A narrativa dominante sobre a origem das agências de notícias atribui o feito ao francês Charles-Louis Havas, que em 1832 abriu em Paris um escritório de tradução de jornais de outras línguas para francês (Agence des Feuilles Politiques et Correspondance Générale) e três anos depois, em 22 de outubro de 1835, transformou-o na Agência Havas, batizada com seu sobrenome. Essa teria sido, segundo a maioria das fontes, a primeira agência de notícias do mundo e da História.

Mas… e se essa não for toda a história?

No início do século XIX, quando a América Latina ainda era uma série de colônias de Espanha e Portugal, havia um contraste enorme entre o lado espanhol e o lado português: enquanto os hispânicos tiveram máquinas de prensa em suas terras dominadas e puderam imprimir jornais, panfletos e revistas desde o século XVI, no lado lusitano a imprensa era uma atividade proibida pela Coroa. Como resultado, os primeiros jornais brasileiros só apareceram em 1808, ano da vinda da Família Real portuguesa, enquanto no Peru, na América Central e no México já circulavam folhas noticiosas locais regularmente desde 1722.

GacetadeMexico1722

Naquele ano foi fundado no México — por séculos, a colônia mais importante dos espanhóis (tanto que era chamada de Nova Espanha) — o primeiro jornal da América Latina, a Gaceta de México y Nueva España (imagem acima). Outras tentativas já tinham sido feitas desde 1693, e pesquisas históricas apontam 1536 como o ano em que a primeira prensa foi levada da Espanha para o México, a primeira da Europa para a América. Mas a Gaceta foi o primeiro jornal de fato a circular com regularidade, embora apenas entre 1º de janeiro e 1º de junho daquele ano. Entre 1728 e 1739, outras “Gacetas de México” apareceram, mas editadas por diferentes pessoas (em geral, padres) em várias cidades, sem continuidade direta com a primeira. Em 1742 surgiu o Mercurio de México; em 1768, o Diario Literario; de 1772 a 1773, o Mercurio Volante; e, de 1784 a 1809, outra Gazeta de México, com Z, agora editada por Manuel Antonio Valdés Murguía y Saldaña.

Em 2 de maio de 1803, entretanto, um advogado teve uma ideia diferente: deixar de lado a preocupação com prensa, papel e tinta, e abrir um negócio que vendesse notícias sem se preocupar com o suporte material. Juan Nazario Peimbert y Hernández, que advogava na Real Audiência do México (tribunal da administração colonial espanhola), abriu no primeiro andar de sua casa, na rua Montealegre nº 12 (atual Calle de Donceles, no centro histórico da Cidade do México), um “armazém de notícias”, chamado Asiento Mexicano de Noticias Importantes al Público.

Calle-Donceles
A rua Donceles, na Cidade do México, até hoje é local de sebos, livrarias e bancas de jornais

Mais que uma simples lojinha, o “armazém” de Peimbert vendia papeletes com relatos manuscritos de notícias e transações comerciais acontecidas na Cidade do México e arredores e ainda disponibilizava à consulta pública um catálogo de médicos, advogados, escrivães e parteiras, entre outros profissionais prestadores de serviço (um antecessor da lista telefônica). Os papéis com notícias ficavam disponíveis por até duas semanas, quando eram retirados, para dar destaque aos acontecimentos mais recentes.

O estabelecimento funcionava aberto inclusive de madrugada, o que é comum entre as agências modernas mas era raro para qualquer tipo de comércio ou serviço pré-industrial. Um oficial que vivia em um cômodo contíguo, quando caía a noite, atendia os clientes por uma portinhola que ficava na porta do salão. No horário noturno, o preço era o dobro. Havia também porteiros ou guardas que ficavam de prontidão para levar notícias sob encomenda, a cavalo, a clientes que solicitassem.

Agustín Agüeros de la Portilla
Agustín Agüeros

Tudo isso é registrado pelo historiador mexicano Agustín Agüeros de la Portilla na obra “El Periodismo en México durante la Dominación Española“, publicado na Cidade do México em 1910 e digitalizado pelo INAH (Instituto de Antopologia e História do México) em formato PDF, disponível aqui. A fonte principal de Agüeros é o projeto do negócio de Peimbert, publicado no ano anterior, em 11 de fevereiro de 1802, na Gazeta de México.

