A Google entrou de vez no mercado de distribuição de notícias, associando-se a grandes agências e incubadoras de empresas para desenvolver soluções de mercado para o jornalismo no ambiente digital. Por meio da Google Digital News Initiative, a gigante norte-americana assinou esta semana algumas parcerias e abriu linhas de financiamento até 2019 para projetos específicos que envolvem agências de notícias, inclusive de grande porte como AFP e EFE.

No total, foram liberados 150 milhões de euros para 128 projetos (nem todos de agências), entre mais de 1.200 que se candidataram.

A ideia é patrocinar projetos que lancem iniciativas de jornalismo digital pelos próximos três anos, “criando um fundo para apoiar e estimular” soluções de produtos de notícias e informações em web, plataformas móveis e outros suportes. Para escolher os vencedores, a Google levou em conta “o nível de inovação, a viabilidade e o impacto potencial” de cada projeto.

A convocatória, uma espécie de “edital”, foi lançada em outubro do ano passado. Apenas empresas jornalísticas de países da União Europeia e da EFTA (Área de Livre-Comércio da Europa) podiam participar.

O projeto é concentrado na Europa, onde a empresa californiana vem sendo alvo de pressões e regulação por parte de órgãos tributários e judiciais da União Europeia e seus países-membros, especialmente em conflito com legislação antitruste. Desde a revolta de jornais contra o Google News, agregador que “se apropria” de conteúdo da mídia para montar edições personalizáveis, a gigante de Mountain View é questionada no velho continente pela suposta forma como pratica concorrência desleal, maquia resultados de busca para favorecer anunciantes e faz acordos com cada país para obter condições privilegiadas de isenção fiscal.

Por isso, a Digital News Initiative vem a calhar – e agências de notícias europeias estão surfando esta onda.

Uma das contempladas foi a France-Presse, que com a ferramenta AFP Interactive pretende desenvolver formatos de infográficos interativos, em que o usuário possa visualizar dados à medida que os manipula. O jornalista Jules Bonnard, que participou da elaboração do projeto, disse ao jornal francês Les Echos que a agência “já tinha colocado as bases de alguma coisa concreta há um ano, mas que faltava encontrar financiamento para continuar”.

A EFE espanhola recebeu da DNI patrocínio para um sistema de cobertura ao vivo de notícias em andamento desenvolvido em código aberto com a ONG tcheca Sourcefabric. Já a Lusa, agência portuguesa, terá financiado seu novo portal para o mundo lusófono (o que inclui o Brasil) e a ANP, holandesa, ganhou investimento para seu serviço de jornalismo para crianças e adolescentes, produzido em parceria com a startup WizeNoze, de Amsterdã.

A Google já vinha fechando acordos com grandes agências e suas sócias. Na segunda-feira, a empresa de Larry Page e Sergey Brin anunciou uma parceria com a Next Media Accelerator, sediada em Hamburgo, na Alemanha, uma “aceleradora de startups”. Esse tipo de empresa, meio consultoria, meio fundo de investimentos, funciona como uma incubadora para empresas iniciantes que tragam iniciativas transformadoras em comunicação digital, selecionando alguns que julguem ter maior potencial de ganhar dinheiro – mesmo que sejam empresas de garagem de garotada nerd, estudante de tecnologia.

E é nesse tipo de patrocínio que a Google e agências estão apostando.

Outra delas, a Matter, sediada no Vale do Silício e voltada especificamente para negócios de mídia, já trabalhava com a Google desde junho de 2015, e em outubro fechou uma parceria com a Associated Press e grandes grupos de imprensa americanos, como Knight e McClatchy, concorrentes da agência.

Na semana passada, durante a “Super Terça-Feira”, a Google e o Twitter lançaram junto com a Associated Press uma ferramenta para acompanhar a cobertura eleitoral nos EUA: a AP Election Buzz. O mecanismo associa despachos da agência a resultados de busca no Google e aos trending topics do Twitter para mostrar assuntos mais comentados na rede, minuto a minuto. O acesso integral é fechado para clientes.

Por outro lado, nem sempre a atitude da Google é de “parceria” com as agências de notícias. Há casos em que elas podem bater de frente. Em junho do ano passado, a empresa lançou o Google News Lab (nos EUA e na França, Alemanha e Reino Unido, por enquanto), para ajudar jornalistas – da grande mídia e independentes – a desenvolver conteúdo com maior potencial de visualização e audiência na rede. Um dos primeiros usos do Lab para concorrer com agências foi a criação do YouTube Newswire, um canal do portal de vídeos (que pertence à Google) com curadoria da Storyful, empresa irlandesa fundada em 2009 que se intitula como “a primeira agência de notícias para mídias sociais”. Os jornalistas profissionais da Storyful se encarregam de selecionar e checar vídeos sobre notícias da hora postados no YouTube e, depois de verificados, indexá-los no canal, por tema e ordem cronológica.

Porém, mais que contra agências, a investida da Google pode significar uma queda-de-braço com o Facebook, que desde 2014 vem assinando contratos com jornais e outros veículos de comunicação para distribuir conteúdos por meio de sua rede social. Com isso, a empresa de Zuckerberg consolida a prática dos usuários de usar o Facebook como “portal universal” para todo o conteúdo que acessam na internet, e ao mesmo tempo garante aos produtores de conteúdo o privilégio de ter seus textos, fotos e vídeos exibidos “à força” para milhões de usuários.

Mas a palavra final sobre quem vai ver o quê, graças ao algoritmo, é do Facebook.

No ano passado, o professor Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, criticou a mudança de política empresarial de Zuckerberg, que passou a privilegiar a grande mídia, silenciando em seu algoritmo a mídia alternativa que não tem orçamento para bancar os altos custos cobrados para aparecer nas timelines dos usuários.

“Antes, a organicidade era muito grande. A Mídia Ninja, por exemplo, se irradiava a muitos usuários. No final de 2014, o Facebook decidiu que só vai ter mídia orgânica quem paga. Logo o Facebook se tornou uma máquina na qual quem tem grana consegue propagar sua informação pra mais gente. Criou-se o abuso de poder econômico”, disse Malini à Agência Pública.

A resposta da Google para isso, lançada em janeiro, vem sendo o AMP (Accelerated Mobile Pages), uma espécie de “HTML simplificado” que ela oferece como novo padrão para as empresa de mídia formatarem seus conteúdos, de forma a abrir tudo mais rápido e mais leve nos dispositivos móveis, que em geral (ainda) têm menor capacidade de processamento que um computador desktop. Assim como o formato “instant article” (algo como “matéria instantânea”) do Facebook, ele tenta ganhar na velocidade de acesso para quem acessa via celular ou tablet – mas, no fundo, está também mediando e controlando a distribuição do conteúdo na “last mile”, a última ponta, até o consumidor final de informação.

Para as agências, o controle sobre os canais de distribuição na rede é uma preocupação, já que elas sempre estiveram acostumadas a ter os seus próprios para enviar seus despachos aos clientes. Agora, porém, os fluxos não são mais exclusivos para elas. No momento em que a Google e o Facebook passam a controlar esses canais, eles mesmos entram no mercado de circulação de informações, de alguma maneira fazendo o trabalho que Reuters, AP e AFP já faziam desde o século XIX.

E, se não podem vencê-los, as agências unem-se a eles.