Em reunião da Organização das Agências de Notícias da Ásia-Pacífico (OANA) nesta quarta-feira (3/5) em Beirute, capital do Líbano, os representantes das agências-membros emitiram uma declaração apelando à responsabilidade dos veículos de comunicação em não dar publicidade aos discursos de grupos terroristas.

O apelo foi feito especialmente pelo diretor da agência iraniana IRNA, Mohammad Khodadi, que mencionou a divulgação de imagens e textos sobre atrocidades cometidas por terroristas sem mencionar diretamente o Estado Islâmico (ISIS) e a guerra travada na Síria, país vizinho ao anfitrião do evento.

“A mídia, no passado, costumava impor limitações à publicação de matérias sobre violência e questões morais. Publicar a foto do comandante de polícia disparando sua pistola na cabeça de um suspeito no Vietnã do Sul chocou o mundo e rapidamente intensificou o sentimento contra a guerra nos Estados Unidos. Mas, hoje, terroristas decapitam pessoas ou queimam suspeitos vivos e as matérias, fotos e vídeos de seus crimes brutais são amplamente divulgados pela mídia. Desta forma, a mídia não só aumenta o medo entre as pessoas, mas também promove um estilo de vida violento. Assim, mesmo que às vezes tenhamos que cobrir um ato violento, expressemos profundo desprezo por esse ato. E, se precisarmos noticiar vitórias de um lado de uma guerra, vamos também escrever matérias sobre como estabelecer a paz permanente”, disse o diretor da IRNA.

Khodadi pediu às agências noticiosas que não promovam o terrorismo e tentem melhorar a paz e a ética. Para isso, sugeriu que uma maneira de os membros da OANA promoverem a paz é enviarem o mesmo número de notícias de paz que enviam sobre conflitos, com pelo menos uma por dia, e que a entidade elabore um plano de ação para o intercâmbio de conteúdo sobre o tema.

“A sobrevivência de uma agência de notícias, de um jornal ou de um canal de televisão depende da promoção da humanidade e da coexistência pacífica com base em interesses comuns”, disse o jornalista iraniano.

Falando como anfitriã da reunião, a diretora da NNA (Líbano), Laure Sleiman, concordou, enfatizando que os representantes das agências foram a Beirute para “discutir e trocar ideias sobre o futuro das agências de notícias à luz do desenvolvimento tecnológico mundial e debater o seu papel no bloqueio à promoção do terrorismo, que está destruindo nossas civilizações, culturas e diversidade”.

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A diretora da NNA, Laure Sleiman, com os demais palestrantes da abertura (foto: AzerTAc)

Os membros da organização concordaram que os terroristas ganham publicidade gratuita indevida ao manipularem a mídia para promover seus objetivos de incutir medo e criar desconfiança e caos entre o público. Sleiman alertou que a mídia pode funcionar como uma faca de dois gumes, pois pode dar exposição midiática aos terroristas.

“Isto é especialmente dado aos muitos veículos de comunicação que competem pela transmissão direta de eventos relacionados ao terrorismo para marcar uma pontos e aumentar o número de leitores e espectadores, à custa dos valores morais e da humanidade”, disse ela.

Normas para noticiar terrorismo

Em defesa, o diretor da agência nacional da Malásia, a Bernama, Datuk Zakaria Abdul Wahab, disse que sua empresa nunca deixou que notícias sobre o terrorismo e seu impacto fossem publicadas além dos fatos do caso dados pelas autoridades.

“Nunca distribuímos notícias que possam beneficiar o terrorismo, e até mesmo a menor sugestão não-intencional para glorificar o terrorismo é estritamente: não, não”, relatou. Segundo Zakaria, a Bernama, que comemorará seu 50º aniversário no final do mês, adota essa política desde antes de o terrorismo ganhar as primeiras páginas do mundo.

“A Malásia tem sorte porque nascemos em 1957 como um país multiétnico e a tolerância entre todas as etnias foi observada e apreciada desde o início”, disse.

Já Muhannad Sulaiman, diretor da agência de notícias do Bahrein, disse que a BNA não cita terroristas ou seus simpatizantes porque “não podemos e não nos permitiremos ser seu porta-voz”.

Sulaiman contou que sempre enfatizou para os editores e repórteres da BNA que o ISIS (ou Daesh, na sigla em árabe) não poderia ser referido como “Estado Islâmico” porque “não era nem islâmico nem um estado” e que um atentado suicida não poderia ser noticiado como ação de mártires, já que “matar pessoas é inaceitável”. O problema que a mídia enfrentou, segundo ele, foi não poder fingir que não havia nada acontecendo ao seu redor quando era o direito do público saber.

Tecnologia e indiferença

A 42ª reunião anual da diretoria executiva da OANA aconteceu no Hotel Hilton Habtoor, no bairro de Sin El Fil, na zona leste de Beirute, e coincidiu com o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, promovido pela UNESCO. Os temas de discussão foram “os meios de comunicação na era do desenvolvimento digital”, “o papel das agências de notícias na era dos celulares acessíveis“, “novos padrões de jornalismo na mídia moderna” e o “papel das agências de notícias no combate ao terrorismo”.

A abertura coube ao ministro da Informação libanês, Melhem Riachy, que enfatizou a adequação dos temas do encontro ao contexto da mídia digital moderna e a necessidade de acompanhar seu desenvolvimento, sem abrir mão da objetividade.

“Esses pontos básicos devem ser o foco do trabalho de mídia moderna, especialmente porque a evolução dos aplicativos para celulares tornou cada cidadão um jornalista. Mas, infelizmente, isso de alguma forma levou à perda do senso de humanidade dos cidadãos. Por exemplo, hoje em dia as pessoas preferem gravar vídeo sobre um incidente do que ajudar os envolvidos“, disse o ministro, de acordo com agência libanesa NNA.

“Estamos enfrentando uma crise, mas diante da tecnologia e das civilizações de hoje em dia, diante dessa realidade, esta reunião é necessária para discutir todos os pontos substanciais para superar rapidamente os obstáculos”, acrescentou.

Além das notícias oficiais

Segundo Riachy, “as agências de notícias estão obrigadas a desenvolver padrões para melhorar a lógica da comunicação e do diálogo, bem como uma cultura de comunicação e diálogo entre os povos do mundo e de uma nação”.

“Talvez agências de notícias devam considerar o desenvolvimento do jornalismo investigativo e a busca de notícias além do óbvio. Acredito que temos de trabalhar esta questão para reforçar o jornalismo investigativo, que por sua vez protegeria a opinião pública e os nossos povos da corrupção e do terrorismo”, afirmou Riachy, citado pela NNA.

Além do presidente da OANA, Aslan Aslanov (AzerTAc, do Azerbaijão), a reunião da entidade também contou com a presença dos dirigentes ou representantes de 20 países e 44 membros, incluindo as agências Anadolu (Turquia), Bernama (Malásia), BNA (Bahrein), Kyodo (Japão), Montsame (Mongólia), TASS (Rússia), Yonhap (Coreia do Sul) e Xinhua (China).

O trabalho das agências de notícias não deve limitar-se apenas a cobrir as atividades dos políticos e autoridades, mas ser mais atento aos assuntos da cidadania e às preocupações sociais e econômicas. As agências também devem promover o conceito de atividades culturais e de mobilidade entre os povos para que eles se comuniquem. É dever das agências de notícias difundir a verdade; É a verdade que nos salva, e deve estar no centro de qualquer ação da mídia”, concluiu o ministro libanês.

 

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