Se for para fazer uma pesquisa acadêmica sobre jornal, ninguém tem dúvida: há toda uma bibliografia consolidada, no Brasil e no exterior, que dá conta das rotinas de produção dos diários, que questões econômicas como o papel e a integração impresso-online, da sociologia das redações e dos estudos de recepção que abordam a relação entre os leitores e os tablóides, standards ou compactos. Se o objeto for televisão, mais ainda: livros, artigos e dossiês infinitos tratam das linguagens e particularidades do telejornalismo. Com rádio e revista, a mesma coisa. E isso para não mencionar o jornalismo de internet, que estourou há pouco mais de 20 anos, mas cuja bibliografia é tão extensa que faz parecer uma atividade centenária.

Agora, se o seu tema de pesquisas são agências de notícias, aí a realidade é outra.

Quem se propõe a pesquisar o jornalismo de agências, como atividade profissional, ou as agências de notícias, como setor na economia da comunicação, logo descobre que esta é uma área sobre a qual pouco se escreve na pesquisa acadêmica em Comunicação e em Jornalismo. Em outras áreas do conhecimento, então, as agências de notícias são virtualmente ignoradas. Elas conseguiram ser muito bem-sucedidas em manter uma discrição surpreendente para uma atividade tão essencial à comunicação mundial e tão antiga – vamos lembrar que, daqui a apenas 18 anos, o jornalismo de agências vai completar dois séculos de existência.

Uma das propostas deste blog é justamente oferecer material de pesquisa, acompanhando o dia-a-dia do setor, reunindo fontes de informação, organizando referências e sugerindo bibliografia. Por isso, listamos aqui algumas das principais obras de referência para conhecer o mundo das agências de notícias. Vamos nos ater, neste post, a obras mais genéricas, sobre agências como organizações e o jornalismo de agências em geral. Em outros textos, futuramente, podemos nos dedicar a livros (e artigos) sobre temas mais específicos.

Antes de começar, um aviso que poderia ser óbvio mas não é: a maioria dos livros aqui recomendados é em língua estrangeira. Nenhuma das obras publicadas no exterior jamais foi traduzida para o português e, aqui no Brasil, só temos um único livro específico sobre o tema, editado em 2014 em versão digital.

A obra mais completa já escrita até hoje sobre as agências de notícias é The International News Agencies, de Oliver Boyd-Barrett, publicada nos EUA e na Inglaterra em 1980. Apesar dos 37 anos de publicação, é impressionante como mantém sua atualidade. Descreve a lógica econômica por trás da operação das agências, suas relações com o poder (político, econômico, cultural) e reconta o básico da evolução histórica das quatro maiores agências (na época): Reuters, AP, AFP e UPI. Boyd-Barrett é um sociólogo irlandês radicado nos Estados Unidos há quatro décadas e hoje professor aposentado da Universidade de Bowling Green, no Colorado. No livro, escrito na época dos debates sobre a NOMIC e lançado no mesmo ano do Relatório MacBride, ele assume a perspectiva teórica da Economia Política da Comunicação, extremamente crítica à dominância das agências nos fluxos internacionais de informação, mas sem ser panfletário em momento algum. O livro continua sendo o ponto de partida ideal para quem quiser se aventurar no universo das agências de notícias. Um problema grave: é muito difícil de encontrar para comprar, está fora de catálogo há muitos anos, só se acha usado pela internet e não existe em versão online.

Em segundo lugar, uma obra muito básica, mais recente, mas também consideravelmente menos aprofundada, é News Agencies from Pigeon to Internet, do jornalista e professor indiano K. M. Shrivastava, recentemente falecido. Em suas 336 páginas, ele reconta desde o início a história das agências de notícias, discute algumas características próprias do jornalismo de agências e faz uma espécie de catálogo de dezenas de agências, de quase todos os países do mundo, tanto estatais quanto privadas, generalistas e segmentadas, grandes e pequenas. Como é de se esperar, uma atenção especial é dedicada às agências da Índia, onde o setor é particularmente forte. Um problema: boa parte dos textos sobre as agências é retirada dos websites e materiais institucionais dessas próprias empresas, reproduzindo de forma acrítica o discurso corporativo. Ainda assim, é um excelente material de referência. O livro ainda inclui anexos como uma cronologia histórica e links para sites das agências (boa parte deles já defasados). Ele também está fora de catálogo, mas trechos podem ser lidos no Google Books.

Mais recentemente, a pesquisadora polonesa Barbara Czarniawska lançou, em inglês, o livro Cyberfactories: How News Agencies Produce News, em 2011, em que analisa as rotinas produtivas de três grandes agências de notícias na era digital – Reuters, ANSA e a sueca TT. Embora ela não seja da Comunicação (sua carreira acadêmica é na Administração, em estudos organizacionais), fez estudo de campo, observando jornalistas dessas três empresas dentro da redação. Seu viés é mais preocupado com as práticas profissionais, rotinas produtivas e aspectos organizacionais, mas ainda assim é uma fonte preciosa para quem deseja entender o funcionamento desse tipo de empresa nos dias de hoje. A boa notícia: o livro é facilmente encomendável pela Amazon, sem contar não ser tão difícil de encontrar em versão PDF pirateada por aí…

Para quem não gosta de ler em inglês, há uma boa opção em espanhol: Globalización de la Información y Agencias de Noticias foi escrito pelo jornalista espanhol Ignacio Muro Benayas, ex-diretor de distribuição da agência EFE, e lançado em 2006. Nele, o autor faz um bom estudo sobre o impacto da digitalização (ainda não se falava tanto sobre convergência digital naquela época) e da globalização dos mercados (especialmente financeiros) sobre o modelo de negócios das agências de notícias. De fato, ele toma a EFE como estudo de caso na maior parte do livro, mas recorrentemente menciona outras agências multinacionais (Bloomberg, Dow Jones, Reuters) ou espanholas (Agència Catalana de Noticies) para enriquecer seus exemplos. O melhor de tudo? O próprio autor pôs boa parte do livro disponível online para ser lido de graça, como já noticiamos uma vez aqui no blog.

Finalmente, um livro sobre o qual ainda faremos um post específico é brasileiro: Agências de Notícias: perspectivas contemporâneas, de 2014, foi co-organizado por três pesquisadores: José Afonso Silva Jr., da Universidade Federal de Pernambuco; Maria Cleidejane Esperidião, doutora pela Universidade Metodista de São Paulo; e Pedro Aguiar, mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorando pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (e co-editor deste blog). O livro, que saiu como e-book pela EdUFPE, reúne capítulos originais escritos por diversos pesquisadores brasileiros da área, acompanhados do próprio Boyd-Barrett. E sobre este não há o que reclamar, porque está disponível para ler e baixar de graça, na íntegra.

Existem também livros que são específicos sobre algumas agências, particularmente as atuais três maiores do mundo: Reuters, Associated Press e AFP. Sobre elas, a bibliografia é até extensa (em inglês), mas podemos aqui listar alguns para cada:

Reuters

Associated Press

Agence France-Presse

  • AFP: 150 ans d’agence de presse‎. Paris: BPI/Centre Georges Pompidou, 1985.
  • HUTEAU, Jean Daniel; ULLMANN, Bernard. AFP: une histoire de l’Agence France-Presse – 1944-1990‎. Paris: Robert Laffont, 1991.
  • PIGEAT, Henri. L’Agence France-Presse (A.F.P.). Paris: La Documentation française, 1976.
  • ROBIN, Jean. Le Livre Noir de l’AFP: orientation partisane, censure, désinformation, erreurs, mensonges, etc. Paris: Tatamis, 2013.
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