Neste Dia Internacional da Mulher, o Blog Agências de Notícias passa em revista algumas das agências de notícias especializadas em informação de mulheres, apuradas e editadas por mulheres, dirigidas a veículos de público feminino e engajado.

Como todas as agências de notícias, elas existem não para remeter direto aos leitores, e sim para os jornais, sites e revistas (além de emissoras de TV e rádio), especialmente os da mídia alternativa, que recebem e publicam suas matérias.

Antes de começar, porém, cabe um alerta: agências femininas não são necessariamente agências feministas, já que as pautas de reivindicação, as estratégias de luta e os alinhamentos ideológicos variam muito, com todos esses fatores influenciando a linha editorial e as políticas institucionais de cada organização (o que escrever, que pautas fazer, para quais clientes distribuir). Por isso, as cinco agências aqui listadas são feitas por mulheres e para mulheres, mas não necessariamente pautadas pelos princípios do(s) movimento(s) feminista(s).

Há agências de notícias de todos os tipos: globais, regionais, locais; privadas, estatais, cooperativas; comerciais, alternativas, engajadas; generalistas, especializadas. Nesta última categoria, subdividem-se agências que cobrem vários segmentos, de esportes motorizados a direitos das crianças. O segmento das agências de notícias de mulheres, embora bem específico, já existe há décadas e em países onde, a princípio, pareceria inusitado.

A mais antiga entre elas é a Women’s Feature Service (WFS) [], fundada em 1978 em Nova Délhi, na Índia, por iniciativa da UNESCO (agência da ONU para educação e cultura) e da IPS (InterPress Service). Como o próprio nome indica, trata-se de uma agência segmentada em features (crônicas e reportagens), não tanto o noticiário hard news. Mesmo assim, a WFS mantém um ritmo de 250 a 300 matérias por ano (média de duas a cada três dias), alimentando grandes jornais indianos como o Hindustan Times e até veículos de outros países, como o Chicago Tribune, dos EUA. Trabalha não só com serviço em texto, mas também áudio e vídeo. Além do serviço jornalístico, a agência também presta consultoria, promove oficinas e publica dossiês sobre temas diversos como participação de mulheres na política, direitos femininos no mercado de trabalho, mulheres em zona de conflito, desnutrição e saúde materna. A WFS recebe apoio da Cruz Vermelha Internacional e de diversas outras entidades, como a Oxfam, a ActionAid e a fundação alemã Friedrich Ebert Stiftung. Também mantém um histórico acordo de parceria com a IPS, a agência internacional de notícias voltada para os países em desenvolvimento, da qual ficou autônoma em 1991. Em 2015, assinou uma parceria com a ONU Mulheres.

Em 1996, na França, um grupo de jornalistas mulheres fundou a Les Pénélopes – Agence Femmes Informations, sediada em Paris. Segundo publicaram na época, o objetivo era “promover, editar e disseminar informação do ponto de vista das mulheres, utilizando todos os tipos de mídia, e promover todas as atividades que assegurem o intercâmbio, o processamento, a atualização, a centralização e a difusão desta informação a favor de todas as mulheres no mundo”. O nome era uma referência à personagem da Odisseia que tece uma longa manta como subterfúgio para ludibriar pretendentes enquanto espera o marido Ulisses retornar da Guerra de Troia. A metáfora é aplicada à web (“teia”, de tecer), já que se propunham a “assegurar a visibilidade de todas as iniciativas realizadas pelas mulheres, estabelecer pontes entre todas as mulheres do mundo, multiplicar as redes e unir um tear multicultural“.

Para isso, além do serviço de notícias (em francês, inglês e espanhol), a agência francesa enviava boletins informativos regulares, publicava revistas e organizava exposições, além de organizar anúncios classificados. No início dos anos 2000, participavam ativamente da cobertura do Fórum Social Mundial e da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação (WSIS, em inglês). Em 2006, organizaram uma oficina de “apropriação das NTICs por mulheres empreendedoras” e formaram uma rede com colaboradoras africanas em países de colonização francesa (Benin, Burkina Faso, Camarões, Guiné, Mali e Senegal). A agência foi reduzindo a atividade paulatinamente, até desaparecer, em 2011.

