Este artigo foi originalmente publicado no jornal Daily Sabah, da Turquia, na coluna Canto do Leitor, na última segunda-feira (20/2).

por İbrahim Altay*

Se olharmos para as forças motrizes nos meios de comunicação, não há dúvida de que as agências de notícias estão bem no alto na lista. Com o grande volume de conteúdo que elas fornecem, combinado com um extensivo trabalho de apuração e a ampla rede de fontes jornalísticas que têm a oferecer, é claro que as agências de notícias se tornaram uma parte essencial das fontes para a mídia de hoje em dia.

Mais que isso, o a redução das empresas da grande mídia significa que há menos necessidade de repórteres e correspondentes em campo – sem falar na mudança geral de foco dessas organizações para websites de notícias e maior ênfase em equipe de editores, enquanto tiram o conteúdo de agências.

As agências de notícias evoluíram de serem uma praticidade e conveniência para se tornarem uma necessidade absoluta. Não é mais considerado produtivo questionar os prós e contras do que elas trazem em pauta, ou a validade de sua existência. Hoje em dia, a sustentabilidade de um órgão de mídia depende dos serviços que presta e de como tais serviços aderem ao moderno status quo. Apesar dos desafios previsíveis, há coisas em debate e formas de melhorar quando se lida com o conteúdo fornecido pelas agências de notícias.

Claro, esta não é a primeira vez que abordamos este assunto no Canto do Leitor; nem será a última. Esta página apresentou inúmeros artigos que ou mencionaram ou analisaram completamente a situação – a saber, o artigo intitulado “Agências de notícias e jornalismo“, publicado há quase três anos, em 25 de maio de 2014, que se refere ao assunto.

Dependência

Permita-me pegar emprestada uma citação do artigo para dar estatísticas relacionadas ao assunto em questão: “Para tornar a imagem mais clara, gostaria de dar alguns números sobre estas agências de notícias. Eles são tirados dos estudos do Dr. Muzaffer Şahin que publicados na 37ª edição da İletişim Kuram ve Araştırma Dergisi (Revista de Pesquisa e Teoria da Comunicação, da Universidade Gazi).

Ele diz que, até o ano de 2012, havia um total de 50 agências de notícias ativas na Turquia, com 16 delas sendo locais e as demais, estrangeiras. As locais produziram cerca de 2.300 notícias por dia, enquanto suas congêneres estrangeiras conseguem vender 3.100 matérias, só sobre a Turquia, por dia.

Com esta extensa cobertura de notícias cobrindo mais de 5.000 matérias por dia, os jornais estão preenchendo 70% de suas páginas com notícias da agência”.

Definitivamente, é um número estarrecedor e, considerando que estas estatísticas eram de 2012, hoje é provavelmente muito maior.

Responsabilidade compartilhada

A troco de que abordar este assunto agora, você pode se perguntar? Uma matéria do Daily Sabah no início de fevereiro recebeu críticas de um de nossos leitores no exterior, devido à abordagem sobre um polêmico comício organizado no país do leitor. A matéria em questão foi creditada a uma agência de notícias estrangeira e provavelmente foi preparada tendo apenas essa matéria de agência como fonte.

No entanto, foi essa dependência de uma fonte única que motivou a crítica em si. Nosso leitor afirmou que o viés da matéria distorcia a situação, ao diminuir o comício da oposição, apresentando-os como extremistas, enquanto lustravam a autoridade contra a qual protestavam, descartando os detalhes de um escândalo de corrupção como um pretexto justificável.

Em outras palavras, a matéria da agência de notícias exalava um ponto de vista e uma retórica próprios ao dar essa notícia. Isso é compreensível, pois toda organização de mídia tem sua própria perspectiva ao cobrir o noticiário no contexto de propaganda, que não tem problema, desde que as fontes de mídia não alterem os fatos.

No entanto, a queixa do nosso leitor não era dirigida à agência relevante; por contraste, foi mirada diretamente em nós, devido ao fato de que essa era uma notícia que ele leu em nosso jornal.

Ao publicarmos essa matéria, nós também somos um elo na cadeia de responsabilidade e, embora inadvertidamente, também apoiamos a perspectiva da agência de notícias. Neste caso, foi um comício em um país estrangeiro. Amanhã, poderia ser sobre um acontecimento que retrataríamos como anti-muçulmano enquanto a agência estrangeira poderia reduzi-lo como um assunto menor.

Atenção a conflitos

O fato é que, embora precisemos dos serviços das agências de notícias para funcionar no mundo dos meios de comunicação modernos, devemos tomar cuidado para não sermos reduzidos a uma plataforma que só serve como um condutor.

Ao publicarmos matérias com base em informações primárias de uma agência de notícias, temos de permanecer atentos para evitar casos em que a nossa perspectiva ou a nossa abordagem para o assunto possa conflitar com o da fonte original da agência.

De outra forma, vamos simplesmente nos acorrentar à retórica de outra organização de mídia, perdendo assim os nossos pontos de definição e diferenciação, que são tão mais importantes na grande mídia hoje em dia, onde as fronteiras se tornaram borradas.

*İbrahim Altay é jornalista turco. Escreve semanalmente sobre mídia e jornalismo no jornal Sabah, de Istambul. Seus artigos são reproduzidos por veículos de vários países da Ásia e do mundo islâmico.