(por Pedro Aguiar*)

Até junho, vinha sendo apenas um experimento: a agência norte-americana Associated Press tinha produzido somente dois produtos do que tem chamado de “vídeo 360 graus”, ou “vídeo de realidade virtual” ou ainda, num termo mais preciso, “vídeo imersivo”. Desde então, a produção acelerou: ao todo, oito vídeos foram lançados só este ano. A tecnologia usa câmera de lentes múltiplas em formato esférico para captar imagens em movimento que, ao executar, são rotacionáveis em todos os ângulos enquanto o vídeo roda. Ainda é uma novidade, mas vem ganhando aplicações profissionais na mídia em alguns produtos específicos, especialmente de cunho publicitário.

Em novembro de 2015, a agência produziu o minidocumentário “Seeking Home”, sobre o campo de refugiados sírios e afegãos em Calais, na França, ponto de espera para cruzar para o Reino Unido (fora da zona de união alfandegária do Acordo de Schengen), usando a tecnologia de vídeo imersivo. Em março de 2016, lançou “The Second Line”, sobre um bairro abandonado de Nova Orleães que virou foco resistência anti-violência urbana e contra o racismo.

Mas foi a partir do final de junho de 2016 que a agência começou a publicar vídeos imersivos com mais frequência, começando com uma série gravada na Coreia do Norte (que incluía a visita a uma fábrica e uma apresentação de dança folclórica em praça pública). Na terça-feira, 19 de julho, a AP pôs no ar sua primeira videorreportagem imersiva de uma notícia recente: as homenagens depositadas no chão da Promenade des Anglaises, a avenida à beira-mar de Nice, no sul da França, onde um terrorista matou mais de 80 pessoas com um caminhão, três dias antes (vídeo abaixo).

Nas reportagens experimentais, os espectadores podem mover o ângulo de câmera enquanto a imagem passa, sem interrupção do vídeo e do som. Apesar de rodarem em qualquer interface e poderem ser visualizadas também em telas estáticas, elas são pensadas para visualização em plataformas móveis, como celulares e tablets, e dispositivos como o Google Glass. Os vídeos da AP são desenvolvidos em parceria com a fabricante de chips AMD, que em setembro de 2015 lançou uma subsidiária específica, a Radeon Technologies Group, para lidar com o processamento de gráficos imersivos, realidade virtual e realidade aumentada (como o jogo Pokémon Go).

A possibilidade de produzir vídeos de 360º (embora o termo seja impreciso, já que a rotação em 360 graus se refere ao plano bidimensional, de circunferência, e o plano esférico é tridimensional, podendo girar a própria circunferência em 360 graus – ou seja, 360 ao quadrado) já existe desde meados dos anos 90. Em 1994, foi fundada a primeira empresa especializada em produzir vídeos imersivos, em Dallas, no Texas (EUA): a Immersive Media Company. Mas, durante os primeiros dez anos, o investimento da firma foi concentrado em pesquisa e desenvolvimento.

Em 2004, quando a Google comprou a empresa de mapeamento de imagens geoespaciais Keyhole e lançou o Google Earth (originalmente chamado Keyhole Earth Viewer), a IMC apresentou à gigante de Mountain View a proposta de tirar fotos esféricas de ruas e lugares públicos, permitindo aos usuários que “passeassem” pelos mapas em uma reconstrução virtual das cidades. A Google gostou da ideia mas, em vez de contratar a IMC, decidiu investir em uma tecnologia dela própria, lançando em 2007 o seu Google Street View.

A “vingança” da IMC veio em 2009, quando seu serviço de fotomapeamento foi adquirido pela MapQuest, da AOL/Verizon, já não mais com fotografias estáticas, mas com imagens em movimento, criando um ambiente de vídeo esférico. A empresa também forneceu a mesma tecnologia às forças armadas norte-americanas para fotomapear locais de combate no Iraque, com o nome de “Patrol View”, desenvolvido junto com a DARPA (a agência de pesquisa e desenvolvimento em defesa dos EUA).

O vídeo imersivo é diferente do “vídeo 3D” (tecnicamente, estereoscópico, que projeta duas imagens diferentes aos olhos humanos, para depois o cérebro fazer a “superposição” e criar a ilusão de profundidade) e não necessita de óculos nem qualquer outro aparato externo para ser visualizado. Mas, em celulares, tablets e outros dispositivos móveis, o ângulo pode ser “movido” de acordo com os movimentos físicos do espectador, inclinando o enquadramento para cima, para baixo ou para os lados à medida que inclina a tela.

