É comum fazerem resenhas de livros, especialmente aqueles que têm forte potencial de servir de fontes para pesquisas acadêmicas. Mas resenha de capítulo, apenas um capítulo separado do resto da obra, é algo mais raro. No entanto, o capítulo 3 da parte IV do livro História dos Jornais no Brasil, de Matías M. Molina (Cia das Letras, 2015, 536 p.), primeiro volume de uma trilogia, merece a distinção. É o primeiro e mais completo segmento já publicado sobre agências de notícias na bibliografia brasileira.

Na verdade, não é mais o primeiro livro brasileiro específico sobre agências, já que esse pioneirismo foi obtido  por Agências de Notícias: perspectivas contemporâneas (EdUFPE, 2014, 171 p.), co-organizado por José Afonso Silva Jr., Maria Cleidejane Esperidião e Pedro Aguiar (da equipe deste blog). Mas o capítulo de Molina é, sim, a pesquisa mais aprofundada e ampla, entre as publicadas até agora, sobre a atuação das agências de notícias em território brasileiro.

A parte IV do livro é dedicada à Infraestrutura necessária para o funcionamento da imprensa brasileira. Ele a subdivide em cinco capítulos: Sociedade, Comunicações, Agências de Notícias, Instalações gráficas e Subsídios e subvenções. São segmentos de muito interesse para quem pesquisa a economia política da imprensa no Brasil.

E, para nós, o terceiro particularmente é o que nos toca.

Mas Molina vai lá atrás, para o começo de tudo: depois de ter explicado a trajetória do telégrafo e das linhas de telecomunicações do Brasil (teletipos, telex, satélite, telefonia), todas indispensáveis para a operação das agências, no capítulo 2, ele entra no capítulo 3, à página 400, comentando a dominância da Havas no fornecimento de noticiário internacional para a imprensa brasileira. E daí segue cronologicamente o desenvolvimento do setor, acompanhando a atuação da Havas (nos dois primeiros anos, 1874-1876, uma joint-venture Havas-Reuters) e suas concorrentes norte-americanas, particularmente a Associated Press (AP) e a United Press (UP, que só em 1958 faria fusão com a INS para formarem a UPI).

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Molina ressalta como a adesão da francesa Havas ao cartel das três agências europeias (com a britânica Reuters e a Wolff alemã) limitava sua atuação e criava problemas de ordem econômica, técnica e editorial para os serviços fornecidos aos jornais brasileiros (e sul-americanos de forma geral). A eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, é a pá de cal no monopólio europeu, já que põe a Wolff em lado oposto a Havas e Reuters, e faz do serviço da agência francesa uma verdadeira propaganda beligerante anti-alemã. Os jornais brasileiros (e argentinos, chilenos, peruanos…) pedem uma cobertura mais equilibrada e menos parcial, e acabam recorrendo às agências norte-americanas, furando as cláusulas de exclusividade territorial do cartel.

A partir daí, detém-se no papel estratégico do Brasil para as agências estrangeiras, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial (quando a Havas, na França ocupada pelos nazistas, foi desfeita e depois re-fundada como Agence France-Presse, a atual AFP) e na Guerra Fria (quando Nelson Rockefeller, chefe do OCIAA, agência dos EUA de propaganda para a América Latina, articula com Kent Cooper, diretor da AP, uma presença mais forte na imprensa brasileira).

Um dos maiores méritos de Molina é resgatar a lembrança da primeira agência de notícias do Brasil, e provavelmente da América Latina: a Agencia Americana Telegraphica, fundada pelo banqueiro falido Manoel Gomes de Oliveira em fevereiro de 1874, portanto cinco meses antes da instalação do cabo telegráfico submarino do Atlântico Sul. Apesar de efêmera (acabou no ano seguinte), a AAT começou como uma novidade no jornalismo brasileiro, marcando a primeira experiência concreta de jornalismo de agências em nosso país – e depois esquecida, sobre a qual o blog ainda pretende fazer um texto específico.

Uma carência, porém, é notável: talvez fiel à preposição no título, Molina se concentra mais nas agências de notícias no Brasil, e não do Brasil – ou seja, fala mais da atuação das agências estrangeiras aqui do que das agências brasileiras. Apenas nas últimas cinco páginas, um breve apanhado das empresas nacionais reúne a Agência Nacional (1937-1979) e suas sucessoras – a EBN (1979-1988) e a Agência Brasil (1990-…) -, mais as agências dos conglomerados de imprensa – desde a Meridional (1931-…, hoje DA Press), de Assis Chateaubriand, até as atuais Agência Estado (1970), Folhapress (1994) e Agência O Globo (1974), e empresas privadas menores como a AA, ABN, Asapress, Transpress, Press Parga, UJB e a DTM (que esmiuçamos em um post recente).

Ainda assim, com suas 30 páginas de informação apurada e referenciada em consultas à Hemeroteca da Biblioteca Nacional e a obras prévias sobre as empresas jornalísticas nacionais (algumas com imprecisões revistas, como a História da Imprensa no Brasil, de Nelson Werneck Sodré), o capítulo de Molina é a fonte mais completa, mais detalhada e mais confiável até hoje entre os livros publicados para se conhecer a história das agências de notícias no Brasil.

Serviço:

História dos Jornais no Brasil
Matías M. Molina
editora: Cia das Letras
ano: 2015
páginas: 536
para comprar:
Buscapé – busca (de R$ 35,92 a R$ 59,76)
Bondfaro – busca (de R$ 35,92 a R$ 59,76)
ler no Google Books (visualização parcial)

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