Aqui no blog a gente fala muito sobre agências de notícias que são grandes empresas, que faturam na ordem dos milhões de dólares, com clientes do mundo corporativo, penetração no setor financeiro, equipamentos de alta tecnologia e de última geração, sistemas de gestão de informação caríssimos e personalizados, sediadas em arranha-céus de vidros espelhados localizados nas metrópoles ricas do centro do capitalismo.

Dito assim, parece de que, de fato, o jornalismo de agências só existe nessa estreita ligação com o dinheiro, com a elite, com a concentração de capital e poder. Embora seja inegável que esta seja a face mais visível do que se convencionou tratar como esse setor, o das agências de notícias, há todo um outro mundo que faz jornalismo para distribuir informações, com trabalho sério e dedicação, e que está fora do jet-set do mercado.

A Agência de Notícias das Favelas é um belo exemplo deste mundo fora dos grandes fluxos de informação do capital. Fundada em janeiro de 2001 no Rio de Janeiro, ela alimenta não só veículos da mídia alternativa, como o Portal Vermelho, a TVT, o Geledés, a revista Forum e o jornal A Nova Democracia, mas também da mídia comercial e local, como o portal SRZD, além de blogs e mídias sociais. Também é reproduzida pela mídia comunitária e por entidades da sociedade civil, como a Cooperativa Desacato, de Santa Catarina, e a Rede Mobilizadores. Todos esses veículos citam as matérias da ANF, como é possível comprovar com buscas nos sites.

Seu fundador, André Fernandes, ex-fuzileiro naval que virou missionário evangélico e jornalista autodidata, teve a ideia em 1997, ao perceber que havia uma demanda da grande imprensa por informação originada nas favelas – numa época em que o controle territorial dessas comunidades pelo tráfico fazia quase proibitivo para repórteres entrarem lá por conta própria.

“Durante toda a década de 1990, eu atendia, em média, dez telefonemas por dia de jornalistas de todo o País e do exterior pedindo contatos e pautas nas favelas do Rio de Janeiro. Essa rotina me fez pensar que deveria facilitar a vida desses profissionais, democratizando as informações que eu tinha. (…) Na minha longa experiência como fonte e ajudante dos repórteres, descobri que muitas denúncias graves deixavam de ser feitas porque os veículos de comunicação tinham o patrocínio financeiro do estado. Só uma agência independente e popular poderia garantir maior exposição da realidade dos pobres moradores das favelas”.

“Era hora de pensar”, conclui, “na fundação de uma agência de notícias de favelas”.

André, que nasceu “no asfalto” mas morou por quase dez anos no morro Santa Marta, na zona sul carioca, relatou a experiência em seu livro Perseguindo um Sonho: a história da fundação da primeira agência de notícias de favelas do mundo (abaixo), lançado em 2014 e já na segunda edição – do qual o trecho acima foi reproduzido. A obra já foi traduzida para italiano e deve ser editada também em espanhol e alemão.

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Para manter a ANF, ele contou com a ajuda de outros jornalistas profissionais, como Jan Theóphilo e Carla Rocha. O repórter Caco Barcellos, o cineasta João Moreira Salles e o pastor Caio Fábio também foram incentivadores da iniciativa. Além disso, buscou colaboradores entre moradores de favelas do Rio para produzir as pautas e matérias.

“O meu sonho era que a Agência de Notícias das Favelas tivesse colaboradores em cada favela do mundo. O objetivo seria o intercâmbio de informações para garantir a multiplicação da experiência. Desejávamos que uma iniciativa bem-sucedida de uma favela pudesse, por meio da ANF, ser copiada ou adaptada à realidade de outras e que os exemplos negativos servissem de alerta e fossem evitados em outros locais. Criaríamos uma grande rede de informações das favelas“, conta, no livro.

Entre os recursos tecnológicos que a agência emprega, está a produção colaborativa de conteúdo, por meio do site, inclusive para garantir o anonimato em caso de ameaça à segurança. E faz isso de uma forma coerente e sistematizada, apurando e checando a informação, sem a anarquia das mídias sociais. O principal diferencial, no entanto, é a perspectiva da informação, o lugar de fala das notícias circuladas: informar por quem está na favela, não por quem apenas vai lá fazer matéria.

Na ANF, a favela vai muito além do espaço monotemático reservado pela grande mídia – em geral, associado à violência e a obras assistenciais. A agência tem editorias de cultura, esportes, tecnologia, política e oportunidades, além, sim, de segurança pública. Segundo seu próprio site, a ANF foi “foi criada para atender a demanda da imprensa e da sociedade que precisavam obter informações sobre que acontecia no contexto das favelas do Rio de Janeiro”.

A iniciativa deu tão certo que a ANF foi convertida em ONG em 2005 para “levar adiante a luta pela democratização da informação da favela para o mundo, tendo como protagonistas seus próprios moradores”, promovendo a “integração e a troca de informações entre as favelas”. Ou seja: neste ponto, é igual a todas as demais agências de notícias, que operam justamente na circulação de informações pelos pontos distintos no espaço geográfico.

Além da agência e da ONG, a organização tem também um braço comercial, a ANF Produções, que oferece serviços de micropublicidade (o minidoor social, colocado em pontos de visibilidade nas comunidades) para pequenos negócios, e, desde 2010, edita o jornal mensal A Voz da Favela, com tiragem de 50 mil exemplares.

E o slogan se confirma: em levantamento feito para pesquisa de um dos editores do blog, foram localizadas 2.000 agências de notícias em 182 países. Há, entre elas, várias agências operadas por movimentos sociais, segmentadas e temáticas. Mas nenhuma outra é especializada em notícias de favelas ou comunidades carentes/periféricas, embora exista uma agência na Escócia voltada para moradores de rua: a Street News Service.

(O jornal paulista Folha de S.Paulo mantém um blog chamado Agência Mural, dedicado a conteúdo colaborativo de repórteres nas periferias de São Paulo, não especificamente favelas – e, apesar do nome, é um blog, não uma agência de notícias.)

Atualmente, a ANF conta com cerca de 300 colaboradores (alguns deles, na foto do alto deste post) e continua aceitando novos voluntários. Como entidade, realiza o curso de formação para agentes comunitários de comunicação, organiza eventos culturais, produz documentários, e publica livros como o “Guia das Favelas”, um guia turístico específico para os morros cariocas. Funciona, enfim, como uma verdadeira agência de notícias e uma articuladora da informação das periferias, fora do circuito do dinheiro alto e dos luxos sedutores onde ficam as maiores agências — porque, afinal, é aqui, do lado de fora dessa bolha, que vive a grande maioria do mundo.

Serviço:

Perseguindo um Sonho: a história da fundação da primeira agência de notícias de favelas do mundo
André Fernandes
editora: ANF Produções
ano: 2014 (1ªed. ), 2016 (2ª ed.)
páginas: 536
para comprar:
Livraria da Travessa (R$ 35,80)