A Agência Brasil, agência de notícias nacional do país, foi criada oficialmente em 1990, no governo de Fernando Collor. Mas, desde mais de meio século antes, já havia no Brasil iniciativas precursoras de agências nacionais, a serviço da sociedade brasileira e geridas pelo Estado – mais especificamente, pelo governo federal. É essa visão que dois pesquisadores acadêmicos defendem em um novo artigo apresentado recentemente: “Da Agência Nacional à Agência Brasil: o jornalismo de agências e o Estado brasileiro“.

O artigo foi co-escrito pelos pesquisadores Pedro Aguiar e Juliana Lisboa, editores deste blog, e apresentado no último encontro regional sul da Rede Alfredo de Carvalho de História da Mídia (Rede AlCar), em junho de 2016 em Ponta Grossa, no Paraná. É o primeiro fruto acadêmico da parceria inaugurada pela equipe do blog.

O texto argumenta que existe uma linha de sucessão entre a primeira empresa estatal brasileira elaborada para distribuir notícias, a Agência Nacional – criada por Getúlio Vargas em 1937 – e a atual Agência Brasil, ainda que haja momentos de ruptura e diferenças essenciais entre o tipo de jornalismo e o papel no cenário da comunicação social pretendido por cada uma.

LicurgoRamosdaCosta

A Agência Nacional nasceu poucos meses antes do Estado Novo e, desde o início, ficou sob a égide do aparato estatal de propaganda da ditadura getulista, como o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Sua criação foi obra de dois jornalistas: o catarinense Licurgo Ramos da Costa (foto ao lado e, no alto, com Getúlio), seu primeiro diretor, e o sergipano Lourival Fontes, o “goebbels de Getúlio”. A AN logo virou a fornecedora oficial de notícias para a imprensa brasileira, produzindo material em paralelo com determinações de censura: mandava cortar algo e já entregava o que entraria no lugar.

Com a redemocratização de 1945, passou a ser uma autarquia federal submetida ao Ministério da Justiça. Desde sua criação, teve uma forte característica multimídia, ficando responsável não só por produzir textos para jornais impressos, mas também por produzir cinejornais (minidocumentários que eram exibidos no início das sessões de cinema) e o programa de rádio oficial do governo, A Hora do Brasil (que depois mudou de nome para A Voz  do Brasil).

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Logo depois do golpe de 1964, assim que os militares tomaram o poder, nomearam um general como interventor na Agência Nacional. A partir dali, ela passou a ser vista como dispositivo de “divulgação governamental”, abandonando o jornalismo plural e publicando especificamente a visão da ditadura militar, a agenda oficial e discursos do presidente e das autoridades. Em 1979, o general-presidente João Batista Figueiredo extinguiu a Agência Nacional e transformou-a em EBN (Empresa Brasileira de Notícias).

A nova agência estatal teve vida curta. Durante a redemocratização dos anos 80, tentaram transformá-la numa agência isenta, objetiva, voltada para a sociedade como um todo e com presença internacional. Mas isso esbarrou nas sensibilidades do governo: em 1988, quando a EBN publicou uma entrevista com um ministro militar criticando duramente a política econômica, o então presidente José Sarney acabou com a agência por decreto (uma “canetada”) e colocou suas funções sob a guarda da Radiobrás.

Apenas dois anos depois o país voltaria a ter uma agência, fundada por ordem de Collor sob inspiração da EFE espanhola e da TASS soviética, segundo a revista Veja publicou na época (citada no artigo). A nova Agência Brasil seria um serviço da Radiobrás, mas nunca mais uma empresa autônoma com CNPJ e personalidade jurídica própria. Aos poucos, foi se modernizando e entrou na Internet entre 1996 e 1997, substituindo as tecnologias de distribuição anteriores: fax, telex e BBS. Mas manteve uma característica essencial de suas antecessoras: fornecer tudo de graça para a mídia.

Em 2003, a entrada do jornalista Eugênio Bucci no comando da Radiobrás imprimiu uma nova filosofia à ABr, resgatando o projeto pluralista dos anos 80. Em 2006, a agência reformulou seu portal, sua linha editorial e sua política de conteúdo, passando a produzir videorreportagens especificamente para plataformas digitais e criando uma central de downloads de fotos em alta resolução. Em 2008, a Radiobrás foi incorporada à recém-criada EBC (Empresa Brasil de Comunicação), levando a ABr junto, situação que se mantém até hoje. A importância da Agência Brasil, enfatizam os autores, se manifesta no uso de seu conteúdo pela mídia do interior e pela imprensa alternativa, especialmente digital, levando a informação a um público que de outra maneira não teria acesso a ela.

O artigo pode ser lido na íntegra neste link.

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