por Homero Vianna*

As agências de notícias são um objeto empírico desafiador para os estudos do jornalismo e das comunicações no século XXI. O impacto das novas tecnologias para a distribuição de notícias afetou não apenas a forma como o jornalismo é produzido, mas também como é percebido (GRIESSNER, 2012, p.4). Um vetor-chave para este movimento são as mídias sociais.

À primeira vista, as agências tradicionais, e centenárias, como a agência Reuters e a Associated Press, com estruturas de produção verticais e hierarquizadas, estariam com os dias contados, tais quais “dinossauros” em um novo ambiente de produção e circulação de notícias que envolvem novas experiências de comunicação e um novo ecossistema de notícias com maior interatividade e novos veículos.

No Brasil, uma proporção significativa de usuários buca notícias no WhatsApp segundo levantamento de Instituto Reuters (REUTERS, 2015). O uso do WhatsApp voltado para as notícias no Brasil dobrou nos últimos anos alcançando 34% da amostra urbana pesquisada. Os brasileiros não só abraçaram o WhatsApp, mas também são os maiores usuários do Facebook para notícias, chegando a mais de 70% da amostra urbana para uso da rede em uma determinada semana.

Com a digitalização vieram não apenas novas possibilidades de atingir o público, mas também se alterou substancialmente a forma como as pessoas se comunicam, e interagem entre elas (POSTER, 1985).[i] A distribuição de notícias se encontra em um novo ambiente de comunicação. Isso impõe repensar a tarefa de distribuição de notícias.

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Para as agências de notícias, isso pode significar um desfio a mais, especialmente se dependerem do modelo business-to-business (B2B). Agora há um tipo engajamento dos consumidores nas novas formas de comunicação. Como as agências tiram proveito das mídias sociais e, ao mesmo tempo, preservam seu negócio essencial – vender notícias através de assinaturas?

Afinal, o ambiente de informação com processamento digital e interligado mundialmente por uma rede eletrônica de comunicação vai além dos “fios e tubos” da infraestrutura global de comunicação (BOWKER, 2010). O impacto das novas formas de comunicação e a disseminação dos acessos à Internet, somado à popularização da eletrônica de consumo (TV, computadores, smartphones, tablets, etc.), resultou em novas práticas de relacionamento potencializadas pelas chamadas “mídias sociais”.

Christopher Griessner (2012), em artigo publicado pelo Reuters Institute for the Study of Jounalism, constatou que a hierarquia tradicional de geração de notícias foi desafida pela participação crescente dos usuários na produção de conteúdo – o “cidadão jornalista”. Na rede mundial de comunicação eletrônica cada ponto de acesso se tornou uma fonte de informação, resultando na proliferação da produção individual de informações e notícias.

Não há dúvida à necessidade das empresas em se engajarem nas mídias sociais, mas como? As principais questões colocadas pelo levantamento de Griessner (2012, p.6) são: O que esses novos canais podem oferecer em questão de alcance de públicos, de abordagens mundiais, ou da própria atividade de produção de notícias? As mídias sociais devem ser vistas apenas como um novo mercado? Ou significam um novo valor a ser agregado? Como combiná-las à prática de jornalismo sério, independente e equilibrado?

O ritmo e a espontaneidade das mídias sociais não devem sair de cena tão cedo. Por isso, as agências de notícias terão que encontrar soluções que permitam um entrosamento efetivo entre profissionais e usuários continuamente conectados. A pesquisadora Angela Phillips (2012), da Universidade Goldsmith de Londres, chegou à conclusão de que além dos princípios de rapidez e qualidade, intrínsecos ao jornalismo de agências, agora é necessário somar um terceiro princípio: a sociabilidade. E acrescenta: “Não basta ser completo e confiável, é necessário que a notícia seja produzida de tal forma que se dissemine como um vírus”.

Apps de agencias no meu tablet com filtro BeFunky grunge

As pesquisas apontam o predomínio do uso do Twitter associado às notícias online, não apenas no segmento de agências de notícias, mas para todo o setor de mídia. De acordo com Sounman Hong, pesquisador na Universidade de Harvard, a força do Twitter encontra-se em sua forma assimétrica de comunicação. Enquanto as organizações podem seguir apenas algumas contas, milhares de contas no mundo todo podem seguir aquela organização, o que a torna a ferramenta poderosa para a disseminação de notícias.

Mas, ainda mais interessante é a possibilidade de networking oferecida pelas plataformas o que permite aos jornalistas tanto estarem atentos a fontes estratégicas quanto o compartilharem informações com a elite da mídia. O Twitter tende a funcionar melhor para as marcas de notícias sérias como a BBC e o New York Times. O Facebook tende a favorecer conteúdos e marcas que se concentram mais em entretenimento e estilo de vida, tais como PlayBuzz, o Huffington Post, e Buzzfeed (REUTERS, 2015, p.81).

