(por Letícia Nunes, no Observatório da Imprensa)

A Associated Press, que se orgulha de ser a primeira agência de notícias ocidental a ter uma sucursal na Coréia do Norte, é acusada de ter um acordo para distribuir propaganda e se submeter à censura do governo norte-coreano. A agência nega.

Em um longo artigo no site NK News, o jornalista Nate Thayer, que já trabalhou como freelancer para a AP, alega existir um acordo formal que dá ao órgão de mídia estatal norte-coreano poder sobre o escritório, os funcionários e o conteúdo produzido pela AP no país.

Segundo Thayer, membros da equipe da sucursal – que, obviamente, não revelam suas identidades – afirmaram que, apesar de tentar não atuar como porta-voz do governo, a AP não tem como evitar a pressão das autoridades, indicando que alguns dos profissionais do escritório norte-coreano teriam sido escolhidos pelo próprio governo.

“Um esboço de um acordo interno entre a AP e a Agência Central de Notícias da Coreia, datado de dezembro de 2011 e obtido pela NK News de fontes de dentro da AP, sugere que – longe de ser um bastião da imprensa livre – a sucursal da AP em Pyongyang serve primordialmente a distribuir notícias aprovadas e censuradas pelo governo norte-coreano”, escreve Thayer, afirmando que a veracidade do documento foi confirmada por 14 funcionários e ex-funcionários da sucursal, aberta em janeiro de 2012.

O jornalista nota, para corroborar sua alegação, que nenhuma matéria sobre a invasão ao sistema da Sony Pictures por conta do filme A Entrevista, sobre a morte do líder norte-coreano Kim Jong-un, foi assinada da sucursal em Pyongyang, assim como nenhum artigo sobre o misterioso desaparecimento de Kim por seis semanas, em setembro de 2014.

Esclarecimentos

Paul Colford, porta-voz da AP, negou as alegações, chamando-as de “risíveis”. “O ‘esboço do acordo’ entre a AP e a agência norte-coreana que [Thayer] cita está longe do documento final”, declarou Colford. O porta-voz afirmou que Thayer teria ficado insatisfeito com a AP por causa de um acordo de distribuição que tinha com a agência sobre imagens que havia filmado no Camboja.

A AP não se submete a censura. Nós não submetemos matérias à agência norte-coreana ou a qualquer oficial do governo antes de publicá-las. Ao mesmo tempo, os oficiais são livres para conceder ou negar acesso ou entrevistas”, completou.

O diretor do site NK News, Chad O’Carroll, que publicou o artigo de Thayer, afirmou que a AP está fugindo do assunto. “Se, como sugere o senhor Colford, há diferenças entre o esboço e o acordo de fato assinado, a AP deveria esclarecer publicamente estas diferenças. A NK News solicitou à agência explicações e detalhes de operações por diversas vezes, mas não obteve uma resposta consistente”, afirmou O’Carroll.