O ano era 1937, e o Brasil estava sob o governo constitucional de Getúlio Vargas. Este foi o cenário da criação da primeira agência de notícias ligada ao Estado brasileiro e que completa 80 anos neste 1º de março. Com a função de abastecer com conteúdo informativo a imprensa brasileira e contar ao mundo o que acontecia no Brasil, a Agência Nacional (AN) surgiu com um apelo nacionalista e viés centralizador, reflexo daquele momento político.

Getúlio instaurou a ditadura do Estado Novo no Brasil apenas oito meses após o início das operações da AN, vinculada ao Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC), criado em 1934. O primeiro diretor da agência, o jornalista catarinense Licurgo Ramos Costa, relatou numa entrevista que, desde 1936, o departamento contava com um serviço de distribuição de noticiário para a imprensa brasileira, num primeiro momento, e para a imprensa estrangeira, que também foi cadastrada para receber as notícias produzidas. A aceitação do material levaria à criação da AN por portaria do Ministro da Justiça, em 1º de março de 1937.

A partir de 1940, a AN esteve sob a égide do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e seu diretor, Lourival Fontes, que regia o que se podia ou não publicar nos jornais do país. Além do serviço em texto, enviado a vários estados e rincões esquecidos pelas grandes agências, a AN também era responsável pelo boletim radiofônico A hora do Brasil, sua produção de maior visibilidade, e pelo Cinejornal Informativo.

Como unidade administrativa, a agência passou a existir por meio do decreto-lei 7.582, de 25 de maio de 1945, pouco antes da deposição de Getúlio, ocorrida em outubro daquele ano. A partir do ano seguinte, a AN passou por reformulação e ganhou mais autonomia, seguindo a abertura política em curso. Até 1979, quando foi extinta, a agência sempre estaria atrelada a interesses de governo. A partir do golpe de 1964, passou a ser vista com um “órgão oficial de divulgação”.

O jornalismo de agências no Brasil é pouco entendido por ser pouco estudado; e por ser pouco estudado, faltam referências bibliográficas específicas que digam sobre esta experiência, principalmente em relação às agências comprometidas em oferecer um serviço de interesse público.

A Agência Nacional não foi a primeira agência de notícias brasileira. Antes dela, outras empresas privadas já haviam atuado no país e algumas estavam em pleno funcionamento. Entretanto, nenhuma delas com a abrangência que conquistou a AN. A estratégia de fornecer um serviço gratuito favorecia à disseminação de discursos, mas as informações seguiam o mesmo caminho. Podemos pensar o funcionamento da agência como num constante movimento pendular, em que as aproximações com a política de governo se alternavam com distanciamentos em busca de autonomia na atuação jornalística.

Com o desaparecimento da AN em 1979, em outro momento de abertura – fim da ditadura e redemocratização – , surgiu a Empresa Brasileira de Notícias (EBN). A sucessora da Agência Nacional não teria vida longa, sendo extinta em 1988. Depois de dois anos de hiato, durante o governo Fernando Collor, foi fundada a Agência Brasil. Não como empresa autônoma, mas como serviço da então Radiobrás, hoje EBC (Empresa Brasil de Comunicação).

Este breve histórico vem sendo montado há meses, num esforço coletivo de pesquisadores que buscam estabelecer uma narrativa sobre as agências nacionais criadas pelo Estado brasileiro. A cada dia, novas fontes são buscadas para tentar completar o quebra-cabeças.