Quem leu o livro História dos Jornais no Brasil, primeiro volume da trilogia que Matías Molina está lançando sobre a imprensa brasileira, e se esbaldou com um capítulo inteiro dedicado ao setor das agências de notícias no país, deve ter passado batido sobre três letrinhas que ele apenas menciona na página 427: DTM.

Essa sigla, cujo significado não é encontrado em nenhuma das literalmente centenas de fontes consultadas pela equipe do blog, faz referência a uma agência de notícias brasileira que funcionou entre o fim da década de 1920 e o ano de 1931, quando parou de operar – ou, pelo menos, de ser citada pela imprensa. Entre as duas datas, porém, chegou a ser uma agência extremamente reproduzida nos jornais brasileiros da época, inclusive os maiores e mais respeitados deles, como a Gazeta de NotíciasO Paiz, A Noite, A Manhã, o Jornal do Commercio, o Diário da Noite e o Diário de Notícias. O Jornal do Brasil, nesse mesmo período, publicava despachos da United Press e da Havas. Os atuais três maiores jornais do país, O Estado de S.PauloO Globo e Folha de S.Paulo (então chamado Folha da Manhã), já existiam mas não abrem seus acervos para consulta gratuita integral (apenas parcial).

A consulta aos jornais dos anos 20 e 30 do século XX pode ser feita pelo portal da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A equipe do blog fez a busca e encontrou centenas de referências à agência DTM (em geral, grafada com pontinhos e espaços entre cada letra: D. T. M.), mas nenhuma com o nome por extenso, nem referências a seus proprietários, muito menos a qual era a cidade-sede de onde operava.

No entanto, a DTM chegou a ser, sim, uma agência de notícias ativa e relevante naquele período, particularmente no turbulento ano de 1930. Foi a DTM quem deu o furo do assassinato do governador (“presidente”, como se chamava à época) da Paraíba, João Pessoa, em 26 de julho, crime que serviu de estopim para o golpe de estado anti-oligárquico daquele ano – a “Revolução de 30“.

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Mais para o final do ano, manteve uma ativa praça de correspondência em Porto Alegre, de onde acompanhava os desdobramentos da formação do novo governo “revolucionário”, encabeçado pelo ex-governador gaúcho Getúlio Vargas e tendo outros gaúchos proeminentes no primeiro escalão, como Flores da Cunha e Oswaldo Aranha.

Ainda no ano de 1930, a DTM também mandou correspondentes para o Uruguai para cobrir a primeira Copa do Mundo de Futebol, que a seleção brasileira disputou, como registra o historiador Fábio Franzini no livro “Corações na ponta da chuteira: capítulos iniciais da história do futebol brasileiro (1919-1938)“, de 2003. Além disso, publicava com razoável frequência informações financeiras e cotações de commodities, como o café (abaixo).

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Apesar dessa cobertura no exterior e de alguns eventuais telegramas com procedência de Berlim (talvez reproduzidos de outras agências atuantes na época, como a Transocean alemã), o forte da misteriosa agência era a cobertura do noticiário doméstico, brasileiro, como Molina já adiantara no livro. Destaca-se uma presença em quase todas as capitais do nordeste, incluindo despachos enviados de Recife, Salvador, Aracaju, Natal e a então chamada Cidade da Parahyba (hoje, João Pessoa). Entre outros assuntos nacionais daquele ano, a DTM cobriu a secessão do município de Princesa, também na Paraíba, que proclamou independência como “território livre” e manteve governo independente por alguns meses (de fevereiro a agosto).

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Apesar disso, no dia 8 agosto daquele ano, o jornal carioca Crítica, de Mário Rodrigues (pai de Nelson Rodrigues e de Mário Filho, que dá nome ao estádio do Maracanã) publicava que a agência DTM tivera cassado o seu registro de habilitação para serviço de imprensa, por supostamente ter divulgado “notícias  falsas” sobre um levante de cangaceiros no Rio Grande do Norte (na imagem do alto, à direita). O status de serviço jornalístico era dado pela RGT (Repartição Geral dos Telégrafos), órgão federal responsável pela rede telegráfica pública antes da unificação com os Correios (1931), e conferia aos beneficiados prioridade nas transmissões e desconto nas tarifas cobradas. Pode ter sido uma retaliação do governo de Washington Luiz contra a ampla divulgação dada pela DTM para o assassinato de João Pessoa, duas semanas antes.

A partir daí, as menções à DTM na imprensa começaram a escassear, talvez refletindo o encarecimento dos custos de transmissão, com a cassação do registro, e a consequente perda de clientes. Lá para o primeiro semestre de 1931, as reproduções de despachos da DTM somem completamente, e a agência desaparece sem deixar rastros.

Pelas fontes disponíveis para a pesquisa histórica no Brasil, pelo menos até agora, não é possível saber quem estava por trás da DTM, onde ela estava sediada, nem exatamente quando começou e quando deixou de existir. Para manter uma rede ampla de correspondentes nas principais capitais brasileiras, um serviço em fluxo contínuo (as menções são diárias, ao longo de 1930, na maior parte dos jornais consultados) e arcar com os custos de transmissão por telégrafo, era necessário bastante capital investido. Por isso mesmo, surpreende ser pouquíssima a quantidade de informações publicadas sobre essa agência, tanto na literatura acadêmica quanto na própria imprensa da época.

A sigla, no Brasil, é usada para poucas outras entidades, quase nenhuma ligada à comunicação. Uma exceção é a extinta Diretoria de Telecomunicações da Marinha, atual Diretoria de Comunicações e Tecnologia da Informação da Marinha (DCTIM). De fato, a DTM da Marinha operava comunicações telegráficas pelo território nacional, mas apenas internamente para a força e de forma não-jornalística. Além disso, as primeiras referências à sua existência remontam à década de 1950.

Atualmente, DTM é também o nome de uma subsidiária do grupo Ibope voltada para “marketing de relacionamento e big data”, fundada em 2004 e adquirida em 2013.