A agência de notícias nacional do Canadá completou 100 anos nesta sexta-feira (1º/9), comemorando uma história de conquistas e feitos relevantes, mas discretos. Assim como os canadenses têm duas línguas, a agência tem dois nomes: The Canadian Press (CP ou CanP) ou La Presse Canadienne (PC), usados indistintamente com valor oficial. E a agência do grande e gélido norte tem muita história pra contar.

Fundada em 1917, às vésperas da Revolução Russa, por um ato legislativo do Parlamento canadense, a CanP é hoje uma empresa privada sem fins lucrativos  constituída como joint-venture (parceria), cuja propriedade é compartilhada pelos maiores conglomerados de mídia do país: Torstar, Globe&Mail/Thomson e La Presse/Square Victoria, entre outros — modelo inspirado na Associated Press. A sede fica em Toronto, maior cidade canadense.

Na época de sua criação, o Canadá participava da Primeira Guerra Mundial  e enviara soldados para combater na Europa contra os alemães, austríacos e turcos. Os jornais canadenses aumentaram a demanda por notícias do front, com atenção específica para as tropas do país, que as outras agências aliadas — Reuters e Havas, especialmente — não davam conta de transmitir.

Hoje, além de serviços de texto, foto, áudio e vídeo, a CanP também vende infográficos, serviços de editoração e dados (tanto financeiros quanto esportivos). A agência diz empregar atualmente cerca de 180 jornalistas. Apesar de ser oficialmente bilíngue, como o país, predomina na CanP o uso do inglês. O serviço em francês só foi criado em 1951. A própria agência tem mais escritórios em cidades anglófonas do que francófonas: só Montréal e Québec, por um lado, e Toronto, Ottawa, Winnipeg, Vancouver, Calgary, Regina, Edmonton, Halifax e mais três, por outro.

Curiosamente, o presidente da agência na época da inauguração do serviço francófono, Roy Thomson, era um barão da imprensa que fundou o grupo Thomson — o mesmo que, liderado por seu neto David, em 2008, comprou a agência Reuters.

CanP_LouisSaintLaurent_RoyThomson_inauguramservicofrances1952
O primeiro-ministro Louis Saint-Laurent e o então presidente da CanP, Roy Thomson, inauguram o serviço em francês

Segundo o veterano jornalista John Ward, da própria Canadian Press, a agência “continua a ser um mistério para muitos, uma parte discreta, mas central, da paisagem noticiosa” canadense. As notícias, fotos, vídeos e transmissões de rádio da CanP, em ambas as línguas oficiais do país (inglês e francês), “aparecem em quase todos os meios de comunicação no país, mas os leitores ou ouvintes muitas vezes desconhecem sua fonte”.

Seguindo o modelo da “cooperativa” de conglomerados, a Canadian Press sempre seguiu à risca a imparcialidade na cobertura, para não desagradar a linha editorial de nenhum dos sócios — alguns mais conservadores, outros mais progressistas.

“Tinha que ser direto”, contou Keith Kincaid, que entrou na CanP como estagiário em 1957 e chegou a presidente em 1978, citado por Ward. “Sem editorializar: eram os fatos e só”.

Ward relembra que os repórteres da agência cobriram uma olimpíada (em Montréal, 1976) e duas olimpíadas de inverno no país, dois referendos do Québec, a chamada “crise de outubro” (quando guerrilheiros  da Frente de Libertação do Québec sequestraram um ministro e um diplomata, em 1970) e a Crise Oka, entre o governo e os índios mohawk, em 1990. Muito antes da Internet, os jornalistas da CanP “abasteceram as redações com coberturas fato-a-fato de julgamentos de grande repercussão e redigiram atualizações de madrugada de inúmeras eleições”. Para o jornalista veterano, era como estar “na fileira do gargarejo da História”.

“Nos primeiros dias”, relata Ward, “mesas de copidesque transformavam matérias de jornais em telegramas sucintos. Quanto mais curto, melhor: as redes de teletipo não transmitiam mais de 66 palavras por minuto, pondo um limite na quantidade de matérias que poderiam ser enviadas por dia”.

“A CanP era para a informação o que as ferrovias eram para as mercadorias palpáveis no Canadá”, disse Clark Davey, ex-editor de jornal que chegou a ser presidente da agência de 1981 a 1983. “Se voltarmos à época antes da televisão, [a agência] era uma parte ainda mais vital de ligar o país naqueles dias, porque permitia olhar o resto do país de uma forma quase íntima”, acrescentou, citado pela própria CanP.

award-trudea-pride-1200x882
O atual primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, participa da Parada Gay de Toronto em 2016, em foto premiada da agência CanP

Anos depois, a Segunda Guerra Mundial pôs a agência “na vanguarda do jornalismo canadense”, nas palavras de Ward, “com o trabalho de Ross Munro”, um dos mais famosos correspondentes de guerra do Canadá. A cobertura dos militares conterrâneos manteve-se uma prioridade para a CanP: a agência foi a única empresa canadense a manter um correspondente no Afeganistão enquanto tropas do país norte-americano estiveram mobilizados por lá, desde 2001.

Com o aniversário, a Canadian Press entra para o seleto clube das agências de notícias centenárias, que inclui a Reuters, a Associated Press, a Ritzau dinamarquesa, a NTB norueguesa e a PA britânica, entre outras. Embora a AFP seja sucessora da Havas, de 1835, esta chegou a ser extinta pelos nazistas na Segunda Guerra e só foi reconstituída com o nome atual na última libertação da França, em 1944.

Anúncios