A confirmação da identidade do assassino que matou 50 pessoas e feriu outras 53 numa boate gay de Orlando, nos EUA, chegou à imprensa por uma fonte já conhecida: a agência de notícias Amaq.

Por meio dela, os veículos de comunicação norte-americanos e de outros países ficaram sabendo que Omar Mateen, de 30 anos, nascido em Nova York de pais afegãos, era de fato militante do Estado Islâmico, como havia declarado por telefone ao serviço de emergência 911, na Flórida, pouco antes de cometer o massacre na boate Pulse.

Os jornalistas acostumados a cobrir o Oriente Médio e o mundo islâmico já reconhecem esse nome como um braço informativo do Estado Islâmico, ou ISIS, na antiga sigla pela qual o grupo terrorista ficou conhecido. Investigadores de órgãos de inteligência ocidentais afirmam que a agência segue uma estratégia dos “jihadistas” para alcançar a mídia no Ocidente e nas grandes potências, difundindo suas versões sobre os fatos e comunicados da liderança do Estado Islâmico.

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Comunicado gráfico da Amaq que confirmaria o fato de o assassino ser membro do ISIS

Segundo o jornal pan-árabe Asharq Al-Awsat, a Amaq teria surgido em 2014 e tem adotado a tecnologia de dispositivos móveis como meio preferencial de distribuição, difundindo seus despachos por meio de aplicativos. Já o britânico International Business Times afirma que a agência opera principalmente com o Telegram, aplicativo de mensagens russo concorrente do Whatsapp norte-americano. Segundo o IBT, no início de junho a Amaq denunciou um falso aplicativo para Android que copiava sua identidade visual e estaria sendo operado por órgãos de inteligência e antiterroristas para cadastrar usuários interessados no Estado Islâmico.

Vários grupos terroristas ou militantes contam com agências de notícias para divulgar suas versões dos fatos. Isso não é novidade. Desde a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha fundou a agência Transocean para contrabalançar as notícias antigermânicas divulgadas por Havas e Reuters, que agências são usadas como suporte informativo de conflitos. Como “na guerra, a primeira vítima é a verdade”, a circulação de diferentes versões é amplificada pela capacidade das agências em distribuir textos e fotos para inúmeros destinatários. A própria Tanjug, que já foi uma das maiores agências do mundo, surgiu a partir da guerrilha dos partizans comunistas de Tito, em seu esforço para conseguir apoio dos Aliados na luta contra o nazi-fascismo.

De lá para cá, diversos grupos guerrilheiros, separatistas ou fundamentalistas adotaram a mesma estratégia: os curdos têm a Amed News, a Nawxo, a WZA e a Ajansa Firat, os assírios usam a AINA (Assyrian International News Agency), os tchetchenos operam a SNA (State Information Agency) e a Chechenpress, os abecazes rodam a Apsnypress e a ANNA (Abkhazian Network News Agency) e os militantes da Somalilândia utilizam a SOLNA (Somaliland News Agency).

Os palestinos ficaram experientes nisso, criando a Shehab News Agency, a Ma’an News Agency, Palpress (Palestinian Press Service), Ramattan News Agency, Quds Press International Agency, Tova News, Milad News Agency, Al Zaitona News Agency e a Holy Land Press Service, além da WAFA, que é a agência oficial da Autoridade Palestina.

No conflito atual da Síria, a onda de fundar “agências de notícias” estourou. Surgiu uma miríade de organizações de nomes parecidos mas fragmentadas, como Independent Syrian News Agency, Syrian Free Press, Free Syria News Agency, SMART News Agency, Qasion News e STEP Agency News. Muitas vezes, porém, essas “agências” têm muito pouco além do nome, em geral não passando de uma página no Facebook ou um canal no Youtube para divulgar textos, fotos e vídeos, de veracidade quase impossível de checar.

Infográficos feitos pela agência Amaq

O que parece ser muito diferente na Amaq é a sua complexidade, competência, profissionalismo e qualidade editorial de seu material.

A agência realmente funciona como uma distribuidora sistemática de notícias, em regime de 24 horas, com conteúdo multimídia e textos já formatados em redação jornalística, bem editados e com correção gramatical. Também produz infográficos precisos, de forte qualidade gráfica e em alta resolução, prontos para serem aproveitados em interface web ou mídia impressa. E, como se fosse pouco, fornece despachos em texto em quatro línguas: inglês, árabe, francês e russo, numa estratégia evidente de chegar à mídia e à opinião pública dos mais importantes atores geopolíticos que operam no Oriente Médio e, especificamente, na Guerra da Síria.

Anúncio de falso aplicativo da Amaq que seria "armadilha" de espiões
Anúncio de falso aplicativo da Amaq que seria “armadilha” de espiões

O que a Amaq não tem atualmente é um website. Ela usava a plataforma de blogs WordPress (assim como o nosso), no endereço amaqagency.wordpress.com. Mas, entre maio e abril de 2016, o blog deles foi retirado do ar. O grupo de hackers Anonymous reivindicou estar por trás da derrubada.

Agências militantes do passado

Aqui na Amética Latina, guerrilhas que lutavam contra ditaduras centro-americanas tiveram a EnfoPrensa, da Guatemala, o Centro de Documentacion de Honduras, exilado nos EUA, e a Agencia Nueva Nicaragua, exilada no México, assim como fazia a ANCLA (Agencia de Noticias Clandestina) na Argentina. Atualmente existe a ANNCOL (Agencia de Noticias Nueva Colombia), um blog mantido pelas FARC, na Colômbia.

A Polônia ocupada (por alemães e por soviéticos) em distintos momentos teve agências de partizans e governos no exílio, como a Agence Polonaise de Presse, em Paris, a Polpress, e a Centralna Agencja Polska w Lozannie, de poloneses exilados na Suíça. No leste da Ucrânia, os separatistas do Donbass ou Nova Rússia usam a Novosti Donbassa, a Donbass News Agency e a Novorossiya News Agency.

Também chegou-se a operar a Tibet News Agency, a Liberation News Agency no Vietnã do Sul, a Tamil News Service no Sri Lanka e duas no Saara Ocidental: a SPS-RASD (Sahara Press Service) e a SPresse (Wakalat al-Anba’ as-Sahrawia) – todas em áreas com movimentos ativos para proclamar independência ou expulsar “ocupantes” estrangeiros.