Además de todo esto, en el almacén se proporcionaban informes del estado del tiempo, conforme a observaciones meteorológicas que se repetían de ocho en ocho horas; observaciones médicas, que los médicos y cirujanos hacían en el ejercicio de sus carreras, y de las que daban razón al Asiento, noticias de los bautismos y entierros, en forma de estadística, (…); el aumento ó decrecimiento de la población, si nacen más mujeres que hombres. etc., etc. Por último, se informaba también de acaecimientos dignos de memoria y discursos conducentes al bien general.

Por seu caráter de distribuir o conteúdo noticioso, e não o suporte da publicação em si, o Asiento Mexicano de Noticias parece mesmo ter funcionado como uma agência. E, assim como as agências de matriz europeia ou norte-americana, seus clientes principais não eram os jornais, mas sim comerciantes, fazendeiros e homens de negócio. No entanto, diferentemente daquelas, os clientes do Asiento incluíam também profissionais liberais.

No Asiento, os clientes que entravam podiam escolher notícias e anúncios postos à venda em gavetas, separadas por categorias. A primeira custava dois reais (a moda colonial espanhola, e de mesmo nome da portuguesa, que inspirou a atual moeda brasileira); a segunda, um real e a terceira, meio real. E a agência aceitava também contribuições: na entrada era disposto um cofre para quem quisesse incluir uma notícia ou anúncio, pelo que se deixava meio real de depósito, que depois era devolvido se o conteúdo fosse comprado.

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Comércio no México no fim da era colonial baseava-se em cereais, artefatos de couro e laticínios

As três categorias eram: primeira, recenseamentos, papéis de câmbio, venda e aluguel de fazendas e edifícios, vendas de casas na capital e redondezas, vendas de commodities (açúcar, milho, trigo, grãos, pimenta), vendas de móveis, animais e (sim, terrivelmente) escravos; segunda, fretes de carga em animais (mulas, burros e cavalos), aluguéis de casas, achados e perdidos, anúncios de vagas e ofertas de escrivães, padeiros, costureiras, amas-de-leite e capatazes; por último, a terceira era de anúncios de vagas e ofertas de porteiros, camareiras, cozinheiros, enfermeiros, lavadeiras, cocheiros e empregados domésticos.

DiariodeMexico1805Percebe-se, pela lista, que não havia muita distinção entre o gênero de “notícias” e “anúncios classificados”, o que no entanto não era exclusividade de Peimbert: a agência fundada por Havas, no início, também mesclou jornalismo com publicidade, quase indistintamente, até separar as duas divisões da empresa em 1852.

Agüeros não relata até quando o Asiento Mexicano de Noticias funcionou, mas dá a entender que o negócio perdeu clientela depois da fundação do Diario de México, em 1805 (imagem à direita). De qualquer maneira, a partir de 1810, com a eclosão da Guerra de Independência do México, seu proprietário ficaria ocupado em outras atividades: Peimbert e sua esposa Clara Romana Leónida Patiño Tello eram membros do grupo de patriotas mexicanos Los Guadalupes, que se engajaria na luta pela independência nos anos seguintes.

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Bandeira do movimento pró-independência Los Guadalupes, em que Peimbert militou

Será que Charles Havas soube da iniciativa de Peimbert e se inspirou para criar a sua própria empresa, três décadas depois? Sabe-se que o francês tinha investimentos na América Latina, especialmente no mercado de algodão (em Pernambuco e no Caribe) enquanto morava em Portugal, nos primeiros anos do século XIX, mas não parece suficiente para inferir que ele tenha tido informações sobre o inovador negócio mexicano. O provável, talvez, é que as duas iniciativas tenham sido motivadas pelo contexto da crescente industrialização da imprensa (as prensas a vapor são introduzidas em 1802 e as prensas rotativas, dez anos depois, permitindo imprimir muito mais jornais em menos tempo), da demanda por informação em fluxo contínuo a partir das guerras napoleônicas (1803-1815) e da expansão dos regimes liberais, que suspendiam a censura aos jornais. Mesmo que não houvesse os “gênios criativos” de Peimbert ou Havas, outros empreendedores pensariam na ideia por aquela época.

Mesmo assim, saber que o jornalismo de agências pode ter tido seu berço também na América Latina, e não somente na Europa, com um pioneirismo de três décadas, é relevante para as narrativas futuras sobre a história das agências de notícias.

(Pedro Aguiar)

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