Islâmicas

Mesmo em países muçulmanos, onde a questão da opressão de gênero muitas vezes é um tema sensível e frequentemente escamoteado no noticiário, há agências de notícias de mulheres. O Irã tem a Iranian Women News Agency (IWNA), criada em 14 de dezembro de 2004 por iniciativa da Associação Cultural de Mulheres da Província de Coração Razavi, em Mexed (Mashhad), a segunda maior cidade iraniana. Oferecendo serviço noticioso inicialmente apenas em persa (depois expandido para árabe, inglês e francês), a IWNA mantinha um amplo leque de assuntos de cobertura, incluindo economia, cultura, esportes, questões urbanas e legislativas, e o mundo acadêmico (vídeo abaixo).

Na ocasião, a diretora da associação e da agência, Sediqeh Qanadi, disse que a IWNA seria “apolítica e não-feminista“, num país em que normas religiosas islâmicas têm força de lei.

Já na primeira semana, a IWNA publicou matéria sobre um projeto de lei para legalização (limitada) do aborto no Irã. No ano seguinte, o conservador Mahmoud Ahmadinejad foi eleito presidente e a agência fez uma cobertura  especial do processo eleitoral. Aos poucos, a agência foi crescendo e chegou a ter correspondentes em Beirute, Damasco, Bagdá, Istambul e Paris. Sua sede foi transferida para Teerã, a capital do Irã. Em 2010, mudou de nome para International Women and Family News Agency (em inglês), com a sigla WAFA, mas já no ano seguinte foi tirada do ar.

Entre 2012 e 2016, funcionou na Turquia a Jin Haber Ajansı (JinHA), fechada no ano passado pelo governo de Recep Tayyip Erdoğan. A JinHA era mantida por mulheres curdas e sediada na cidade Diyarbakir, dentro do que é considerado o “Curdistão turco” (ainda que o governo turco negue sua existência). Embora não estivessem institucionalmente ligadas às guerrilheiras do Rojava, as jornalistas da JinHA cobriam a luta na Síria, a alguns quilômetros de sua sede. Por isso, incomodaram o governo de Ancara e várias repórteres foram presas diversas vezes ao longo dos quatro anos em que a agência operou. Após o golpe frustrado de julho de 2016, o governo Recep Tayyip aproveitou para fechar diversas organizações jornalísticas acusadas de conspiração, entre elas a JinHA. No site, as últimas notícias publicadas são do dia 28 de novembro. Em janeiro de 2016, a revista digital VICE fez uma reportagem sobre a agência e suas jornalistas (foto no alto da página).

Agência Pagu

E, finalmente, o Brasil tem uma representante no rol das agências femininas: a Agência Patrícia Galvão, sediada em São Paulo, e batizada em homenagem à artista modernista, poeta e jornalista Pagu. Criada em 2009 por iniciativa do instituto de mesmo nome, a APG publica noticiário nacional e internacional sobre diversos assuntos, pela perspectiva de gênero. Por exemplo: o surto de zika, entre 2015 e 2016, foi tratado especialmente pelo risco apresentado às gestantes. Clientes interessados em receber as matérias podem se cadastrar gratuitamente pelo site da agência, que também abriga blogs, pesquisas do Instituto Patrícia Galvão e um canal de vídeo no YouTube.

Sua equipe de conteúdo e o conselho editorial são formados exclusivamente por mulheres. O serviço da agência é editado pela jornalista Géssica Brandino, sob a coordenação das diretoras do IPG, Jacira Melo e Marilia Kayano. Assim como a WFS indiana, a APG também tem parceria com a ONU Mulheres, além de ONGs como o Fundo Global para Mulheres (Global Fund for Women) e a IWHC (Coalizão Internacional para a Saúde Feminina, em inglês).

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