O filme “Uma Mensagem de Reuter” (A Dispatch from Reuter’s, no original), de 1940, conta a trajetória de Paul Julius Reuter, fundador da agência de notícias Reuters, nascido alemão e naturalizado britânico – e como sua vida é uma aula sobre a época de consolidação do capitalismo.

O filme está disponível na íntegra no YouTube, com diálogos em inglês, sem legendas.

Nascido Israel beer Josaphat numa família judia de Cassel, no Eleitorado de Hesse, em 1816, ele começou trabalhando na casa de câmbio de um tio em Gotinga, onde conheceu Carl Gauss (da função gaussiana), que fazia experimentos com telégrafo sem fio, e serviu como seu assistente.

Josaphat ficou, então, interessado no negócio das comunicações, a princípio para auxiliar o setor financeiro, bancos e casas de câmbio, a saberem cotações de moedas e outros produtos. Em 1845, mudou-se para Londres. No entanto, o que ele tinha de sobra na Alemanha lhe faltava na Inglaterra: uma rede de contatos extensa para obter e disseminar informações. Para conseguir montar essa rede, Josaphat teve de entrar para a alta sociedade britânica. A melhor maneira que conseguiu foi convertendo-se ao cristianismo e mudando de nome – escolheu, para si mesmo, Paul Julius Reuter.

O negócio da editora não deu certo. Reuter mudou-se para Berlim e entrou de sócio para uma livraria e editora que publicava panfletos liberais, o que na época era tido como subversivo. Perseguido pelas autoridades prussianas, Reuter fugiu para Paris.

Na capital francesa, trabalhou no que era então a primeira agência de notícias do mundo, criada por outro judeu, Charles-Louis Havas. Lá, conheceu Bernhard Wolff, conterrâneo e igualmente judeu, com quem trabalhou. Ambos eram adeptos das idéias liberais.

Com o início das Revoluções de 1848, que varreram a Europa e implantaram o liberalismo, Wolff e Reuter voltaram para seu país. O primeiro decidiu montar uma agência em Berlim para fazer o que Havas já fazia na França – a Wolff, antecessora da atual DPA. Para concorrer, Reuter montou uma empresa semelhante em Aachen (ou Aquisgrana), o ponto terminal da linha de telégrafo que vinha de Berlim na direção de Paris. Do outro lado, o cabeamento chegava só até Bruxelas, deixando intervalo sem cobertura entre as duas metrópoles. A imagem inicial que abre o filme é justamente o mapa mostrando esse “buraco”. Para cobrir o trecho ainda não conectado, Reuter treinou uma pequena esquadrilha de pombos-correio que voavam com os despachos até o posto de telégrafo seguinte, de onde a mensagem seguia pelos cabos elétricos até a capital francesa.

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Em 1851, quando a Grã-Bretanha foi conectada ao continente europeu pelo cabo telegráfico sob o Canal da Mancha, Josaphat foi aconselhado a se mudar para Londres e iniciar uma outra agência lá, para distribuir informações aos mercados londrinos.

Reuter seguiu o conselho e criou a Mr Reuter’s Cabled Messages, que mais tarde perdeu o apóstrofo e se tornou a maior agência de notícias do mundo até hoje. Mais que isso: virou uma instituição auxiliar do Império Britânico, fincando o pé onde quer que a Union Jack tremulasse, servindo de estrutura informacional para o imperialismo desde o século XIX.

Em 1871, quando a Prússia se uniu à Baviera, Suábia, Hesse, Saxônia e outras regiões para formar a Alemanha unificada, Reuter recebeu um título de barão, conferido pelo duque de Saxe-Coburgo-Gota, nobre alemão e parente do marido da rainha Vitória.

Faleceu em 1899 em Nice, no sul da França, e foi enterrado em Londres.

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Apesar de ser produção norte-americana da Warner Bros., “A Dispatch from Reuter’s” é dirigido por William Dieterle, também alemão, que antes trabalhara com Friedrich Murnau e Max Reinhardt. O elenco tem Edward Robinson como protagonista (judeu, assim como Reuter) e Edna Best como sua mulher.

A vida de Reuter também já foi registrada em alguns livros, especialmente em “The Power of News”, de 1992, escrito pelo “biógrafo institucional” da agência, Donald Read.