Usuários experimentam o vídeo em realidade virtual da AP com óculos específicos, durante evento de lançamento (foto: AP)
Usuários experimentam o vídeo em realidade virtual da AP com óculos específicos, durante evento de lançamento (foto: AP)

Em 2010, a tecnologia da IMC ganhou aplicação para o jornalismo pela primeira vez quando a empresa percebeu uma chance de divulgação em duas tragédias ocorridas na América Latina naquele ano: em janeiro, o terremoto que devastou o Haiti e, no mês seguinte, o outro tremor com tsunami que abalou o Chile. Nas duas ocasiões, equipes da empresa texana estiveram nos locais, captaram as imagens da destruição com sua câmera esférica e forneceram-nas gratuitamente a certos canais de TV com potencial global de divulgação, como a CNN, que as aproveitou no seu portal web.

Mas o que uma agência de notícias generalista como a Associated Press, cuja base de sócios ainda é formada majoritariamente por veículos de mídia impressa (ainda que tenha uma subsidiária, a APTN, para telejornalismo), pode querer fazer com uma tecnologia que só pode ser aplicada, pelo menos por enquanto, exclusivamente nos ambientes digitais?

A resposta pode ser: muita coisa.

Como as maiores agências transnacionais privadas do mundo (Reuters, Bloomberg, mas não a AFP), a Associated Press está em busca de reinvenção para superar a crise do jornal impresso, que por século e meio foi sua principal clientela e fonte de receita. Mais que isso: no caso da AP, os jornais foram seus fundadores e até hoje são seus donos, já que a empresa, como o próprio nome indica, é fruto de uma associação entre grupos de imprensa nos Estados Unidos. Entre eles, atualmente, estão o New York Times, os conglomerados Scripps, Hearst, Cox, McClatchy, Lee, Swift e Cowles, mais redes como Disney-ESPN e Univisión, além de cerca de outros 1.400 jornais dos EUA.

A maioria deles não se restringe mais à mídia impressa. Os conglomerados sócios da AP investem em rádio, televisão e suportes digitais, entre outros. Praticamente todos os jornais têm alguma presença digital, seja por meio de website ou de aplicativo para plataformas móveis. E é nessas interfaces que podem usar produtos como o “jornalismo de realidade virtual” da AP.

O YouTube permitiu o upload de vídeos imersivos a partir de março de 2015, e foi justamente naquele ano que a agência de Nova York começou a co-produzir (ou contratar produções independentes) conteúdo nessa modalidade. Uma vez carregados no repositório online de vídeos – que pertence à Google -, o conteúdo pode ser incorporado (“embedado”, no jargão da área digital) em qualquer portal web, em redes sociais e em boa parte dos aplicativos móveis.

Além dos vídeos já citados, a AP publicou ainda as reportagens “tridimensionais” Summer Symphony, sobre um concerto da Orquestra Filarmônica de Nova York no Central Park, em julho; um panorama em 360º e entrevistas sobre o tapete vermelho na entrada da cerimônia do Oscar 2016, em fevereiro, e outros semelhantes no festival de cinema Sundance, no mesmo mês, e no prêmio People’s Choice Awards, em janeiro de 2016; Rush Delivery, uma visão interna do Worldport, gigantesco terminal de triagem e empacotamento de encomendas da transportadora UPS no Kentucky e, finalmente, sobre as obras do metrô da 2ª Avenida, em Nova York, ambos em dezembro de 2015. Os vídeos têm entre 1m16 e 6m44 de duração.

Por enquanto, os gêneros jornalísticos que vêm sendo explorados na modalidade do vídeo imersivo são a reportagem, (especialmente a do estilo de ambiente, que tem mais potencialidade para explorar o recurso da imagem esférica) a crônica, ou feature, no jargão das agências) e a suíte, que é o “dia seguinte” da notícia principal, o desdobrar, o acompanhamento das consequências e repercussões. O primeiro caso é o das reportagens em Calais, em Nova Orleães e na Coreia do Norte; o segundo tipo é o que foi testado mais recentemente com o pós-atentado em Nice. Até agora, porém, o gênero notícia – que é o principal no modelo de negócio das agências – ainda não teve aplicação, pelo menos não na AP.

Mas, se a CNN, corporação com uma faraônica estrutura de produção audiovisual de não-ficção, ainda assim comprou vídeos 360º da IMC, então por que não compraria produtos semelhantes da AP? Mais, além: outras emissoras e canais de televisão, sejam analógicos ou digitais, tendo muito menos capacidade tecnológica (e financeira) de geração de imagens, constituem mercado potencial ainda maior para esse tipo de inovação.

E tudo isso se apresenta sem contar os tradicionais jornais impressos que têm websites e aplicativos como interfaces digitais complementares ao seu conteúdo em papel, para não falar dos veículos que já nascem no próprio ambiente online. Em resumo, existe um ampla clientela prospectiva para os vídeos imersivos que a Associated Press vem desenvolvendo, e é uma questão de inteligência corporativa largar na frente das concorrentes com domínio sobre uma tecnologia que tem condições favoráveis para crescer.

O canal de vídeos imersivos da Associated Press pode ser acompanhado por este link.