É comum, na lógica dos golpes militares, ocupar emissoras de rádio e de TV como parte da tática de surpreender o inimigo e controlar as informações veiculadas com rapidez, inclusive para disseminar manifestos e transmitir à opinião pública a aparência de game over, de que já se tomou o controle de tudo e de que é inútil resistir. Os militares que tentaram derrubar o governo da Turquia na última sexta-feira, 15 de julho, seguiram o script: ocuparam a TRT, radiotelevisão pública do país, o Kanal D, privado, e a redação do jornal Hürriyet, além de tentarem invadir a redação da CNN Türk, de onde acabaram expulsos à força pelos jornalistas e técnicos.

Enquanto boa parte da mídia turca saía do ar, e a voz do governo legítimo ficava sufocada, quem sustentou a cobertura – inclusive alimentando a imprensa internacional – foi a Anadolu, a agência de notícias estatal da Turquia. Graças a ela, pelo website e pelas redes sociais (especialmente o Twitter), o fluxo de notícias sobre os acontecimentos em Istambul e na capital, Ancara, continuou chegando ao público, em turco e em inglês, e oferecendo uma narrativa distinta da que os golpistas tentavam veicular pelos estúdios ocupados.

Foi a Anadolu que levou ao ar as primeiras entrevistas das autoridades, inclusive o presidente, Recep Tayyip Erdoğan, gravadas em tela-sobre-tela, filmando celulares que transmitiam as declarações pelo recurso de streaming de vídeo ao vivo do Facebook, chamado Facetime.

Erdogan-AA

A movimentação das tropas, os tiroteios, explosões e bombardeios, a resistência do povo nas ruas e praças, os já crônicos engarrafamentos de Istambul piorados pela presença de tanques de guerra nas avenidas e na principal ponte da cidade, sobre o canal do Bósforo – tudo isso foi registrado pela Anadolu, por suas câmeras e seus microfones, e redistribuído para seus clientes ao redor do planeta.

A sua logomarca, com os dois AA espelhados (de Anadolu Ajansı, ou “Agência Anatólia” em turco – em referência à região que ocupa a maior parte do território do país), esteve nas canoplas e marcas d’água das telas da maior parte das imagens que as televisões estrangeiras transmitiam da Turquia para o mundo.

Além de ser a agência de notícias nacional turca, a Anadolu é uma das maiores do mundo, com 2.200 funcionários e uma média de 2 mil despachos por dia. Seus clientes vão desde pequenos jornais locais no interior da Turquia até grandes veículos de imprensa globais. Presta um cardápio de serviços extremamente variados, que inclui texto, fotos, vídeo, infográficos, pacotes multimídia, reportagens investigativas, análises e informações financeiras e de energia, além de resenha de imprensa, serviço de comunicados oficiais e corporativos, provedor de Internet e editora (para publicações, anuário e um jornal diário). A empresa ainda opera um centro de imprensa e capacitação, treinando jornalistas turcos e estrangeiros na rotina produtiva do jornalismo de agências.

Ela foi fundada em 1920 – como é comum, o ano de fundação do moderno estado turco – por iniciativa do patriarca da República na Turquia, Mustafá Kemal, dito “o Atatürk” (pai dos turcos). Hoje funciona como uma empresa estatal autônoma, Anadolu Ajansı S.A. (em turco, Anadolu Ajansı Türk Anonim Şirketi).

AAErdoganapelo

Com 69 sucursais dentro do país e outras 48 no exterior (incluindo quase todos os países do Oriente Médio, mas nenhum na América Latina), a agência turca vem investindo em expandir sua presença como fornecedora de notícias na Eurásia e nos Bálcãs, inclusive em países que foram dominados pelo antigo Império Otomano. Por isso, a Anadolu hoje oferece serviço noticioso em dez idiomas: inglês, francês, russo, árabe, persa, curdo, servo-croata, macedônio e albanês, além do turco, é claro.

Talvez essa seja uma estratégia de soft power que se inscreva dentro do grande plano geopolítico de Erdogan de implantar um “neo-otomanismo“, especialmente voltado para a Ásia Central, onde a maioria dos países fala idiomas de origem túrquica (como o turcomeno, o quirguiz e o cazaque – nenhum deles adotado pela agência). Se for, trata-se de um deslocamento do eixo de projeção de poder da Turquia, que antes era voltado pro Mediterrâneo (na época em que Istambul era a capital do império e se chamava Constantinopla, a Ásia Central estava sob dominação da Rússia). Mas, mesmo que seja uma preocupação mais comercial em conquistar mercados e clientela para seus serviços, a Anadolu certamente se mostra uma agência com forte potencial de crescimento e, como demonstrou na sexta-feira, tem uma estrutura operacional, técnica e jornalística de fazer inveja a muitos países emergentes.