, o dinheiro distribuído no sorteio não vinha do que os assinantes pagavam, mas saía do bolso dos donos da AAT. A defesa (o ilustre advogado Saldanha Marinho) alegou que “não se corria azar com a compra ou assinatura do boletim”, mas sim “o pagamento pela aquisição de um jornal, e no caso presente utilíssimo”. A sentença acabou revogada, os réus foram absolvidos em segunda instância e o caso entrou para a jurisprudência nacional.

Salvador de Mendonça, sócio de Gomes de Oliveira na AAT

Mesmo assim, a acusação afastou clientes da AAT e levou Gomes de Oliveira a uma nova bancarrota. Desfez-se de O Globo, dissolveu a sociedade e tentou ser representante comercial de estrangeiros fornecedores de equipamento telegráfico. Em 1º de julho de 1875, o cabeçalho do jornal mudaria, trazendo a legenda “propriedade de uma associação anônima“. A partir daí, as poucas menções a Gomes de Oliveira não são nada lisonjeiras: o jornal critica o antigo proprietário por pretender manter um monopólio sobre a tecnologia de “tímpanos elétricos” para a telegrafia pública (antecessor do telefone de Graham Bell), cuja exclusividade de representação ele afirmava ter comprado de Alfred Matson, detentor da patente.

O fim da AAT foi determinado em 30 de outubro de 1875, pelo decreto imperial 6.022, motivado por decisão judicial que reorganizou a empresa, dissolveu a Gomes de Oliveira & Companhia e extinguiu a agência, substituindo-a pela Associação Typographica Globo.

Mas a sucursal em Lisboa continuaria funcionando de forma autônoma, com o nome de Agência Europeia-Americana, dirigida por W. Allen, por mais alguns anos.

Ainda no mesmo ano, Salvador de Mendonça seria nomeado cônsul do Brasil em Baltimore, nos EUA, e, em 1876, por ocasião da visita de D. Pedro II ao centenário de independência estadunidense, seria feito cônsul-geral em Nova York. Logo depois, a Reuters abandonou a sociedade com a Havas, deixando a agência francesa como única fornecedora para a imprensa da América do Sul.

Sob os novos donos, o jornal O Globo duraria ainda até 1878. Não há registros de quando Manoel Gomes de Oliveira morreu.

Levaria ainda um quarto de século até a América Latina ter outra agência de notícias “nativa” (a Saporiti, na Argentina, fundada em 1900) e quatro décadas para o Brasil voltar a ter uma agência de notícias própria (a quase homônima Agência Americana, de Olavo Bilac e Carvalho Azevedo). Mas a marca do pioneirismo da Agencia Americana Telegraphica, de Manoel Gomes de Oliveira, é indelével na história da imprensa brasileira e latino-americana.

 

Bibliografia

BOTTO, Marcelo. Historia de las Agencias de Noticias: desde su creación hasta el período de entreguerras. Buenos Aires: Academia Nacional de Periodismo, 2012.

GOMES PÉRCHEIRO, Domingos. Questões do Pará. Lisboa: Fornecedores da Casa de Bragança, 1875.

MOLINA, Matías. História dos Jornais no Brasil, vol.1. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

O Direito: revista mensal de legislação, doutrina e jurisprudência, Volume 8

WERNECK SODRÉ, Nelson. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

 

* Pedro Aguiar é jornalista, professor de jornalismo, doutor em Comunicação pela UERJ e co-editor deste blog.

 

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