Uma historiadora alemã afirma em nova pesquisa que a agência de notícias Associated Press (AP), com sede em Nova York, colaborou com a Alemanha nazista na década de 1930. O estudo foi divulgado nesta quarta-feira (30) pelo jornal britânico The Guardian e tema de matéria no The New York Times. A AP negou que tenha cooperado com o regime de Hitler.

A pesquisa de Harriet Scharnberg, da Universidade Martinho Lutero, argumentou que a AP foi cúmplice ao permitir que os nazistas retratassem “uma guerra de extermínio como uma guerra convencional”. A agência forneceu aos jornais americanos, conforme documentos descobertos pela historiadora, material diretamente produzido e selecionado pelo ministério da propaganda nazista, comandado por Josef Goebbels.

Quando regime nazista tomou o poder na Alemanha, tanto a imprensa local quanto a internacional foram reprimidas com uma lei restritiva em 1933. No entanto, a AP foi a única autorizada a continuar trabalhando na Alemanha até 1941, quando os Estados Unidos entraram na guerra. No artigo publicado pelo periódico acadêmico Studies in Contemporary History, Scharnberg apontou que a AP só pôde manter esse acesso graças a um acordo de cooperação mútua com o regime nazista.

De acordo com a reportagem do jornal britânico, a AP cedeu o controle da sua produção à Schriftleitergesetz (lei dos editores), que proibia a veiculação de materiais destinados a “enfraquecer o poder do Reich no exterior ou no país” e obrigava os meios de informação a contratar repórteres que trabalhavam para a divisão de propaganda do regime nazista.

Um dos quatro fotógrafos contratados pela AP nos anos 1930, Franz Roth, era um membro da divisão de propaganda da unidade paramilitar SS. O jornal afirma que a AP removeu imagens de Roth do seu site desde que Scharnberg publicou suas descobertas. A agência também teria permitido ao regime nazista o uso de imagens em livros de propaganda anti-semita .

Em um comunicado, a AP informou que “rejeita a sugestão de que colaborou com o regime nazista em qualquer momento”. A nota diz que a agência foi submetida à pressão do regime nazista no período em que Hitler chegou ao poder, em 1932, e foi expulsa da Alemanha em 1941. “A equipe da AP resistiu à pressão ao fazer o seu melhor para recolher notícias precisas, vitais e objetivas para o mundo em um tempo escuro e perigoso “, diz o texto. A agência defende ainda que ajudou a alertar o mundo sobre a ameaça nazista e lembrou o Prêmio Pulitzer recebido pelo chefe da sucursal em Berlim, Louis P. Lochner, em 1939.

Para o estudo realizado pela pesquisadora alemã, a AP deu a seguinte justificativa:

“A pesquisa histórica de Sra. Scharnberg diz respeito a uma agência de fotografia alemã subsidiária da AP Britânica, que foi criada em 1931, dois anos antes dos nazistas chegaram ao poder. A partir de 1935, esta operação subsidiária tornou-se sujeita à lei de imprensa controle nazista, mas continuou a recolher imagens fotográficas dentro da Alemanha e mais tarde dentro países ocupados pela Alemanha.”

A AP reconhece que imagens disponibilizadas pelo regime nazista foram distribuídas a jornais norte-americanos, mas afirma que os créditos e legendas das fotos deixavam isso claro, e que a decisão sobre a publicação cabia aos editores dos veículos. A empresa destacou o valor histórico das imagens, mas disse não ter se envolvido na publicação direta do material e, até que a investigação de Scharnberg, “não tinha conhecimento de qualquer acusação de que o material pode ter sido diretamente produzidos e selecionados pelos ministérios de propaganda nazista.”