Entretanto, as entrevistas com profissionais de grandes agências deixa claro que o papel essencial das agências de notícias não foi alterado em função da emergência das mídias sociais (GRIESSNER, 2012, p.31). Ao contrário, a atividade de distribuição de notícias para veículos de mídia online vem crescendo. Os especialistas concordam que as agências não têm como ignorar o impacto das plataformas de mídia social. Apenas em termos exclusivamente de coleta de notícias elas têm um potencial enorme.

A maioria dos entrevistados por Christoph Griessner (2012, p.32) concordou que o fornecimento de conteúdo jornalístico em processo contínuo (serviço wire) é a característica essencial do serviço das agências de notícias. O valor da notícia não muda com o formato de distribuição, mas a maneira como o artigo ou post são confeccionados podem mudar o seu alcance. Eric Carvin, editor da Associated Press, enfatiza a importância da leitura das contas de mídias sociais por pessoas, ao invés de algoritmos, e a forma de composição diferenciada dos tweets, diversa das manchetes dos veículos tradicionais.

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A luta pela atenção no ambiente online é feroz, em função dos usuários restringirem o acesso apenas a uns quantos websites habituais que funcionam como agregadores de notícias, em geral apoiados em poucas fontes. Por isso, se destaca o papel chave das mídias sociais para a mudança de hábitos. Mas, as agências de notícias também usam as mídias sociais para reforçar sua imagem, credibilidade e marca, afirma Griessner (2012, p.32).

Mesmo enquanto a interatividade tem penetração significativa, a comunicação de mão-única continua a ter êxito. Os 2.2 milhões de seguidores da conta @Reuters no Twitter, em 2012, parecem não se incomodar com a comunicação unidirecional. O idioma também é fator relevante quando se trata de comunicação em escala mundial. A conta da agência EFE no Twitter, em espanhol, tem mais seguidores que a conta da Agência France Press em francês (GRIESSNER, 2012, p.32). Nic Newman, do Reuters Institute for the Study of Journalism, acredita que o valor das mídias sociais para as agências se encontra no lado do input (geração de notícias). Entretanto, o designer de mídia Mario R. Garcia defende que o jornalismo 2.0 consiste em “contar estórias trespassando plataformas” (GRIESSNER, 2012, p.7).

A nova relação entre as empresas de mídia social, editores de notícias e jornalistas aponta para a emergência de um novo paradigma, defende Emily Bell, diretora do TOW Center for Digital Journalism da Universidade de Columbia (REUTERS, 2015, p.88). Ela argumenta que o “efeito Facebook” se expande além da plataforma para moldar jornalismo. Segundo a professora Bell, nos próximos anos vamos cada vez mais as organizações de notícias escalando jornalistas para informar diretamente e exlusivamente nas redes sociais. Além disso, as empresas de tecnologia vem contratando pessoal editorial de forma mais explícita, tais como os “curadores de conteúdo” do Facebook, que realizam efetivamente uma função de edição.

O modo como as plataformas sociais devem lidar com as notícias é um enigma, segundo Emily Bell. Um fator que acrescenta complexidade é os programas e algoritmos dessas empresas são comercialmente sensíveis. O negócio das empresas é justamente o modo como usam os dados para atender a seus clientes. Se permitem que esse modo seja conhecido, perdem competitividade. A falta de transparência sobre o que acontece entre a criação das notícias e o modo como ela é consumida nas novas plataformas, resulta em um problema econômico para empresas de notícias e lança questões ainda mais amplas em relação à democracia, segundo Bell. Como o jornalismo se torna cada vez mais dependente dessas novas plataformas de distribuição para encontrar o público, as empresas de notícias serão forçadas a examinar seus modelos de negócios e estratégias no novo ecosistema de mídias.

*Homero Vianna é jornalista e Mestre em Ciência da Informação pelo IBICT.

 
Referências:

BOWKER, G. Towards Infrastructure Studies. In: HUNSINGER, J. et al. (eds.), International Handbook of Internet Research, Springer Science+Business Media B.V. 2010.

GRIESSNER, Christoph. News agencies and social media: A relationship with a future? (Reuters Institute Fellowship Paper). Oxford: University of Oxford, 2012. Disponível em: <https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/NEWS%20AGENCIES%20AND%20SOCIAL%20MEDIA%20-%20A%20RELATIONSHIP%20WITH%20A%20FUTURE.pdf&gt; Acesso em: 23 jun. 2016.

POSTER. Mark. Foucault, Marxism and History. Mode of Production Versus Mode of Information. Polity Press, 1985. Disponível em: <http://www.hnet.uci.edu/mposter/books/&gt; Acesso em: 4 dez. 2015.

REUTERS INSTITUTE DIGITAL NEWS REPORT 2015: Tracking the future of news. Oxford: Reuters Institute for the Study of Journalism. 2015. Disponível em: <https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/Reuters%20Institute%20Digital%20News%20Report%202015_Full%20Report.pdf&gt; Acesso em: 23 jun. 2016.

 

[i] Poster (1985, p.165-166) argumenta que as interações face a face com base na interação simbólica se enfraqueceram, e passou a existir uma nova variedade de padrões de comunicação no tecido social, formas de interação completamente novas passaram a existir relativizando as formas tradicionais de comunicação.