O jornalista italiano Roberto Savio (Roma, 1934) é co-fundador da agência de notícias Inter Press Service (IPS), que estabeleceu em Roma, em 1964, junto a Pablo Piacentini. Seu propósito sempre foi fornecer uma cobertura do noticiário internacional pela perspectiva do “Terceiro Mundo”, os países mais pobres do planeta, hoje chamados de Sul Global. De início, usavam a experiência profissional de jornalistas exilados pelas ditaduras na América Latina, África e Ásia. Embora atualmente a IPS tenha reduzido seu potencial de cobertura e sua clientela, continua ativa e operante.

Roberto Savio1Aos 82 anos, Savio mantém aguçado seu senso crítico e percepção de conjunto do cenário da mídia mundial. Para ele, a financeirização da economia deu poder descomunal aos mercados e tirou a força da imprensa para subsidiar os debates na esfera pública. Se hoje o capital volátil está investido em gigantes tecnológicos como o Facebook, que concorre com as agências de notícias no fornecimento de informações, o foco do jornalismo deve ser resgatar sua “dignidade” e seu papel como entregador de fatos à sociedade.

Entrevista realizada em janeiro/2017 por Cristian Cabalin, da revista Palabra Pública, da Universidade do Chile.

[Publicado em português originalmente em Diálogos do Sul]

Hoje se fala em “jornalismo cidadão”. Existe essa categoria?

Roberto Savio: Esse jornalismo cidadão é feito fora dos diários graças ao sistema de comunicação horizontal promovido pela Internet. Quando se refere à imprensa, se fala de meio de comunicação, mas não o é. A imprensa é um meio de informação. A comunicação é um sistema horizontal.

De toda maneira, a imprensa continua sendo fundamental para o funcionamento da democracia.

Roberto Savio: Sim, mas a profissão jornalística foi banalizada. Para economizar dinheiro, agora os jornais só se dedicam a cobrir acontecimentos. Não cobrem processos, onde é necessária maior interpretação e desenvolvimento das histórias. O jornalismo se reduziu a pílulas; então, não se precisa de jornalistas brilhantes.

São menos complexos os jornalistas de hoje?

Roberto Savio: Claro, mas é produto da estrutura do mercado de mídia. Se não é necessário escrever análises, pago menos. Por exemplo, os jornalistas na Itália trabalham por artigo publicado; poucos têm contratos que garantam estabilidade.

Este problema econômico dos diários afeta também sua influência na sociedade? Sempre se acreditou que a imprensa constrói a agenda política.

Roberto Savio: A imprensa perdeu o poder, porque hoje a política é menos importante. A política não é mais dirigida pela sociedade. O poder é exercido pelo mundo das finanças e das grandes corporações econômicas. Antes um jornal podia derrubar um governo, hoje isso é impossível, porque a política perdeu poder diante da economia financeira.

Então, como recuperar esse poder?

Os meios de informação e a política têm que apresentar um modelo de sociedade. Propor uma discussão sobre se é correto ou não salvar os bancos em épocas de crise. Os bancos na Europa ainda possuem 800 bilhões de dólares em títulos tóxicos. Destina-se mais dinheiro a salvá-los do que a subsídios para o trabalho juvenil. Hoje, 35% dos jovens estão sem emprego, mas gastam-se mais recursos para salvar os bancos europeus. Então é preciso discutir que modelo de sociedade queremos ou se vamos entregar tudo para o mercado. Os meios não têm liderado esse debate. A imprensa perdeu poder e também dignidade.

Nesse contexto, o que se pode esperar do jornalismo?

Roberto Savio: A ontologia do jornalismo é ser a consciência crítica da sociedade para que esta possa discutir a si mesma. Em uma sociedade em crise, o jornalista tem uma função muito importante. O jornalismo deve voltar a conectar a sociedade com a democracia. É necessária uma visão complexa para entender e interpretar os processos sociais.

