“When your audience has unlimited choices, which content will they choose to engage with? Storyful gives you the power to find the most engaging, authentic and inspiring stories on the social web.”

A citação acima descreve o ambiente de rede e sua capacidade de oferecer uma imensa gama de opções aos usuários, o que acaba por criar dúvidas e angústia sobre as escolhas a serem feitas. O problema, no entanto, ganha solução na frase seguinte com a função do Storyful: dar ao usuário o poder de encontrar as “histórias mais envolventes, autênticas e inspiradoras” que surgirem a partir das mídias sociais.

A Storyful funciona como uma empresa de checagem de conteúdos gerados por usuários de redes sociais para clientes de mídia e demais empresas interessadas. Até este mês, se autodenominava como uma “agência global de notícias”. Agora, se afirma como líder global em notícias e conteúdo de mídias sociais para publishers, marketers and production. A matéria-prima para o material que passará pela verificação da equipe da Storyful provém dos seguintes sites:

storyful_midias

O Storyful não é propriamente uma novidade, sua criação data de 2010, em Dublin, mas a empresa conta, atualmente, com escritórios também em Nova York, Londres, Hong Kong e Sydney. Desde 2013 integra o conglomerado do magnata da mídia Rupert Murdoch, a NewsCorp. No seu site, a Storyful alega que a combinação de tecnologia de propriedade e jornalismo em um algoritmo humano lhes dá a habilidade de descobrir, verificar, adquirir e entregar de forma rápida o melhor conteúdo que a web pode oferecer. O que a empresa busca é atuar como um grande filtro no oceano de conteúdos que a rede absorve a cada minuto.

“Storyful cuts through the noise of the social web to find the content and conversations with the greatest impact.”

Mas será que essa habilidade de “silenciar os ruídos” e checar dados/imagens/vídeos apresentados por pessoas de todo o mundo, nem todos de cunho jornalístico, faz da Storyful uma agência de notícias?! Não há dúvidas de que checar informações é uma das etapas essenciais no fazer jornalístico. Mas, por maior reverberação que muitos assuntos possam ganhar no ambiente de rede, nem todos se têm interesse jornalístico. Em muitos deles, o apelo é de entretenimento.

Quando pensamos apenas no material de interesse jornalístico – acho que não é o caso de entrarmos em uma discussão de critérios de noticiabilidade – , a mais valia do serviço é justamente de oferecer a organizações de mídia o uso de parte desta imensidão de material com maior segurança e confiança. Esse exercício de mediação é um dos pontos que aproxima a Storyful das agências. Entre os clientes da empresa destacados no site estão algumas das principais organizações de mídia do mundo:

storyful_clientes

O material depois pode ser visto nos sites de jornais e outros veículos. O New York Times, por exemplo, usou um vídeo feito por uma pessoa que estava dentro da boate Bataclan, em Paris, quando atiradores mataram 130 pessoas em atentado ocorrido em novembro de 2015.  Após a verificação, que passa por itens como a localização geográfica do conteúdo, o vídeo By Storyful ganhou o selo do jornal. Confiança ainda é associada a marcas quando falamos em jornalismo. Assim como as agências de notícias, quando surgiram, deixaram a vida de veículos mais fácil, no sentido de prover um serviço global sem que a empresa precisasse despender de uma rede de correspondentes, o serviço prestado pela Storyful oferece histórias que demandariam muito tempo se dependesse da checagem de cada uma das organizações.

A importância do serviço para o jornalismo, por rastrear e descobrir a autenticidade do material que já está em circulação, vem crescendo a tal modo que sites têm criado ferramentas em colaboração com o Storyful. O Facebook, por exemplo, criou o FB Newswire, que seleciona e verifica vídeos, fotos e outros conteúdos que circulam pela rede social. O recurso é direcionado aos jornalistas. O YouTube Newswire e o First Draft News também são serviços lançados em colaboração com Storyful.

Mas a produção em si, não é da Storyful, diferente de uma agência tradicional. Considerando uma agência com serviços internacionais, por exemplo, é praxe que correspondentes se valham da imprensa local na busca por pautas. Mas a produção do material que será encaminhado aos clientes ainda é responsabilidade de agência. No caso do material checado pela Storyful, não há criação sobre o vídeo em questão. O material repassado ao cliente é o mesmo produzido pelo usuário – a empresa usa a expressão UCG (user-generated content). Neste caso, não há criação ou produção, somente (embora não seja tarefa fácil) apuração e distribuição.

Em entrevista ao jornal espanhol EL País, o jornalista Mark Little (fundador do Storyful e atual vice-presidente de meios do Twitter) diz que o momento atual apresenta perigos, mas também oportunidades ao jornalismo. É preciso arriscar, diz o irlandês, honrar os valores tradicionais do jornalismo e tomar partido das inovações. Ele destaca a necessidade do jornalismo aproveitar o potencial do que os leitores, não mais passivos, podem proporcionar.

“La narración ahora no es unidireccional. Ahora la historia se genera del periodista a los lectores y de los lectores a los periodistas.”

“Creo que los periodistas tienen que manejar esta inundación de información. Una habilidad que todos los periodistas tienen que aprender sí o sí es periodismo de datos. Y muchas veces no es descubrir lo secreto, sino aprovechar lo que es público.”

“Investigar para sacar a la luz lo que alguien quiere ocultar sigue siendo muy importante, pero creo que los periodistas deben centrarse más en interactuar con esta comunidad para investigar y verificar.”

Os parâmetros de comparação com as agências se notícias como conhecemos talvez sirvam apenas para organizar o pensamento sobre um serviço que se faz necessário para o jornalismo. Não é opção aos veículos de comunicação, hoje, ignorar os conteúdos gerados por usuários. Também não é possível dispensar ferramentas que garantam a verificação de testemunhos dos mais variados acontecimentos que decorrem em esquinas de todo o mundo. O jornalismo não dispensa investigação. E o Storyful pode organizar essa relação.

A última novidade, lançada em julho, é o Storyful Podcast, que apresenta discussões a cerca dos desafios, oportunidades e impacto das plataformas das mídias sociais sobre o jornalismo. As questões tecnológicas perpassam a história do jornalismo e, especialmente, das agências de notícias. Primeiro associadas à ampliação do alcance de audiências, se tornam importantes no trabalho de apuração dos jornalistas, e ganham novos contornos na verificação e, consequente, utilização de conteúdos gerados por usuários.

Sobre a pergunta do título, tenho resistência em admitir uma agências de notícias que não produz notícias. Talvez pelo mesmo motivo o empresa tenha retirado a definição do seu perfil recentemente.