(por Pedro Aguiar)

Os correspondentes que cobrem a crise política brasileira agora já entendem um pouco melhor os meandros do nosso sistema – único, singular, ímpar no mundo. Quando começaram a mandar matéria, no segundo semestre do ano passado, a maioria estava mais perdida que cego em tiroteio. Mesmo alguns que já estão baseados no país há anos tiveram certa dificuldade, no início, para explicar como é que uma presidente sabidamente ilesa de qualquer acusação de corrupção estava sofrendo impeachment por causa de uma tecnicalidade contábil e não por nada objetivamente relacionado ao escândalo da investigação em curso.

Repórteres estrangeiros expatriados no Brasil vivem o que chamo de “Síndrome de Magu”, em referência ao antológico personagem criado por Fritz Utzeri (1944-2013). O premiado e sarcástico jornalista inventou, em suas crônicas bem humoradas, o infeliz Harald Magnussen, o “Magu”, correspondente do fictício jornal sueco Montbläat, que sofria de descrédito junto ao seu editor pra quem mandava matérias do Brasil. Da longínqua e perfeitinha Suécia, o chefe não conseguia acreditar nas rocambolescas, porém reais, tramas da política brasileira. Certa vez, o editor deu a Magu o prazo de 24 horas para desmentir a existência do PMDB.

“Como é possível que exista um partido que seja, ao mesmo tempo, da oposição e do governo? Isso é simplesmente impossível! Ou você pára de beber ou vai para o olho da rua!”, vociferava o chefe sueco contra o pobre correspondente, numa crônica de julho de 2005.

Mas é exatamente essa a função dos correspondentes. Eles precisam não só explicar, mas frequentemente convencer os seus superiores e colegas nos países de origem de que estamos, sim, à beira de um impeachment sem crime, reféns de um parlamento cujo presidente da câmara baixa é réu por corrupção mas campeão da moralidade, em que setores da social-democracia pedem volta do autoritarismo e em que a esquerda corteja o apoio do partido da ditadura militar para tentar se sustentar no poder.

E essa tarefa seria bem menos árdua se o país contasse com um aparato institucional de distribuição de notícias sobre nós mesmos escritas pelos nossos próprios jornalistas, nas línguas estrangeiras, de maneira que a melhor cobertura sobre o Brasil fosse feita por brasileiros.

Isso seria feito com uma agência de notícias internacional brasileira.

Mas não. O Brasil fez uma opção histórica por não ter uma agência de notícias voltada para fora, publicando em inglês (e em espanhol, dada a nossa inescapável inserção na América Latina) e enviando – não só publicando, mas fazendo a logística da informação da fonte para o cliente, até chegar nas mãos dos jornalistas estrangeiros – notícias sobre nós produzidas por nós mesmos.

Fizeram essa opção tanto o governo, que em 13 anos de PT abdicou de construir uma política nacional de comunicação, confiando na docilidade da mídia privada nacional, quanto os empresários dessa própria mídia, que nunca articularam uma agência cooperativa formada por joint-venture entre os principais jornais do país, como são a Associated Press norte-americana, a ANSA italiana, a DPA alemã e a Kyodo japonesa, entre muitas outras. Todas essas agências são resultado da associação entre os jornais, revistas e emissoras principais de seus respectivos países, que deixam de lado a concorrência setorialmente para montar um serviço que beneficie todos, compartilhando custos de cobertura em locais conjuntos e de distribuição externa de seu material original (isso, é claro, sem abrir mão do material exclusivo nem dos furos).

Em vez disso, temos basicamente dois tipos de “agências” brasileiras: ou a dos conglomerados (Agência Estado, Folhapress, Agência O Globo), que são balcões de revenda de fotos e textos já produzidos pelas equipes dos jornais de cada grupo; ou nossa única agência de notícias estatal federal, a Agência Brasil, que desde 2007 foi relegada à condição de “site” da EBC, produzindo uma quantidade ínfima de quatro ou cinco matérias em inglês e espanhol por dia (ainda que o trabalho, conduzido pela jornalista Olga Bardawil, seja admirável, respeitável e melhor que nada, já que era rigorosamente nada até 2012). Nos dois casos, essas agências produzem notícias brasileiras para brasileiros. Para os gringos, ninguém escreve nada.