Com essa exigência de maior análise, como é possível explicar o triunfo de Donald Trump nos Estados Unidos ou o Brexit na Inglaterra?

Roberto Savio: Há duas razões fundamentais para entender esses processos. A partir de 1981, com o impulso do neoliberalismo –através do Consenso de Washington, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional- decidiu-se que o crescimento econômico vem do mercado e que se deve eliminar os gastos sociais. Com esta política de ajuste, começa a ser desmantelada a estrutura do Estado para privatizar tudo. Logo, com a derrubada do Muro de Berlim, começam a falar do fim da história. A esquerda se confronta com esse contexto, com um tsunami ideológico neoliberal e é incapaz de criar um muro de contenção. Desde Tony Blair para a frente, ocorre uma dissociação com a democracia e a esquerda se acomoda à nova ordem, onde existe um declínio na participação dos cidadãos na política e muitos pessoas são deslocadas da sociedade pelo sistema neoliberal. Porém ninguém nota e só dedicam o olhar às estatísticas.

E são esses deslocados que votam a favor do Brexit e Trump?

Roberto Savio: Claro. Há crescimento, mas também muita desigualdade. O voto no Brexit e no Trump vem de pessoas que foram marginalizadas, precarizadas e castigadas pelo excesso neoliberal. Mas esse fenômeno também se conecta com a eleição de um presidente nas Filipinas, Rodrigo Duterte, que promete matar delinquentes, narcotraficantes e drogados. Há algumas semanas, ele deu uma coletiva à imprensa em que disse que seu governo estava atrasado porque só tinha matado  uns 3 mil das 300 mil pessoas prometidas em sua campanha! Estamos numa mudança de sociedade em que afloram tais sentimentos de ódio e nacionalismo. E parece que ninguém está consciente disso.

Os grupos mais progressistas não foram capazes de ver essas mudanças?

Roberto Savio: A esquerda não soube deter o neoliberalismo desatado porque procurou se adaptar e descuidou das pessoas, sobretudo dos jovens. Na Inglaterra, 82% dos jovens votaram por ficar na Europa, porque têm uma visão mais contemporânea da realidade. Nos Estados Unidos, os jovens deram dez milhões de votos a Bernie Sanders, mas o Partido Democrata apoiou Hillary Clinton e espantou toda a juventude.

No começo da entrevista você disse que a Internet tem promovido uma comunicação mais horizontal, mas alguns analistas afirmam que as redes sociais digitais se converteram num risco para a democracia, porque criam algumas comunidades onde só se compartilham discursos racistas, misóginos ou xenófobos. Existe aí também uma explicação para o trunfo de Trump, a quem inclusive chamam de candidato “troll”, porque atacava com virulência seus adversários?

Roberto Savio: Há uma responsabilidade muito complexa nesse terreno. A sociedade civil –que está na base do conceito das redes sociais digitais- se organiza basicamente por temas. Por exemplo, se eu me interesso pelo meio ambiente, não compro jornais, porque a informação não está neles, vou à Internet. Essa organização do fluxo de comunicações por temas tem levado a um tipo de informação sem hierarquias profissionais. Então, no contexto dessa falta de organização conceitual, gera-se material informativo que só tem a intenção de alcançar as pessoas que pensam igual a mim, promovendo a intolerância.

De fato, segundo análises recentes, Facebook é a maior plataforma para difusão de notícias falsas.

Roberto Savio: Claro. Um dos grandes problemas atuais é que grande parte da população sai do mundo real para ingressar no mundo virtual. Por exemplo, no ano passado na China, um milhão de casais se casaram sem nunca terem se encontrado antes pessoalmente, só tinham mantido contato pela Internet. Este mundo virtual está criando uma nova cultura, em que a vida social é reduzida. Na Internet é muito mais fácil fazer circular ilusões, desejos e falsidades, porque não há um mecanismo de filtro nem controle. Por isso mesmo, a função do jornalista se torna insubstituível na sociedade contemporânea.

(foto do alto: Anthony Coyle)