Mas a “introspecção” da Agência Brasil não é a única causa, e sim um ponto entre uma série de escolhas políticas feitas pelos governos Lula e Dilma. Não aderir à Telesur, criada em 2005 com participação de Venezuela, Argentina, Uruguai e Equador, foi uma escolha. Acabar com o Canal Integración, que produzia conteúdo audiovisual em espanhol para a América Latina, em 2010, foi outra escolha. Não redistribuir a verba publicitária federal, atribuída pela Secretaria de Comunicação Social (Secom), levando ao sufocamento financeiro de mídias independentes, inclusive algumas históricas que também tinham edições internacionais em outros idiomas, como a Cadernos do Terceiro Mundo, foi mais uma escolha. Tudo isso contribuiu para a manutenção do isolamento midiático do país, a despeito de esporádicas capas da The Economist.

Esse tipo de ausência faz a sociedade brasileira pagar caro por não ter quase ninguém que entenda de Brasil no exterior.

No final de março, o jornalista Glenn Greenwald notou, em artigo, que grande parte da cobertura estrangeira sobre o Brasil é feita citando a mídia corporativa privada brasileira, que tem partido tomado na crise e está longe de tentar isenção. Na semana passada, na TV Brasil, o professor Laurindo Leal Filho, especialista em comunicação pública, elogiou o trabalho dos correspondentes baseados por aqui, mas notou a dificuldade em manter a soberania informativa sobre as informações que saem do país, a respeito do país.

Isso é uma exceção brasileira.

Em outros países de mesmo grau de desenvolvimento que o Brasil, como os BRICS, há alguma agência de notícias que distribui, de forma permanente, notícias em inglês sobre si mesmos. A China sustenta a gigantesca Xinhua, que presta serviço noticioso em dez idiomas, emprega 8 mil jornalistas e tem 138 escritórios espalhados pelo mundo. A Rússia mantém duas agências distintas – a TASS, desde os tempos soviéticos, e a recém-criada Sputnik, que produz conteúdo para rádio em cinco idiomas e web em 31 idiomas, além de enviar 790 matérias por dia, em média. A PTI, da Índia, é outro colosso formado pela cooperação entre jornais concorrentes indianos, com 400 jornalistas que produzem 2 mil matérias por dia.

Para ficarmos só na nossa região, a Argentina mantém a Télam (Telenoticiosa Americana) desde a primeira época de Perón, hoje ameaçada pelos cortes orçamentários do governo Mauricio Macri, mas ainda assim um canal de referência nacional e internacional para bom jornalismo – e para cobrir as notícias argentinas. Os governos da Guinada à Esquerda latino-americana entenderam o potencial multiplicador das agências e investiram no setor. A Venezuela de Chávez remodelou sua antiga Venpress como a AVN (Agencia Venezolana de Noticias), enquanto o Equador de Rafael Correa estabeleceu a ANDES (Agencia de Notícias del Ecuador y Sudamérica), a Bolívia de Evo Morales criou a ABI (Agencia Boliviana de Información) e o Paraguai de Fernando Lugo fundou a IP-Paraguay. Os países sul-americanos que não têm agências públicas de notícias são Colômbia e Chile, justamente os dois geopoliticamente mais próximos dos Estados Unidos, mais o Uruguai, que estuda criar uma.

Nenhuma dessas empresas é só “um site”. Todas elas contam com estrutura de transmissão de informação até os destinatários finais, seja por linha dedicada, intranet ou conexão via satélite. Com exceção da ABI e da IP-P, elas operam em mais de um idioma (em geral, pelo menos o nativo e o inglês), fazendo da tradução parte central de sua rotina produtiva. E, com isso, conseguem tornar-se referência mundial na cobertura do noticiário sobre seus respectivos países, especialmente garantindo que os jornalistas estrangeiros tenham acesso aos pormenores do dia-a-dia. Mesmo que eles só publiquem uma pequena fração do conteúdo, pelo menos recebem e leem. E, na hora de cobrir uma crise, não partem do zero, mas de uma base informativa construída a conta-gotas.

Não podemos esperar que os jornalistas lá fora aprendam português para nos cobrir com propriedade, factualidade, apuração própria e checagem minuciosa. Não podemos contar com a boa vontade deles em vir buscar informações verídicas e de fonte confiável sobre nossa realidade, nosso contexto e nossos processos históricos. Não podemos confiar na imparcialidade já há muito abandonada da nossa imprensa privada para ser referência externa junto aos repórteres e editores do exterior.

O cenário só será alterado quando o Estado brasileiro contar com uma agência de notícias voltada para fora, com serviço permanente em língua estrangeira, e volume significativo de output, em entrega garantida por canais de distribuição e logística de transmissão própria e soberana.

Enquanto isso não ocorre, continuamos largamente ignorados e vistos como exóticos pela cobertura estrangeira – que, na falta do fluxo contínuo de notícias em língua estrangeira, só fala do país na excepcionalidade de crises ou do pitoresco –, deixando que os outros contem para o mundo os acontecimentos que definem a nossa própria história.